Opinião

  1. O silêncio que vale ouro

Um mês depois da morte de Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário” de Daniel Vorcaro, a Polícia Federal ainda aguarda exames para encerrar o inquérito. A tendência, ao que tudo indica, é concluir que ele realmente atentou contra a própria vida na carceragem da PF em Belo Horizonte e morreu em razão do tempo sem oxigenação no cérebro. Tudo muito técnico, muito pericial, muito cartorial. O Brasil sempre encontra um jeito burocrático de pôr carimbo no espanto.

Ainda assim, certas histórias insistem em não caber confortavelmente dentro do formulário. Mourão não era um preso qualquer. Era tratado como operador de bastidor, homem de confiança, peça útil de uma engrenagem que lidava mal com a luz do dia. Em resumo: sabia demais. E quando alguém assim morre cedo demais, cercado pelo Estado, o silêncio passa a soar alto.

Os exames concluídos indicam que ele estava sozinho na cela, que não havia drogas em suas roupas e que usou o celular fornecido por agentes para tentar contato com a mãe, a irmã e uma terceira pessoa ainda não identificada. É justamente esse terceiro interlocutor que mantém o caso naquela zona cinzenta em que a versão oficial pode até se impor, mas não consegue pacificar.

Talvez o inquérito termine com uma conclusão objetiva. Mas o fato político permanece: um homem apontado como peça sensível de um caso rumoroso morreu sob custódia do Estado. E isso, por si só, já não é um detalhe.

  1. Datafolha ausculta o país

O Datafolha está em campo nesta semana para medir as intenções de voto na eleição à Presidência da República. Será a primeira pesquisa do instituto desde que Ronaldo Caiado foi escolhido oficialmente candidato do PSD e a primeira após o fim do prazo de desincompatibilização. O resultado será divulgado no sábado, dia 11.

Pesquisas eleitorais têm algo de exame clínico da República. O instituto encosta o estetoscópio no eleitorado e tenta entender não apenas em quem o país vota, mas como ele se sente. Não é só intenção. É humor, rejeição, memória e fadiga.

O levantamento vai medir se Lula continua com viés de baixa na aprovação, se Flávio Bolsonaro mantém crescimento moderado e se Caiado deixará de ser apenas candidato oficial para ganhar alguma densidade eleitoral. Há candidaturas que existem muito no discurso e pouco nos números — e é exatamente isso que a pesquisa começa a revelar.

Também chama atenção o questionário. Além dos cenários de voto, o Datafolha quer medir conhecimento, rejeição e até a percepção sobre o STF — se tem poder demais e se é essencial para proteger a democracia. No fim, a pesquisa não ausculta apenas candidatos. Ausculta também o grau de confiança de um país cada vez mais desconfiado.

  1. Um remédio amargo, mas eficaz

A pobreza na Argentina caiu para 28,2% no segundo semestre de 2025, o menor nível em sete anos. A extrema pobreza também recuou. A inflação, por sua vez, despencou de patamares explosivos para níveis ainda altos, mas significativamente menores.

Os números não resolvem tudo, mas têm a inconveniência de existir. E isso incomoda — sobretudo quem apostava que o governo Javier Milei produziria apenas caos econômico.

Países arruinados por populismo fiscal, inflação descontrolada e maquiagem estatística não se reorganizam com discurso. Ajuste dói, cobra preço político e exige decisões impopulares. Mas há momentos em que a alternativa ao remédio amargo é simplesmente a continuidade da doença.

O que os dados mostram agora é isso: o tratamento começou a surtir efeito. Ainda é cedo para qualquer celebração, mas já é tarde para negar o óbvio. Às vezes, o problema não era a medicação. Era o apego ao diagnóstico errado.

  1. Um gigante de volta à vitrine

As Lojas Americanas pediram o encerramento de sua recuperação judicial iniciada em 2023, após a descoberta de inconsistências contábeis bilionárias. Segundo a companhia, todas as obrigações previstas no plano foram cumpridas, o que abre caminho para a retomada plena de suas operações.

Trata-se de uma marca histórica do varejo brasileiro que atravessou uma crise severa, reorganizou compromissos e agora inicia um novo ciclo. O episódio foi conhecido, foi duro e exigiu ajustes profundos — mas também evidenciou capacidade de recuperação.

Nesse contexto, a chegada da rede ao Catuaí Shopping Cascavel, já em fase de preparação, reforça esse momento de retomada. Para o empreendimento, é a incorporação de uma bandeira icônica. Para o consumidor, mais opções, mais movimento e mais dinamismo no comércio local.

O que importa agora é o presente: uma empresa que arrumou a casa, cumpriu seus compromissos e volta ao mercado com fôlego renovado. No varejo, há marcas que passam. Outras permanecem – é o caso das Americanas. Bem-vinda!

