O papel do Brasil na volta do homem à Lua

Enquanto a cápsula Orion cruza o espaço profundo no caminho de volta à Terra, após contornar a Lua com quatro astronautas a bordo — no primeiro voo humano além da órbita baixa desde a Apollo 17, em dezembro de 1972 —, uma parte decisiva e quase desconhecida do programa Artemis germina discretamente em laboratórios de Piracicaba, São Carlos, São José dos Campos e Caiçara do Rio do Vento, no sertão potiguar.
Nenhum dos quatro tripulantes da missão é brasileiro. Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o canadense Jeremy Hansen escrevem, cada qual, sua marca na história: Glover é o primeiro homem negro a viajar às proximidades lunares, Koch é a primeira mulher, Hansen o primeiro não americano.
O Brasil, porém, não está ausente do Artemis. Está presente onde a presença é mais difícil de enxergar e, talvez por isso mesmo, mais indispensável.
A rede de pesquisa Space Farming Brazil, coordenada pela agrônoma Alessandra Fávero e composta por quase sessenta cientistas de vinte e duas instituições — entre as quais a Embrapa, o Instituto Agronômico de Campinas, o Centro de Energia Nuclear na Agricultura e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, ambos da USP —, representa a contribuição brasileira ao programa com foco num problema que nenhuma engenharia de propulsão resolve: como produzir alimentos em ambientes de radiação extrema, microgravidade e ausência total de solo fértil.
Sem resposta para essa pergunta, qualquer base lunar permanente será um exercício de ficção. Hoje, transportar um único quilograma de alimento da Terra até a superfície da Lua custa aproximadamente um milhão de dólares. A produção local de vegetais não é um capricho científico; é condição de viabilidade.
E é precisamente aí que entra meio século de pesquisa agrícola tropical brasileira. O país que dominou o Cerrado, adaptou a soja aos trópicos, desenvolveu cultivares para todos os biomas imagináveis e se tornou referência mundial em agricultura de precisão carrega, na bagagem institucional, a expertise que a Nasa precisa para o passo seguinte: transformar a Lua numa base habitável e, mais adiante, saltar para Marte.
Os cultivos estudados pela rede não são aleatórios. A batata-doce, nas cultivares Beauregard — com dez vezes mais betacaroteno que as variedades comuns — e Covington, foi selecionada pelo crescimento acelerado, valor nutricional elevado e manejo simples. O grão-de-bico, da cultivar BRS Aleppo desenvolvida pela própria Embrapa, é rico em triptofano, precursor da serotonina, o que interessa particularmente em situações de confinamento e estresse prolongado, além de carregar antioxidantes que tornam a planta mais tolerante à radiação ionizante do espaço. Suas folhas, ricas em fibra e proteína, também podem ser consumidas, reduzindo a produção de resíduos — detalhe nada trivial num habitat onde cada grama de lixo é um problema logístico.
Em dezembro passado, pesquisadores da Embrapa Hortaliças realizaram a primeira missão espacial análoga brasileira no Habitat Marte, instalação de infraestrutura avançada encravada no semiárido do Rio Grande do Norte, que simula as condições de uma estação fora da Terra. Durante quarenta e oito horas de isolamento, montaram experimentos com tomates em sistemas hidropônicos e aeropônicos monitorados remotamente por sensores de Internet das Coisas.
Os sistemas de ciclo fechado testados demonstraram capacidade de economizar até oitenta por cento de água e nutrientes — tecnologia que, antes mesmo de chegar à Lua, já tem aplicação direta na agricultura familiar de regiões brasileiras castigadas pela irregularidade de chuvas e pelo avanço da desertificação. O caminho para o espaço, neste caso, passa primeiro pelo sertão.
Em abril de 2025, a rede Space Farming Brazil alcançou outro marco ao enviar sementes de grão-de-bico e mudas de batata-doce ao espaço na missão NS-31 da Blue Origin. Durante cerca de cinco minutos em ambiente de microgravidade, o material biológico brasileiro viajou ao lado de seis passageiras de turismo espacial — entre elas, a cantora Katy Perry. As amostras retornaram à Terra para análise genética, em busca de parâmetros que orientem o futuro do cultivo fora do planeta.
Testes conduzidos pela Esalq em Piracicaba, utilizando CubeSats e equipamentos de simulação gravitacional, já haviam demonstrado que, em diferentes condições de gravidade, as plantas entram em estresse significativo, comprometendo a produtividade. A radiação ionizante cósmica exige que os cultivos estejam protegidos por invólucros com materiais capazes de absorver as ondas. E o solo lunar, o chamado regolito, é rico em alumínio e ferro, mas extremamente pobre em nutrientes — o que impõe, ao menos inicialmente, o uso de técnicas como aeroponia e hidroponia, dispensando inteiramente o solo até que se consiga adaptar o cultivo às condições de superfície dos diferentes corpos celestes.
A pesquisadora Alessandra Fávero costuma lembrar que o programa Artemis, apesar de toda a grandiosidade, ainda está na infância. A primeira fase das pesquisas é a simulação terrestre, os ajustes constantes de cultivares e sistemas de produção. A colonização lunar efetiva pertence à próxima geração. Mas o trabalho de base precisa começar agora, como aconteceu com toda grande tecnologia da história — inclusive com as mais de duas mil inovações que o projeto Apollo legou ao cotidiano da humanidade sem que a maioria das pessoas jamais tenha se dado conta.
O Brasil tem ainda um segundo projeto concreto negociado com a Nasa dentro do Artemis: o nanossatélite SelenITA, desenvolvido pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica em parceria com o INPE, que deverá integrar a missão Artemis III para estudar a geofísica do Polo Sul lunar — exatamente a região onde se planeja instalar a futura base habitável.
Em junho de 2025, o projeto passou pela Revisão de Definição de Sistema com aprovação unânime de uma comissão internacional, confirmando maturidade técnica e potencial científico. O nome é um tributo a Selene, deusa grega da Lua, e embute na própria grafia a sigla do instituto que o construiu.
A Artemis II não carrega nenhuma bandeira brasileira no uniforme de seus tripulantes. Mas valida subsistemas que, nas missões seguintes, dependerão de ciência cultivada em solo brasileiro para funcionar.
O país que alimenta uma parcela crescente do mundo começa a ensaiar, em silêncio, a alimentação de quem viverá fora dele.
Há uma poesia involuntária nessa vocação: a nação que fez do campo sua força planeja estender a lavoura até onde não há campo, nem atmosfera, nem chuva. Apenas a ambição humana de ir mais longe — e, ainda assim, precisar comer.



