Opinião

Wine Day Festival: quando o mundo volta a caber na taça

Há algo de curioso — e revelador — quando uma cidade do interior, distante dos mapas tradicionais da vitivinicultura, passa a oferecer, em poucas horas, aquilo que antes exigia passaporte, fuso horário e alguma disposição para longas travessias.

Neste sábado, 25, Cascavel repete esse gesto: condensar o mundo numa taça.

Idealizado pelo enogastrônomo Caco Dalavechia, o Wine Day Festival abre o seu calendário de 2026 reafirmando uma vocação que já deixou de ser promessa para se tornar assinatura. Nascido aqui, mas já em movimento — com escalas previstas em Foz do Iguaçu e Balneário Camboriú — o evento retorna ao Espaço Vivace se propondo mais uma experiência global comprimida em um único dia.

E não é força de expressão. São vinhos de onze países, cinquenta e três vinícolas, uma cartografia líquida que atravessa França, Itália, Portugal, Espanha, Argentina, Chile, Uruguai, Estados Unidos, África do Sul e Austrália, sem esquecer, claro, o Brasil que, nos últimos anos, deixou de ser figurante para disputar o protagonismo da própria narrativa.

Mais do que rótulos, há gente: enólogos, sommeliers, proprietários — o vinho, afinal, só existe plenamente quando alguém o conta.

A gastronomia acompanha sem pedir licença. Oito estações de finger foods operando ao vivo, pratos finalizados diante do público como se a cozinha fosse extensão natural da conversa.

Do Fattoush ao Boeuf Bourguignon, do crudo ao tortellini de porcini no Grana Padano, do bun de frango teriyaki ao brioche com pulled pork, fechando com profiteroles — não se trata apenas de alimentar, mas de construir diálogo com a taça. Harmonização, aqui, deixa de ser técnica para virar linguagem.

E como toda linguagem contemporânea, ela se expande. Há drinks autorais (inclusive sem álcool), vinhos desalcoholizados, quatro estilos de chopp da Cervejaria Mel do Malte, gelatos da Borelli pensados para dialogar com Porto e espumantes, água liberada — um pequeno detalhe que, em eventos longos, costuma separar a elegância da exaustão.

Mas talvez o ponto em que o festival mais se distancia do trivial esteja nas masterclasses. Duas salas, oito sessões, vagas limitadas — e uma promessa implícita de intimidade com o vinho. Ali, o público deixa de ser plateia e se torna interlocutor.

Passam por essas mesas experiências como a vertical do Don Melchor — um exercício raro de tempo engarrafado —, os ícones italianos com direito a um Brunello de 2010 (dezesseis anos de guarda, que não é exatamente um detalhe), os brasileiros que já começam a disputar prêmios com desenvoltura, e curiosidades como o blend “Maluco” da mendocina Cinco Sentidos.

É o tipo de ambiente em que o vinho deixa de ser bebida e assume o papel de argumento.

Ao fundo — ou melhor, costurando tudo — a música. Um DJ estabelece o clima desde a abertura, e a noite se encerra com a Banda Nega Fulô revisitando clássicos das décadas de 70, 80 e 90.

Uma escolha que diz muito: o festival não quer apenas sofisticar, quer também acolher. Refinamento sem afetação, o que não é pouco.

O formato segue a lógica da fluidez: abertura às 17h, open bar e open food até as 22h, depois consumo à parte. Ambiente indoor, climatizado — conforto como premissa, não como bônus. Apoio oficial do Governo do Estado, via Secretaria de Turismo, o que ajuda a entender por que o evento deixou de ser apenas um encontro para se tornar ativo de imagem.

E há, por fim, o calendário. Cascavel abre a temporada em 25 de abril. Em 4 de julho, o festival aporta em Foz do Iguaçu, no Recanto Cataratas, à beira da piscina — uma geografia que já sugere outro tipo de narrativa. Em 10 de outubro, segue para Balneário Camboriú, no Ocean Place, com o mar como cenário.

Três cidades, três atmosferas, um mesmo conceito: pertencimento mediado por experiências.

O discurso oficial fala em curadoria, conexão e alto padrão. Está correto — mas talvez incompleto. O que o Wine Day vem fazendo, com alguma discrição e bastante consistência, é reposicionar o consumo de vinho como experiência social ampla, menos ritualizada e mais vivida. Um vinho que conversa, circula, provoca.

E, no fim das contas, talvez seja isso que esteja em jogo: não apenas degustar rótulos, mas perceber que, em certos momentos, o mundo inteiro cabe — sem esforço — dentro de um único gole.

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