Para Lula, governar é criar impostos

Quando gastar é fácil, tributar vira regra. A voracidade fiscal do atual governo deixou de ser impressão — virou estatística.
Desde o início do seu terceiro mandato, Lula mandou editar 43 medidas para ampliar a arrecadação. Uma nova iniciativa a cada 27 dias. Não é ajuste pontual. É método.
E o método dispensa sutileza. Reonera combustíveis, cria a chamada “taxa das blusinhas”, eleva o IOF sobre crédito e compras internacionais, avança sobre investimentos antes incentivados — de fundos exclusivos a dividendos — e amplia a tributação em setores que vão da energia às apostas eletrônicas. A base é ampla. O alvo, difuso. O efeito, inevitavelmente concentrado: mais custo para produzir, investir e consumir.
E o mais curioso é que isso ocorre em meio a recordes históricos. Em 2025, a União arrecadou R$ 2,9 trilhões — alta real de 3,65%. Ainda assim, não basta. Nunca basta.
O problema, como bem apontam tributaristas, não está na insuficiência de receita, mas na ausência de disciplina. O Brasil já opera com uma carga tributária próxima de 34% do PIB — patamar de país desenvolvido, entregue, porém, a serviços públicos que ainda insistem em ser de país em desenvolvimento.
A equação é simples. E desconfortável.
Em vez de rever despesas, jogam-se os gastos nas costas do contribuinte.
A lista de medidas fala por si — e dispensa adjetivos. No consumo, reonera-se combustível, amplia-se imposto de importação, cria-se a “taxa das blusinhas” e eleva-se o custo de energia e insumos. Nos investimentos, tributa-se o que antes era incentivo: fundos exclusivos, offshores, dividendos, fundos imobiliários. No sistema financeiro, o IOF avança como uma engrenagem silenciosa, atingindo crédito, câmbio, seguros e até cooperativas.
E há ainda os setores específicos, sempre à mão para novos experimentos arrecadatórios: bets, petróleo, fintechs, veículos, armas. Nenhum segmento passa incólume quando o objetivo é ampliar a base de extração.
Tudo isso sob o argumento clássico — quase sempre bem embalado — de justiça social.
Tira-se dos ricos, diz-se, para dar aos pobres.
Mas a realidade costuma ser menos nobre.
O que se vê, na prática, é uma pressão difusa que recai sobre toda a cadeia econômica: empresas investem menos, consumidores consomem menos, o crédito encarece, a atividade desacelera. O próprio crescimento do PIB — já em 2,3%, o mais baixo desde a pandemia — começa a refletir esse ambiente de compressão.
E, paradoxalmente, o ciclo se retroalimenta: arrecada-se mais hoje para crescer menos amanhã.
A chamada recomposição fiscal, feita exclusivamente pela via tributária, revela não uma estratégia, mas uma escolha. E, mais do que isso, uma dificuldade histórica: a de ajustar o tamanho do Estado à realidade do país.
Não por acaso, a Instituição Fiscal Independente já aponta o risco de uma bomba adiante — uma conta que exigiria superávits robustos para estabilizar a dívida, mas que, no cenário atual, tende a ser empurrada para o próximo governo.
O futuro, como sempre, pode esperar.
A arrecadação, não.
Nesse contexto, a reforma tributária surgiu como a grande promessa de simplificação. Mas, como alertam nove entre dez especialistas da área, simplificar não é sinônimo de aliviar. Ao contrário: sob a aparência de reorganização, esconde-se um expressivo agravamento da carga — uma elevação estrutural que, embora tecnicamente mais “limpa”, tende a ser economicamente mais pesada.
Troca-se a complexidade pelo peso.
Não deixa de ser um avanço. Apenas não aquele que foi anunciado.
No fim, a velha lógica se impõe.
Quando o Estado cresce sem medida, a conta não desaparece.
Ela muda de nome.
E chega sempre ao mesmo destino.
No fim, o Estado não paga a conta. Apenas escolhe quem vai pagar.



