Opinião

Hello, Joesley

Na véspera do Dia do Trabalhador, enquanto o Brasil se preparava para o feriado, um empresário sentado no Palácio da Alvorada mandou buscar o próprio celular em outro ambiente, discou um número e esperou. Trump atendeu no terceiro toque. Em três dias, a visita estava marcada. Em cinco meses de esforço diplomático, o Itamaraty não havia conseguido nada.

Essa é a história real da visita do presidente Lula à Casa Branca no último dia 7 de maio — não a que foi contada na coletiva da Embaixada.

O encontro havia sido combinado em dezembro de 2025, quando os dois presidentes conversaram por telefone. Lula chegou a anunciar março como data provável. Março passou, abril passou, e a agenda não se concretizou. As equipes mantinham contato, as justificativas se acumulavam — a guerra do Irã, os calendários, os protocolos. O chanceler Mauro Vieira não estava presente quando a visita finalmente foi destravada. Nenhum assessor da área internacional estava. O que havia era Joesley Batista, no Alvorada, ouvindo o presidente relatar, com algum constrangimento, a dificuldade de conseguir uma audiência com o líder da maior potência do mundo.

Joesley perguntou se poderia ligar naquele momento. Lula concordou. O celular foi trazido. A chamada foi feita. Trump atendeu.

Havia circulado, antes da viagem, a versão de que entre os temas da reunião estaria uma intercessão de Lula em favor de Joesley — a JBS enfrenta investigações nos Estados Unidos por supostas práticas comerciais desleais, e o nome do empresário aparecia como beneficiário indireto da agenda bilateral.

A realidade, revelada pelo próprio telefonema, liquidou essa narrativa com mais eficiência do que qualquer desmentido oficial: o empresário não precisava de intermediários para falar com Trump — ele é que era o intermediário.

Por meio da Pilgrim’s Pride, subsidiária americana da JBS, Joesley havia sido o maior doador empresarial da cerimônia de posse republicana. A proximidade construída ali não era protocolar — era a moeda mais forte em circulação em Washington. Enquanto a diplomacia brasileira tentava marcar horário pelas vias formais, o dono da JBS tinha o número direto. E usou-o, na frente do presidente, como quem resolve uma reserva de restaurante. Joesley não precisa que um presidente da República interceda por ele nos Estados Unidos. Ele é, por assim dizer, da cozinha da Casa Branca.

A pauta oficial anunciada incluía acordos comerciais, o potencial de exploração das terras raras brasileiras e a Seção 301 — instrumento americano que enquadra condutas comerciais tidas como desleais, colocando no banco dos réus desde o uso do Pix até outros mecanismos do mercado digital nacional, com risco de sanções. Temas de peso, sem dúvida. Nos próprios termos do cerimonial americano, contudo, o encontro foi classificado como visita de trabalho — categoria que dispensa hinos, revista de tropa, hospedagem na Blair House e toda a pompa que transforma um encontro bilateral em imagem de estado.

Lula foi recebido por uma entrada lateral da Casa Branca. A transmissão ao vivo planejada não foi ao ar. A imprensa foi barrada do Salão Oval. A coletiva conjunta não aconteceu — Lula falou sozinho, da Embaixada, flanqueado por ministros. Três horas de reunião, incluindo almoço, das quais nada vazou, e da qual não saiu nenhum acordo concreto — apenas a promessa de uma nova conversa sobre tarifas em trinta dias.

Sites americanos classificaram a marcação da visita com três dias de antecedência como algo incomum para cúpulas de alto nível, que normalmente exigem semanas, senão meses, de preparação. Uma prova, portanto, de que a coisa foi toda na base do improviso.

Não que a visita tenha sido inútil. Ela cumpriu o único propósito que de fato importava: doméstico. Lula chegava à semana com uma derrota histórica nas costas — a rejeição do Senado ao nome do advogado-geral Jorge Messias para o STF, episódio sem precedente em mais de um século. A queda livre nas pesquisas de popularidade não dá sinal de reversão. A foto ao lado de Trump, mesmo tirada numa entrada secundária, valia como antídoto provisório para o noticiário interno. O palanque foi montado. O voo foi feito. O prejuízo político da semana foi parcialmente encoberto.

Antes de Lula chegar à Casa Branca, Joesley Batista já estava lá — recebido em agenda particular pelo presidente americano. Enquanto o chefe de estado brasileiro aguardava sua vez, o empresário já havia cumprido o próprio programa.

Trump encerrou a chamada que selou a visita dizendo a Lula: “I love you”. Na linguagem de Trump, a frase é protocolo afetivo, não declaração. Mas ela resume, com precisão acidental, a natureza do que aconteceu: foi gentileza, não política.

Receber o presidente do Brasil foi um favor, uma cortesia, uma deferência que Trump prestou a Joesley. Nada mais do que isso.

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