Opinião

O governo que protege quem aterroriza

O Planalto redigiu, assinou e publicou: o PCC e o Comando Vermelho “praticam o terrorismo nos territórios em que vivem milhões de famílias”. As palavras são do governo Lula.

E mesmo assim, quando os Estados Unidos classificaram formalmente as duas facções como Organizações Terroristas Estrangeiras — designação que entrou em vigor na última sexta-feira —, a resposta de Brasília foi de indignação. Não de alívio, não de cooperação, não do pragmatismo que a gravidade do momento exigiria. De indignação.

Brandiu-se a soberania nacional. Convocou-se o repertório antiamericanista de sempre. Falou-se em ingerência externa, em ameaça à autonomia do país. Uma performance tão previsível quanto reveladora — porque a pergunta que ela deixa suspensa no ar, e que a esmagadora maioria da população brasileira não consegue deixar de formular, é simples e devastadora: por que um governo reagiria com tanta raiva a uma medida que combate o crime organizado?

A população não precisa de relatório de inteligência para enxergar o que essas facções são.

Elas não são mais organizações criminosas no sentido convencional — são multinacionais do crime, com presença confirmada em aproximadamente 30 países.

O PCC mantém integrantes no Paraguai, na Venezuela, em Portugal, Espanha, França, Holanda, Bélgica, Alemanha e nos Estados Unidos, onde sua atuação foi identificada em 12 estados.

O narcotráfico chega à Europa pelos portos de Antuérpia e Roterdã, embarcado a partir de Santos.

Usam submarinos de construção própria para cruzar oceanos com carregamentos de cocaína. Essa expansão não é suposição americana — é dado de inteligência, mapeado pelo Ministério Público de São Paulo e reconhecido por autoridades europeias.

Quando Washington afirma que a influência dessas organizações “se estende para dentro do nosso país”, não está inventando uma paranoia. Está descrevendo uma realidade documentada.

O histórico doméstico é igualmente inequívoco. Em maio de 2006, o PCC coordenou uma ofensiva simultânea que paralisou São Paulo por dez dias, resultando em 564 mortes — 505 civis e 59 agentes públicos.

Em 2003, mandou assassinar um juiz dentro do próprio fórum onde ele atuava. O Comando Vermelho torturou e carbonizou o jornalista Tim Lopes em 2002; anos depois, o PCC sequestrou um repórter da TV Globo e exigiu que a emissora exibisse em rede nacional um vídeo com suas reivindicações.

Mais recentemente, drones adaptados para lançar granadas passaram a ser usados contra policiais no Rio de Janeiro. Dominam territórios, cobram taxas por água, por sinal de celular, por simplesmente existir dentro de seus domínios.

Comandam o tráfico de dentro de presídios de segurança máxima com uma desenvoltura que envergonha a República.

Isso não é crime organizado no sentido convencional. É terrorismo com outro nome — e com o mesmo efeito.

A soberania que o governo invoca para rejeitar a designação americana é exatamente a soberania que o PCC e o CV violam há décadas — sobre territórios, sobre vidas, sobre o monopólio legítimo da força que define um Estado.

Dizer que a classificação feita por Washington representa risco à soberania brasileira, enquanto se tolera que facções criminosas governem pedaços inteiros do país, é uma inversão tão escandalosa que beira o cinismo confesso.

E há algo que o pragmatismo revela com frieza: a tibieza do Estado estimula o crime.

Quando uma organização criminosa percebe que o governo de seu país reage com fúria diplomática a uma medida de combate ao terror — em vez de abraçá-la como aliada —, a mensagem que recebe não é de ameaça. É de conforto.

Sobra então ao cidadão a pergunta que nenhum palanque responde: se a medida é ruim para as facções, por que o governo a combate com tanto empenho?

Essa questão não precisa ser respondida em voz alta. Ela já se instalou — silenciosa, persistente e cada vez mais difícil de ignorar — na cabeça de milhões de brasileiros.

Inclusive daqueles que, um dia, depositaram neste governo a esperança de que o país mudaria de lado.

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