“O candidato sou eu”


Quem fez a afirmação acima foi Jair Bolsonaro durante a entrevista – por sinal, muito boa – que concedeu à revista Veja, publicada como matéria de capa na edição que começou a circular no final de semana.
Em conversa que se desdobrou ao longo de seis páginas, ele comemorou a vitória dos conservadores nas eleições municipais, defendeu a anistia aos manifestantes do 8 de Janeiro, reclamou das perseguições que lhe são impostas pelo STF, principalmente pelo ministro Alexandre de Moraes, criticou o desempenho do governo Lula e falou sobre o seu futuro político.
Reproduzo abaixo algumas das perguntas feitas pelo repórter Sérgio Ruiz Luz e as respostas do ex-presidente:
Diante do fato de que o senhor está inelegível, quem pretende apoiar em 2026?
Falam em vários nomes. Mas eu só falo depois de enterrado. Estou vivo. Com todo o respeito, chance só tenho eu, o resto não tem nome nacional. O candidato sou eu.
Mas senhor acha que é possível recuperar os seus direitos políticos?
“Eu pretendo disputar 2026. Não tem cabimento a minha inelegibilidade. O processo por abuso de poder político foi por ter me reunido com embaixadores antes do período eleitoral. Não ganhei um voto com isso. No caso do poder econômico, subi no carro de som na manifestação do 7 de Setembro e fiquei lá abanando. São injustiças, uma perseguição. O pessoal já sabe, mas preciso massificar isso entre a população. Depois, as alternativas são o parlamento, uma ação no STF, esperar o último momento para registrar a candidatura e o TSE que decida. Não sou otimista, sou realista. Estou preparado para qualquer coisa”.
Tudo indica que a PF irá indiciá-lo no caso da tentativa de golpe. Não teme esse processo?
“É só perseguição, sinto isso o tempo todo: baleia, leite condensado, cartão de vacina, golpe usando a Constituição. Dar golpe é a coisa mais fácil, pega uns malucos… mas, e no dia seguinte? Nunca joguei fora das quatro linhas. Não tenho medo de julgamento, minha preocupação é quem vai me julgar”.
Durante a campanha municipal, o senhor reclamou mais uma vez de uma decisão do ministro Alexandre de Moraes no caso da busca e apreensão tendo como alvo um de seus aliados, o deputado Gustavo Gayer. Por que disse na ocasião “sempre ele”, referindo-se a Moraes?
Nas últimas eleições, nós do PL enfrentamos a máquina estadual, a municipal e o Alexandre de Moraes, com aquelas buscas e apreensões. Ele interveio na minha eleição. Quando inventou o inquérito dos empresários golpistas, inibiu uma gama de gente que estava do meu lado. Agora, na derrubada do X, perdi contato com milhões de pessoas. É a rede mais democrática que nós temos. Eles não querem censurar fake news nem barrar desinformação, querem censurar a verdade. A turma que está lá com o Moraes, como o pessoal da PF, são pessoas que trabalham atendendo ao desejo dele.
O senhor é a favor de um movimento no Senado para aprovar impeachment de ministros do STF?
Não é bom ter um Senado para votar impeachment de quem quer que seja. Impeachment não é o ideal, significa que estamos vivendo uma anormalidade. Eu quero um Judiciário forte, isso é uma garantia para todos nós. Mas precisamos também ter equilíbrio entre os poderes. O Judiciário foi jogado na vala do partidarismo.
O senhor está empenhado no movimento de anistia no Congresso aos implicados no 8 de Janeiro. Acha que isso passa em votações na Câmara e no Senado?
Falei recentemente com o Arthur Lira, o presidente da Câmara, e ele vai transformar o projeto de anistia em comissão especial. Vamos levar para conversar com os parlamentares gente como a mãe que tem seis filhos em Ji-Paraná, Rondônia. O pai foi condenado a 17 anos de cadeia, está foragido. Fiz um vídeo, apelei aos senhores do STF, tem que ter um pouco de coração. Seis crianças vão crescer sem o pai. É um abuso na condenação. Já deu o que tinha que dar isso aí. Tenho dito que, nessa história de anistia, o meu caso está em segundo plano.
Nos bastidores, fala-se que Lula e o PT teriam interesse em ajudar o senhor a recuperar os direitos políticos, pois seria mais fácil enfrentá-lo em 2026 do que outros presidenciáveis. O que acha dessa tese?
Já ouvi isso aí. Vão me rememorar como fascista, racista, homofóbico, grosso… Estou com 69 anos. Não tenho obsessão pelo poder, mas tenho paixão pelo meu Brasil, por essa multidão que me acompanha em qualquer região. Se Deus me der essa oportunidade de disputar as eleições, debato com qualquer um. O governo Lula está destruindo o legado que deixei. Não teve corrupção na minha gestão, fui o único presidente com teto de gastos, passamos o Bolsa Família para 600 reais com responsabilidade fiscal, colocamos gente qualificada nos ministérios e nunca defendi regulação das mídias como o PT quer fazer agora.
Não teve até agora nenhum acerto?
A reforma tributária é um desastre, vão taxar tudo, até os sonhos. No meio ambiente, vimos aí a questão das queimadas, das mortes dos yanomamis. A política externa é um desastre.
Caso volte um dia ao Palácio do Planalto, faria algo diferente em relação ao seu governo?
Teria ministros palacianos com um perfil mais político. Manteria o “cercadinho”, pois gosto do contato direto com o povo. Continuo “imbrochável” e não errei em nenhuma das observações que fiz durante a pandemia.
Dá para ver que o capitão está pronto pra guerra e não vai capitular facilmente na luta para tentar reconquistar a presidência da República. Fortes emoções à vista.











