Opinião

A farra é agora, a conta vem depois

Há uma definição clássica de desespero político: é quando um governante para de governar para o país e começa a governar para a pesquisa. O momento em que o horizonte encolhe do prazo histórico para o ciclo eleitoral, e cada decisão de Estado passa a ser medida não pelo bem público que produz, mas pelo ponto percentual que pode render.

É o instante em que a caneta presidencial deixa de assinar políticas e passa a assinar cheques — com o detalhe maldito de que o dinheiro não é do signatário.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a esse ponto.

Só nestes primeiros cinco meses do ano, o governo federal anunciou 14 medidas de inequívoco apelo eleitoral cujo impacto financeiro acumulado já alcança R$ 187,4 bilhões. Não é um programa de governo. É um programa de sobrevivência política — a tentativa sistemática de comprar com dinheiro público o que as urnas deveriam conceder ou negar com base no desempenho real da administração. As pesquisas caem. A dose sobe. A lógica é a do viciado: quando o efeito passa, aumenta-se a quantidade. Nunca se questiona a substância.

O cardápio é vasto e calculado para atingir o maior número possível de fatias eleitorais.

Para os trabalhadores de aplicativos — 1,4 milhão de motoristas cadastrados só na Uber —, o programa Mover Aplicativos injetará R$ 30 bilhões em crédito subsidiado pelo Tesouro via BNDES para a compra de veículos de até R$ 150 mil. Para caminhoneiros e o transporte pesado, o MOV Brasil destinou outros R$ 21,2 bilhões em financiamentos. Para quem ganha até R$ 5 mil mensais, a isenção do imposto de renda representa renúncia fiscal de R$ 31,2 bilhões — a medida mais cara do pacote. Para os que sonham com a casa própria, novo modelo de crédito imobiliário com impacto de R$ 22,3 bilhões e a ampliação da Faixa 4 do Minha Casa, Minha Vida por mais R$ 7,7 bilhões. Para os endividados, o Desenrola 2.0 e facilidades no crédito consignado. Para os estados, R$ 10 bilhões em linhas de crédito de bancos públicos embutidos no programa Brasil Contra o Crime Organizado — segurança pública como moeda eleitoral para governadores que precisam ser mantidos na órbita do Planalto.

E então veio a revogação da “taxa das blusinhas” — a tributação sobre compras em plataformas digitais estrangeiras criada no início do mandato com o argumento de proteger o comércio nacional. Renúncia fiscal de R$ 3,4 bilhões. O ministro José Guimarães teve ao menos o pudor de se penitenciar publicamente pela própria criação da taxa. O que não disse é que a penitência não é com o pecado — é com a conveniência eleitoral do momento. O comércio brasileiro pode guardar a ilusão como lembrança. O desemprego que virá na sequência não aparece em nenhum levantamento do pacote.

O próprio presidente já havia enunciado, em reunião ministerial de dezembro passado, a filosofia que governa tudo isso: “não tem macroeconomia, não tem câmbio: se tiver dinheiro na mão do povo, está resolvido o nosso problema.”

É o terraplanismo econômico elevado à condição de doutrina de Estado. O problema é que a macroeconomia não é eleita e não negocia. Quando há estímulo ao consumo sem aumento correspondente de produtividade, o resultado tem nome: inflação. O IPCA acumulado dos últimos doze meses já está em 4,39%, tangenciando o limite máximo de tolerância do regime de metas, fixado em 4,5%. As projeções do Boletim Focus para 2026 chegam a 4,92%. Qualquer sonho de queda da Selic vai se dissolvendo na mesma proporção em que o pacote eleitoreiro se expande.

E é aqui que o escândalo atinge sua dimensão mais profunda — e mais silenciosa.

Em qualquer democracia com instituições minimamente funcionais, o que está sendo praticado teria nome jurídico preciso: abuso de poder econômico em ano eleitoral. Uso da máquina pública em proveito do candidato que a controla. Crime eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral deveria estar se movimentando. O Tribunal de Contas da União deveria estar glosando os gastos. A Procuradoria-Geral da República deveria estar abrindo procedimento. O Supremo Tribunal Federal deveria estar, ao menos, inquieto.

Não estão. Não estão porque fazem parte do mesmo condomínio. Quatro governos petistas trataram metodicamente de aparelhar cada instância de controle, cada órgão fiscalizador, cada tribunal que pudesse apresentar resistência ao poder. O resultado é que o fiscal virou cúmplice, o árbitro perdeu a imparcialidade, e o sistema de freios e contrapesos que deveria proteger a república converteu-se em rede de proteção do grupo que governa. Não se espere reação à altura da gravidade do que está sendo feito.

O que resta, então? Resta a matemática. E a matemática não tem cargo, não tem toga e não pode ser aparelhada.

A dívida pública como proporção do PIB disparou ao longo deste mandato. O país registra déficits primários mesmo com as acrobacias contábeis que retiram gastos do cálculo da meta fiscal. O governo escreve cheques de um caixa vazio — e as consequências chegam na forma de juros proibitivos, inflação corrosiva e investimento retraído. Sem uma guinada radical na política fiscal, o Brasil caminha para uma crise nos moldes de 2015 e 2016. Talvez não imediata. Mas inevitável.

E quando ela apresentar a fatura — porque irá apresentar —, não haverá como fugir da aritmética cruel do que foi feito. Seria ingenuidade esperar ajuste fiscal pela via do corte de gastos: nenhum governo que chegue ao poder sobre os escombros deste terá apetite político para o sacrifício necessário.

O caminho mais provável, o de sempre, é o mais simples e o mais covarde: novos impostos. Novas alíquotas. Novos tributos embrulhados em nomes técnicos para disfarçar o que são — a conta do banquete chegando à mesa de quem não foi convidado. Eleitores do Lula ou não. Apoiadores ou adversários.

A fatura não pergunta em quem você votou. O país somos todos nós — e todos nós pagaremos.

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