  1. Quem paga não leva

Um estudo debatido no Conselho de Desenvolvimento Econômico de Foz do Iguaçu jogou números frios sobre uma velha intuição regional: o extremo-oeste do Paraná produz muito, entrega muito e recebe pouco. Os 18 municípios da região contribuíram com R$ 23,2 bilhões em impostos nos últimos quatro anos. Em contrapartida, receberam apenas R$ 130 milhões em repasses parlamentares no período analisado. O descompasso é tão grande que dispensa metáfora. Mas uma ajuda: para cada R$ 1 que voltou, R$ 178 seguiram viagem.

Essa é a matemática da periferia política. A região tem quase 600 mil eleitores, PIB de R$ 33,3 bilhões e participação equivalente a 5% da riqueza do Paraná. Se fosse um município, seria o quarto mais rico do estado. Não se trata, portanto, de um pedaço irrelevante do mapa. O problema é outro: entre a força econômica e o poder de pressão existe um deserto de representatividade.

O levantamento mostra que a dispersão eleitoral agrava o problema. No último pleito, centenas de candidatos de fora capturaram votos na região. Em 2022, 682 candidatos a deputado estadual e 529 a deputado federal receberam votos nesses 18 municípios. Foz do Iguaçu, sozinha, distribuiu preferência para centenas de nomes. É a democracia em versão pulverizada: todo mundo passa por ali para pedir voto, quase ninguém volta para trazer resultado.

Daí a campanha lançada pela sociedade civil para cobrar dos partidos candidaturas viáveis e comprometidas com o território. É um movimento que vai além do bairrismo e entra na esfera do bom senso institucional. Representatividade não é vaidade geográfica. É instrumento de correção de assimetrias. Sem voz organizada, regiões pujantes seguem tratadas como colônias fiscais: ótimas para arrecadar, discretas na hora de decidir. Produzem como centro e são atendidas como margem.

  1. A paca e a liturgia

Janja apareceu no domingo de Páscoa cozinhando paca, animal silvestre cuja caça é proibida no país, e Lula, ao final, elogiou o prato com o entusiasmo próprio de quem imagina ter descoberto uma iguaria capaz de unificar a gastronomia nacional. Bastou isso para a cena sair da cozinha e migrar direto para o tribunal das redes, onde a liturgia do cargo costuma ser julgada com mais rapidez que nos ritos oficiais.

Depois da repercussão, veio a explicação: a carne teria sido presente de um produtor legalizado. Pode ser. Existem criadouros autorizados e, em tese, tudo pode ter ocorrido dentro da legalidade. Mas o ponto relevante talvez seja justamente o outro, aquele que o Brasil político insiste em subestimar: nem tudo o que se pode fazer convém fazer, sobretudo quando se ocupa o Palácio e se fala para milhões.

A primeira-dama não é uma cidadã qualquer gravando um almoço qualquer para um círculo privado. Tudo o que ela exibe adquire dimensão pública, simbólica e pedagógica. Num país em que o tráfico de animais, a caça ilegal e a devastação ambiental convivem com a retórica oficial da consciência ecológica, ostentar paca no cardápio não foi apenas uma escolha culinária. Foi uma escolha cenográfica ruim.

O problema, em suma, não está apenas na procedência do prato, mas na imprudência da vitrine. No Brasil, explicações posteriores raramente limpam o estrago original; em geral, apenas o temperam. E a liturgia, essa velha disciplina esquecida, continua lembrando que há luxos que o poder deveria dispensar — especialmente os que deixam no ar mais dúvidas do que aroma.

  1. O coração não pede espetáculo

De tempos em tempos, a mesma pergunta reaparece nos consultórios, nas conversas entre amigos e nas buscas aflitas da internet: afinal, qual é o melhor exercício para o coração? A resposta, felizmente, é menos sofisticada do que o marketing do bem-estar costuma prometer. Não é o treino mais caro, nem o mais extenuante, nem o que rende melhor fotografia para relógio inteligente. O melhor exercício é o que sai da intenção e vira hábito.

Há um equívoco moderno, muito alimentado pela estética da performance, segundo o qual só faz bem aquilo que empurra o corpo até o limite. O coração, no entanto, é uma máquina muito menos vaidosa. Ele prefere constância a heroísmo. Caminhar rápido, correr, nadar, pedalar, dançar, subir escadas, tudo isso entra na conta. O organismo não pede espetáculo. Pede regularidade.

As recomendações médicas mais aceitas hoje sugerem entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, ou de 75 a 150 minutos de exercício mais intenso, além de dois dias por semana de treino de força. Lido assim, parece uma missão de alta performance. Traduzido para a vida real, é quase um chamado à sensatez: meia hora de movimento em boa parte da semana, somada a algum trabalho muscular, já muda o rumo da saúde cardiovascular.

Também não custa lembrar que o coração não vive apenas de fôlego. Durante muito tempo, o treino de força foi tratado como luxo estético, quase uma extravagância de espelho. Essa ideia envelheceu mal. Musculação, pilates com carga, elásticos, exercícios com o peso do corpo: tudo isso ajuda a preservar massa muscular, autonomia, metabolismo, equilíbrio e também oferece proteção cardiovascular. O corpo humano, afinal, não foi desenhado para escolher entre resistência e estrutura. Precisa das duas.

