Caindo na real


Só aumenta o desfile dos arrependidos que, por ação ou omissão, contribuíram para colocar novamente o Brasil nas mãos da organização criminosa que saqueou os cofres da República por quase duas décadas.
Quem acaba de juntar-se à chorosa procissão dos desapontados é o jornal O Estado de S. Paulo, o único dos grandes veículos de imprensa do país que ainda defende, em certa medida, os ideais e valores da direita e do conservadorismo, mas que cometeu o erro de não dar um tratamento mais justo ao governo Bolsonaro, ajudando com sua influência a alimentar e fortalecer os discursos da oposição.
Em editorial publicado em sua edição deste sábado, véspera de Natal, o centenário Estadão desfia com palavras duras o seu mais profundo desencanto com os primeiros movimentos e os prováveis rumos do próximo mandato de Lula.
Vejamos alguns de seus parágrafos mais demolidores:
“Depois de uma campanha eleitoral defendendo a necessidade de um governo formado por uma frente ampla e depois de um discurso da vitória no segundo turno afirmando que ‘esta não é uma vitória minha nem do PT’, é absolutamente decepcionante para o País verificar a composição dos Ministérios que vai sendo delineada pelo presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva.
Todos os postos decisivos estão a cargo do PT ou de gente que, por mais que esteja circunstancialmente em outra legenda, sempre teve e continua tendo a mesma visão do PT. Desenha-se, portanto, um governo radicalmente petista, justamente o contrário daquilo que foi repetidas vezes prometido.
A rigor, ninguém pode dizer que está surpreso com tal situação. O passado petista nunca possibilitou qualquer esperança de um governo do PT politicamente aberto e plural.
Ao longo da história da legenda, observa-se uma firme constante: sempre consideraram que eles, apenas eles, têm as soluções para o País. Todo o restante do mundo político estaria equivocado. Não teria nada a acrescentar na discussão e no desenho das políticas públicas.
Daí se entende que a brutal e irracional oposição do PT ao governo de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, não foi mera tática circunstancial. A legenda nunca foi capaz de enxergar nada de bom além de suas linhas.
A partir daí entende-se também, por exemplo, o esquema do mensalão. Para o PT, os outros partidos, desprovidos de ideias e propostas, seriam apenas peças de manobra disponíveis para compra. E sendo apenas as suas ‘soluções’ boas para o País, os petistas ainda consideram que esse sistema criminoso e antidemocrático de compra de apoio político estaria plenamente justificado.
Não há, portanto, nenhuma novidade na composição que vai se delineando para o terceiro governo de Lula. É o PT sendo o PT. De toda forma, diante das grandes necessidades do País neste momento, não deixa de ser frustrante – reiteradamente frustrante – constatar que Lula e seu partido não entenderam nada, não aprenderam nada, não mudaram nada.”
E por aí vai.
Ou seja, como confessa no próprio texto, o diário paulista, no fundo, sabia que ia dar nisso, mas, mesmo assim, o que é mais grave, resolveu fazer o L e deixar-se levar pela conversa fiada da esquerda que, com extrema competência, vendeu o conto de fadas de que a democracia brasileira estava a perigo e precisava ser salva.
Embarcando na onda, os pretensos heróis da pátria cumpriram direitinho a missão de entregá-la de bandeja justamente aos vilões.
Em resumo, a birra contra os modos muitas vezes grosseiros de Bolsonaro cegou o olhar crítico do Estadão e de outros formadores de opinião impedindo-os de ver que a alternativa disponível era muito pior.
Agora é tarde, o mal está feito e, infelizmente, não haverá distinção na cobrança da conta do desastre que se anuncia.
Pecadores e inocentes serão chamados a pagá-la.



