OPINIÃO

Tudo muito suspeito

Nos primeiros movimentos da oposição para criar a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito destinada a deslindar os incidentes que abalaram Brasília no dia 8 de janeiro, o governo Lula fugiu do assunto como o diabo foge da cruz.

Ainda que jurassem não ter nada a esconder sobre os ataques dos vândalos que depredaram as sedes dos três poderes, o PT e seus aliados não queriam de jeito nenhum ir a fundo nos meandros da história e trabalharam intensamente para evitar que a proposta prosperasse, liberando fartas benesses a deputados e senadores para tentar matar a investigação no nascedouro.

Quando surgem, porém, os surpreendentes vídeos que flagraram o general G. Dias, então chefe do Gabinete de Segurança Institucional e homem de confiança de Lula desde o primeiro mandato do petista, confraternizando com os invasores nos gabinetes da Presidência da República, o Palácio do Planalto viu que não lhe restava outra saída senão apoiar a instalação da CPMI, declarando que o fazia para provar que não guarda nenhum segredo sobre os deploráveis eventos.

Mas pelo visto não é bem assim.

Logo na sessão em que votou-se a tomada dos primeiros depoimentos, a maioria governista aprovou a convocação de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, e do tenente-coronel Mauro Cid, que foi ajudante de ordens do ex-presidente, mas negou o pedido para inquirir figuras ligadas a Lula, revelando que pretende, sim, varrer alguma sujeira para debaixo do tapete.

Expressando seu inconformismo com a decisão, o presidente da CPMI, deputado Arthur Maia, escreveu em suas redes sociais: “Foi constrangedor ver a maioria do colegiado rejeitar requerimentos de convocação de personagens centrais nessa investigação, como é o caso do G. Dias, ex-GSI, do Saulo Moura da Cunha, ex-Abin, e do ministro da Justiça, Flávio Dino”.

E avisou: “Na próxima sessão, me comprometo a pautar os requerimentos representados e o farei quantas vezes forem necessárias. Espero que possamos aprovar todos os nomes, sem distinção, para garantir que todos sejam ouvidos a fim de que se chegue na verdade. Confio na consciência daqueles deputados que têm compromisso com a opinião pública e acredito que a gente consiga mudar essa realidade. É inaceitável ouvir apenas um lado.”

De fato, é inaceitável. Mas também escancara a evidência de que o governo tentará blindar a qualquer custo o general Dias, principalmente depois que se descobriu que ele não só adulterou documentos para apagar alertas recebidos na véspera do 8 de Janeiro, advertindo que a capital federal poderia enfrentar graves distúrbios, como tentou esconder do Congresso essas informações.

Ou seja, a conduta do militar reforça a tese de que, mesmo tendo prévio e amplo conhecimento de que uma grande baderna iria ocorrer, o governo pouco fez para impedi-la ou contê-la, deixando a destruição correr solta para incriminar os adversários e acusá-los da tentativa de aplicar um golpe de Estado.

Como diria o príncipe Hamlet, vivendo seu drama existencial na célebre tragédia escrita por Shakespeare, parece que há algo de podre no reino da Dinamarca.

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Um Comentário

  1. a”Aguma sujeira para debaixo do tapete”, não. É um aterro sanitário inteiro; ou melhor, um lixão a céu aberto, já que aterro sanitário tem a ver com saneamento básico, coisa de que essa escumalha encastelada no poder não gosta.

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