Talvez por isso a pergunta inicial mereça uma resposta mais honesta. O melhor exercício para o coração é aquele que cabe na vida de quem o pratica e, justamente por isso, permanece. Pode ser a caminhada da manhã, a bicicleta no fim da tarde, a natação, a dança, o futebol recreativo ou a musculação duas vezes por semana. O essencial não é impressionar os outros. É continuar. O coração, no fim das contas, não pede façanhas. Pede fidelidade.

  1. Quando o mito ganha ossos

Um esqueleto encontrado durante obras numa igreja de Maastricht, na Holanda, pode pertencer a Charles de Batz de Castelmore, o homem que inspirou d’Artagnan, herói imortalizado por Alexandre Dumas em Os Três Mosqueteiros. De repente, a literatura, a história e a arqueologia se cruzam sob um altar, como se o passado tivesse resolvido interromper a rotina dos operários com um gesto de pura elegância narrativa.

Os ossos vieram à tona depois do desabamento parcial do piso da igreja, cuja origem remonta ao menos ao século XIII. A hipótese ganhou força por dois detalhes: uma moeda francesa encontrada junto ao esqueleto e a posição do sepultamento, sob o altar, espaço reservado na época a membros da realeza ou a figuras de altíssima distinção. É o tipo de coincidência que, quando bem servida, deixa de ser coincidência e passa a parecer capítulo.

D’Artagnan morreu em 1673 durante o cerco de Maastricht, a serviço da coroa francesa e sob o reinado de Luís XIV. Desde então, o paradeiro de seu corpo nunca havia sido determinado. O homem histórico, como quase sempre acontece, foi sendo encoberto pelo personagem. O militar gascão deu lugar ao espadachim lendário, ao ícone das aventuras, ao mosqueteiro que atravessou séculos com mais fama do que sepultura.

Agora os restos foram enviados para análise, com amostras de DNA encaminhadas a laboratório na Alemanha para comparação com material genético de descendentes conhecidos da família Batz de Castelmore. A ciência fará sua parte. Mas já há algo de fascinante nessa notícia mesmo antes do veredito final. Em tempos tão dados ao descartável, é reconfortante descobrir que algumas figuras não morrem de todo. Apenas aguardam, com paciência aristocrática, que o chão ceda um pouco.

  1. Moraes sob escrutínio global

O ministro Alexandre de Moraes voltou ao radar do Congresso dos Estados Unidos, citado 279 vezes em um relatório que acusa autoridades brasileiras (ele à frente) de impor censura com alcance global.

A crítica não surge no vazio. Ela dialoga com um processo que já se arrasta no Brasil há anos, especialmente a partir do inquérito das fake news, aberto pelo Supremo Tribunal Federal em 2019 e que, desde então, com o xerife Moraes na relatoria, se transformou em instrumento permanente de investigação, com alcance ilimitado e duração indefinida.

O que começou como resposta a supostos ataques institucionais foi, aos poucos, ampliando seu escopo. Decisões passaram a atingir contas, conteúdos, plataformas e vozes diversas, muitas vezes com base em interpretações extensivas e com pouca previsibilidade jurídica.

Inegavelmente, vivemos hoje em um estado de exceção.

Não se trata mais apenas de debate interno. Quando um relatório estrangeiro passa a apontar esse tipo de prática como ameaça à liberdade de expressão, o tema ganha outra dimensão. E quando até dentro do próprio STF já há incômodo com a duração e a amplitude desse instrumento, a discussão deixa de ser periférica.

Há momentos em que o problema não está mais na interpretação dos fatos, mas na evidência deles.

  1. Lembra da indústria das ações trabalhistas? Ela está aí de novo

O Brasil voltou a bater recorde de ações trabalhistas, mesmo após a reforma de 2017. Em 2025, foram mais de R$ 50 bilhões pagos em milhões de processos, reacendendo um cenário que parecia parcialmente controlado.

Parte desse movimento decorre de decisões do STF que flexibilizaram pontos centrais da reforma, especialmente no que diz respeito à gratuidade da Justiça. Na prática, reduziu-se o custo de litigar — e, com isso, ampliou-se o incentivo para pedir mais, mesmo quando as chances de êxito são limitadas.

Se o risco diminui, o volume aumenta. E assim retorna um velho conhecido do ambiente jurídico brasileiro: a litigância ampliada, muitas vezes descolada de critérios mais rigorosos.

Há tentativas de reequilibrar esse cenário, mas enquanto isso não ocorre, a insegurança jurídica volta a ganhar espaço e o custo se espalha por toda a economia.

No fim, não chega a ser nenhuma surpresa. No Brasil, como já dizia o ministro Pedro Malan, até o passado é incerto. E, quando se trata de legislação trabalhista, quase sempre ele volta do túnel do tempo para continuar nos assombrando. É triste a sina deste país.

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