Eu também vi a Geada Negra

Poucos episódios marcaram tão profundamente a história da agricultura brasileira quanto a Geada Negra de julho de 1975.
Passado meio século, suas consequências ainda ecoam na memória de quem viveu aquele inverno e na extraordinária transformação que ele impôs ao campo.
Foi essa lembrança que o ex-ministro da Agricultura Antonio Cabrera recuperou, dias atrás, em um emocionante artigo publicado na Gazeta do Povo.
Filho de imigrantes espanhóis que reconstruíram a vida na cafeicultura do interior de São Paulo, Cabrera narra como uma única madrugada foi suficiente para destruir o patrimônio da família e mudar definitivamente seu destino.
Seu relato vai muito além da dimensão pessoal. Ao recordar o drama vivido pelos pais e por milhares de produtores, ajuda a compreender a verdadeira dimensão de uma tragédia que redesenhou o mapa agrícola brasileiro.
A Geada Negra devastou cerca de 700 milhões de cafeeiros no Paraná e outros 200 milhões em São Paulo, extinguindo o cultivo da rubiácea em vastas regiões dos dois Estados.
Não destruiu apenas plantações. Interrompeu projetos de vida, acelerou o êxodo rural e obrigou milhares de famílias a recomeçar praticamente do zero.
Como lembra Cabrera, foi também uma extraordinária demonstração da capacidade de reinvenção do produtor brasileiro diante do infortúnio.
A devastação dos cafezais acelerou a mecanização das lavouras, impulsionou a expansão da soja, do milho, do trigo e de outras culturas, fortaleceu a pecuária e consolidou um novo ciclo de modernização da agricultura brasileira.
Da tragédia nasceu, em grande medida, o embrião do agronegócio moderno que transformaria o Paraná e ajudaria a fazer do Brasil uma potência mundial na produção de alimentos.
Ao terminar a leitura, me dei conta de que aquele dramático evento também fazia parte da minha própria história. Não como produtor rural, mas como um jovem jornalista que, por uma coincidência da profissão, testemunhou de perto o maior desastre da agricultura paranaense.
Ao reler o artigo de Antonio Cabrera, reencontrei muitas das reflexões que me levaram, em 2022, a registrar essas lembranças. Reproduzo, a seguir, esse texto exatamente como foi publicado naquela ocasião.
Eu vi aquela Geada Negra
Devido à sua intensidade, a massa de ar polar que pairou sobre grande parte do Brasil na última semana, derrubando as temperaturas em níveis fora dos padrões para o mês de maio, trouxe junto, especialmente para os estados do Sul, a ameaça da chamada “geada negra”, que felizmente não aconteceu.
Um dos fenômenos climáticos mais temidos pelos produtores rurais, as geadas se dividem em “branca” e “negra”.
Na primeira, marcada pela ausência de vento, céu aberto e frio vigoroso, forma-se uma camada de gelo por cima das folhas.
Já a segunda, ainda mais agressiva, está associada ao vento gelado e constante, com a temperatura do solo necessariamente em zero grau ou menos, recebendo esse nome porque, ao combinar efeitos que ressecam o tecido vegetal, ela queima as plantas por dentro, deixando-as com aparência escura.
Foi exatamente uma dessas intempéries, com uma magnitude catastrófica jamais esquecida, que mudou a paisagem e os rumos da agricultura no Paraná, acelerando a mecanização das lavouras e impulsionando o plantio da soja, do milho, do trigo e de outras culturas, além de abrir caminho para o desenvolvimento da pecuária em larga escala.
Estou falando da famosa “geada negra” de 1975, que pude testemunhar pessoalmente, em toda a extensão de seus danos, nos primórdios de minha carreira na imprensa.
Titular de uma coluna diária no extinto jornal Fronteira do Iguaçu, fui convidado em meados de julho daquele ano pelo empresário Altamir Silva para fazer uma reportagem sobre a entrega de 70 tratores que a também extinta Nodari, concessionária à época da marca Fiat em Cascavel, então dirigida por ele, havia vendido à Usina Central do Paraná, sediada em Porecatu.
Não lembro precisamente quantos graus negativos os termômetros estavam marcando, mas recordo que respirávamos um ar absurdamente gélido na manhã do dia 19 quando embarcamos, juntamente com o engenheiro-agrônomo Fernando Brugin, no táxi-aéreo que nos levou àquela cidade.
Foi durante o voo à região Norte que vimos claramente o cenário de terra arrasada causado pela “geada negra” ocorrida no dia anterior, que dizimou completamente os vastos cafezais que se constituíam, naquele tempo, no principal produto agrícola do Estado, determinando a sua erradicação do solo paranaense.
Em minha coluna na edição do dia 20 de julho (tenho coletâneas completas e encadernadas dos meus escritos para os jornais em que trabalhei) fiz o seguinte registro sobre o histórico episódio:
“Para ter saco, é preciso ter fibra”, disse anteontem, em Porecatu, o dr. Jorge Rudney Attala, diretor-presidente da Usina Central do Paraná. Foram as palavras que ele encontrou para externar sua desolação pela perda de seus 6 milhões de pés de café, devastados pelas geadas que assolaram o Estado na semana.
Encerrava-se o virtuoso ciclo do cultivo da rubiácea no Paraná.
Por outro lado, a mesma onda de frio que transformou em cinzas o nosso “ouro verde”, como a cafeicultura era chamada, provocou em Curitiba uma nevasca sem precedentes, até hoje não superada, que cobriu a capital inteiramente de branco para o deslumbre de seus moradores.
Caprichos da natureza. Enquanto o Norte do Paraná mergulhava no luto pela morte de seus cafezais, Curitiba despertava encantada sob a maior nevasca de sua história recente.
Dois retratos do mesmo inverno: um de beleza, outro de destruição. Ambos eternizados na memória dos paranaenses.
Cinquenta anos depois, o artigo de Antonio Cabrera e as lembranças que conservo daquele voo sobre os cafezais aniquilados se encontram numa mesma constatação: a Geada Negra não foi apenas um fenômeno climático.
Foi um dos acontecimentos que mudaram para sempre a história do Paraná, transformaram a agricultura brasileira e ensinaram que, no campo, a capacidade de recomeçar sempre foi maior do que qualquer adversidade.





