Opinião

O que pensa a arquiteta do plano econômico de Flávio

Quando um candidato ainda não apresentou oficialmente seu plano de governo, mas a responsável pela coordenação de sua pauta econômica começa a conceder entrevistas, é inevitável que suas declarações sejam lidas como uma antecipação do que poderá vir por aí.

Foi exatamente essa a impressão deixada pela entrevista concedida por Daniella Marques às páginas amarelas da revista Veja. Braço direito, confidente e uma espécie de alter ego de Paulo Guedes durante os quatro anos da gestão Jair Bolsonaro, ela ocupou posições estratégicas no Ministério da Economia, presidiu a Caixa Econômica Federal e, depois da derrota eleitoral de 2022, retomou sua bem-sucedida carreira no mercado financeiro.

Agora, Daniella voltou ao centro da cena política. Além de coordenar a pauta econômica e integrar as ideias que darão forma ao plano de governo de Flávio Bolsonaro, desponta nos meios financeiros como favorita para assumir o Ministério da Economia caso o senador vença as eleições. Embora afirme que jamais tratou de cargos com o candidato, sua posição na campanha e a desenvoltura com que vem apresentando publicamente as futuras diretrizes econômicas falam por si.

O desenho que começa a surgir guarda inequívoca inspiração na agenda liberal conduzida por Paulo Guedes: responsabilidade fiscal, controle da trajetória da dívida, redução do tamanho da máquina pública, melhor aproveitamento dos ativos da União e reformas capazes de devolver competitividade, produtividade e segurança jurídica à economia brasileira.

Uma política econômica que, apesar da pandemia e de todas as turbulências enfrentadas, produziu resultados virtuosos e poderá agora retornar, atualizada pelas lições acumuladas naquele período.

O ponto de partida seria uma espécie de regime para emagrecer o que Daniella define como um “Estado obeso”. A União mantém 44 empresas sob controle direto e, descontadas gigantes estratégicas como Petrobras e Banco do Brasil, cerca de quarenta delas consumiriam algo próximo de R$ 30 bilhões anuais em subvenções. Nesse inventário de antiguidades aparecem até uma estatal criada para cuidar do trem-bala que nunca saiu do papel e outra dedicada ao célebre chip do boi.

É a criatividade brasileira aplicada à fabricação de repartições, diretorias e cabides de emprego.

Somem-se a isso créditos, imóveis e outros ativos públicos que, segundo ela, podem elevar a riqueza acumulada pela União a mais de R$ 3 trilhões. A proposta não se resume, portanto, a cortar despesas de maneira indiscriminada, mas a reorganizar o patrimônio estatal, eliminar privilégios e penduricalhos, rever estruturas obsoletas e impedir que o endividamento continue crescendo como uma bola de neve.

A redução da carga tributária aparece como objetivo final, mas não como uma promessa mágica retirada da cartola eleitoral. Para chegar a ela, Daniella aponta a necessidade de reconstruir primeiro as bases fiscais, promover reformas microeconômicas e tornar a vida de quem produz menos hostil.

Num país em que o empresário frequentemente precisa vencer o Estado antes mesmo de enfrentar o mercado, simplificar regras, oferecer segurança jurídica e estimular a produtividade já representariam uma pequena revolução.

Há, porém, um componente novo nessa releitura da agenda de Paulo Guedes.

Daniella coloca a mobilidade social e a autonomia financeira feminina entre as prioridades do programa. Sua visão é a de um país desigual, mas movido por uma poderosa veia empreendedora, no qual milhões de pessoas desejam abrir um pequeno negócio e construir o próprio futuro. Ao poder público caberia funcionar não como tutor permanente, mas como indutor de uma rampa econômica menos burocrática, com capacitação e maior acesso ao crédito.

É uma diferença essencial de filosofia. Em vez de aprisionar os mais pobres numa dependência eterna dos favores oficiais, oferecer instrumentos para que possam ascender pelo próprio esforço. E, no caso das mulheres, permitir que a independência financeira também se transforme em liberdade para romper relações abusivas e preservar a própria dignidade.

Programas de governo costumam chegar ao público embrulhados em discursos, slogans e promessas cuidadosamente testadas.

Muitas vezes, porém, sua verdadeira essência já pode ser percebida nas palavras de quem foi chamado a concebê-los.

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