Entre a delação impossível e o acordão de sempre

Daniel Vorcaro conhece bem os rostos dos homens que vão julgá-lo. E é exatamente esse conhecimento que torna sua delação o nó mais apertado da política brasileira neste momento. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República já avançaram muito — e os primeiros sinais do que a defesa está disposta a oferecer decepcionam. Não por falta de material, mas por excesso de cálculo.
Em sua coluna no Estadão, o cientista político Fernando Schüler sintetizou com precisão o paradoxo: se a delação for fraca, baseada em narrativa sem fatos novos, não tem valor para os investigadores. Se for forte — completa, detalhada, revelando as ramificações do esquema no Supremo, no Legislativo, no Executivo —, surge a pergunta que a defesa certamente já se fez: qual seria o destino do próprio Vorcaro? Seus juízes seriam, em parte, os mesmos que ele teria delatado. É um beco sem saída com paredes de mármore.
Os tentáculos de Vorcaro são, como observou Schüler, ecumênicos. Alcançam direita e esquerda, governo e oposição. A operação que colocou o senador Ciro Nogueira — presidente do PP e operador-mor do centrão — sob restrições, e impôs uma tornozeleira eletrônica em seu irmão, sacudiu Brasília de um modo que poucos esperavam.
Se o poderoso Ciro não estava a salvo, quem estaria? A pergunta, feita por Carlos Alberto Sardenberg, resume o pânico que tomou a capital: do temor à ação é um passo curto — e nessa cidade, esse passo nunca demorou muito.
O Brasil já conhece este roteiro. Em 2016, o senador Romero Jucá foi gravado combinando com o empresário Sérgio Machado o que precisava ser feito: “Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.” O plano era explícito — um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo. Planejado em voz alta, registrado em áudio, sem consequência prática alguma.
A Lava Jato, a maior operação anticorrupção do mundo, foi desmontada não pelo mérito — porque o mérito estava provado, escandalosamente provado —, mas por alquimias processuais fabricadas para jamais chegar lá. Lula foi condenado, foi preso. E depois, como um castelo de cartas empurrado de dentro, tudo desabou. Os bilhões surrupiados continuam sem dono. E Lula, descondenado pelo STF, voltou à presidência. Ou à “cena do crime”, como disse seu ex-adversário Geraldo Alckmin, hoje seu vice.
O caso Vorcaro tem, no entanto, uma geometria diferente. Está no Supremo Tribunal Federal, relatado pelo ministro André Mendonça, que não dá sinais de querer enterrá-lo. Acabar com a “República de Curitiba” era uma coisa: bastou afastar um promotor e um juiz de primeira instância, fabricar a tese da parcialidade, e a estrutura desmoronou. Aqui, o problema é de outra ordem. Seria necessário que uma maioria do próprio STF anulasse a relatoria de um de seus pares — operação de outro nível, com custo institucional que mesmo os mais criativos intérpretes do direito teriam dificuldade em disfarçar.
É por isso que Sardenberg tem razão ao dizer que o caso Vorcaro será um marco.
Se seguir adiante, representa não apenas uma condenação pontual, mas a demonstração de que o conluio que une setor público e privado na vergonhosa roubalheira que há décadas dilapida o país pode, de fato, ser desmantelado.
Se for abafado, o Brasil terá confirmado, mais uma vez, que a impunidade não é um defeito do sistema — é o sistema. Para quem sabe comprá-lo.



