O Brasil desperta contra os desmandos do Supremo

Há semanas o país assiste, em capítulos diários, ao espetáculo da ruína do Supremo Tribunal Federal. Não é mais rumor de bastidor, nem insinuação de coluna: é fato sobre fato, manchete sobre manchete, um noticiário que não sai dos telejornais porque o escândalo simplesmente não dá sinais de trégua, cada revelação mais escabrosa que a anterior, sobre a relação promíscua entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.
E face a isso, o país reage — nas ruas, nas rodas de conversa, na indignação que já não cabe mais nos comentários de rodapé.
A sociedade civil organizada foi a primeira a formalizar o desconforto. A Transparência Internacional alertou para o risco de colapso institucional e defendeu o afastamento do ministro como condição para preservar a lisura das apurações. A Ordem dos Advogados do Brasil, seccional do Paraná, rompeu o silêncio que paralisa boa parte da categoria — afinal, poucos advogados se arriscam a contrariar publicamente quem tem a última palavra sobre seus processos — e aprovou documento formal pedindo o afastamento cautelar de Moraes e a suspeição do procurador-geral da República, Paulo Gonet. A Associação Comercial do Paraná e o Movimento Pró-Paraná somaram-se ao coro, em nota dirigida ao presidente do STF, Edson Fachin, cobrando providências rigorosas.
A imprensa, por sua vez, abandonou a cautela de outros tempos. Estadão, Folha de S. Paulo e O Globo publicaram editoriais ao longo da semana, todos convergindo para o mesmo veredito, ainda que em tons distintos: a posição de Moraes tornou-se insustentável.
Fala-se em afastamento imediato, em renúncia, em impeachment como último recurso caso a própria Corte não tenha a decência de se autodepurar.
O Estadão foi além e estendeu o julgamento a Paulo Gonet, cuja proximidade com o esquema, segundo o jornal, também inviabiliza sua permanência no cargo. A Folha intitulou seu editorial de forma direta — a Moraes cabe a renúncia — e lembrou que pouco se pode esperar da PGR, dado o envolvimento do próprio procurador-geral no imbróglio. O Globo, mais comedido no tom, não foi menos incisivo no conteúdo: cobrou providências urgentes e advertiu que, se a Corte não agir, caberá ao Senado fazê-lo.
É o editorial do Estadão, porém, que mais expõe a ferida. Sob o título contundente de que Moraes vandalizou o Supremo sem quebrar um único copo, o texto descreve o ministro como uma espécie de consigliere de Vorcaro — termo que dispensa tradução — diante de um contrato de R$ 131 milhões fechado entre o banqueiro e o escritório de advocacia da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes.
O jornal não poupa adjetivos para qualificar a reação de Moraes ao ser exposto: em vez do gesto republicano de se afastar voluntariamente, o ministro escolheu declarar guerra ao colega André Mendonça, relator do caso Master, valendo-se do famigerado inquérito das fake news como arma pessoal.
E o instrumento dessa retaliação seria, nas palavras do próprio editorial, uma peça tosca — um “relatório de inteligência” sem cabeçalho oficial, sem assinatura de delegado, que o próprio texto classifica como destituído de valor probatório e de baixa confiabilidade.
O Estadão não hesita em apontar Moraes, e o decano Gilmar Mendes ao seu lado, como a maior fonte de instabilidade democrática do país — inversão didática do papel que a Corte deveria exercer.
Se o Estadão flagra o vandalismo institucional, o artigo de Augusto de Franco, publicado na revista ID, mira mais alto e mais fundo.
Para o articulista, o que se vê não é apenas a crise de um ministro isolado, mas um golpe em curso — um esforço coordenado para garantir a reeleição de Lula a qualquer custo, do qual participariam o próprio governo, a ala governista do STF, setores da Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e parte da imprensa alinhada aos interesses do Planalto.
O ponto alto do texto, porém, é o expediente com que Franco desmonta a tentativa de equiparar as condutas dos dois ministros — recurso predileto de quem precisa diluir a própria responsabilidade na de um inocente.
Ele formula uma sequência de perguntas hipotéticas sobre Mendonça, cuja resposta óbvia é não, mas que soam assustadoramente familiares quando aplicadas a Moraes: foi a mulher de Mendonça quem assinou contrato de R$ 130 milhões com Vorcaro — como fez a de Moraes? Recebeu Mendonça, para os filhos, cartões de crédito com limite de R$ 300 mil? Colocou Vorcaro avião e helicóptero à disposição da família de Mendonça? Avisava Mendonça o banqueiro para que escapasse da polícia? Participou Mendonça da degustação de whisky em Londres às custas de Vorcaro, como fizeram Moraes, Gonet e Andrei Rodrigues? Organizou Mendonça, em sua própria casa, um encontro dos chefes dos Poderes para angariar apoio à reeleição de Lula?
A cada pergunta, a resposta é não para Mendonça — e é justamente esse silêncio que separa quem não precisa se explicar de quem, no caso de Moraes, tem tudo a explicar e nada explicou até hoje.
Franco não poupa nomes na lista do que, segundo ele, precisa ser abafado para não comprometer a corrida eleitoral de Lula: as relações do chamado Careca do INSS com o filho do presidente, com Marcola e com Berger; o envolvimento de Frei Chico, irmão de Lula, no desvio de aposentados; a proximidade do PT baiano e de Jaques Wagner com o caso Master; a investigação sobre os negócios de Dias Toffoli com Vorcaro; e, no centro de tudo, as conexões de Moraes, Gonet e Andrei Rodrigues com o banqueiro criminoso.
Tudo isso, escreve o articulista, deve desaparecer do noticiário — e o primeiro passo seria neutralizar Mendonça, tirando-lhe as relatorias ou tirando-o do próprio Supremo.
O alerta final é o mais sombrio de todos. Livre de consequências, Moraes assume a presidência do STF já no ano que vem. E se Lula for reeleito, terá a oportunidade de indicar mais quatro ministros até 2030, consolidando uma maioria governista incontornável dentro de uma Corte que, em aliança com a PGR e com as presidências da Câmara e do Senado, se transformaria, nas palavras de Franco, em um poder monárquico absoluto.
Se isso se confirmar, escreve ele, o Brasil terá deixado de ser uma democracia — a menos que a sociedade se manifeste vigorosamente, nas ruas e em todos os espaços possíveis.
Em suma, o retrato que sobra é o de uma cúpula da Justiça que deveria arbitrar os conflitos do país e, em vez disso, tornou-se ela própria o litígio mais grave da República neste século — maior, em muitos aspectos, que o mensalão ou o petrolão, porque desta vez a mancha alcança quem deveria dar a última palavra sobre o certo e o errado.
Diante dessa tragédia moral que se abate sobre o Brasil, cabe uma pergunta incômoda. Há quase quatro anos vimos aquelas cenas deploráveis de vandalismo na Praça dos Três Poderes, especialmente contra a sede do STF — episódio que dividiu o país entre quem condenou e quem aplaudiu.
Nada aqui pretende rever esse veredito, mas será que aqueles que ali explodiram em fúria estavam assim tão errados na origem daquela indignação?
Um povo não se revolta contra instituições sólidas; revolta-se contra o que já lhe cheira a podre. E se aquela explosão nasceu de uma desconfiança então difusa, o que temos hoje são provas, contratos, relatórios e editoriais confirmando o diagnóstico.
Não é preciso justificar o que houve para reconhecer que o mesmo caldo segue fervendo — e que, sem providências, nada garante que ele não transborde de novo – agora, ainda, com mais razão.



