
“República do Supremo que pode tudo.” O título não é de um blog de oposição nem de um manifesto panfletário. É o editorial de capa da Folha de São Paulo — espaço de uso excepcional, nos dois sentidos do adjetivo. O texto, publicado no dia 1º de abril – muita gente talvez tenha achado que era só de mentirinha –, é contundente.
Descreve um tribunal sem freios, ministros que agem como demiurgos, decisões monocráticas à margem do rito, intimidação de órgãos de controle e um corporativismo que blinda os próprios integrantes da corte. Tudo verdade. Tudo tardio.
O que a Folha descreve com alarme em abril de 2026 já era visível — e denunciável — anos atrás.
Inquéritos instaurados de ofício, sem provocação do Ministério Público. Prisões decretadas sob sigilo absoluto. Censura prévia a veículos de imprensa e perfis de redes sociais. Reescritura monocrática de leis aprovadas pelo Congresso. Nada disso nasceu ontem. O estado de exceção togado foi construído tijolo por tijolo, à vista de quem quisesse enxergar.
A grande imprensa não quis.
Enquanto o Supremo alegava defender a democracia contra supostos golpes de Estado, Folha, Estadão e O Globo ofereceram ao tribunal o mais precioso dos insumos: o silêncio cúmplice.
Cada decisão que atropelava o devido processo legal recebia, quando muito, uma nota protocolar em páginas internas. Cada avanço sobre prerrogativas do Legislativo e do Executivo era tratado como efeito colateral tolerável de uma causa nobre. O inimigo comum anestesiou o senso crítico de redações inteiras.
O resultado é o que o próprio editorial da Folha agora reconhece: um regime em que dez indivíduos prevalecem sobre o restante da sociedade. Ministros legislam, governam, investigam, julgam e punem — tudo ao mesmo tempo, tudo sem constrangimento.
A Constituição, que deveria ser o limite, virou matéria-prima para releituras criativas sempre que a conveniência exigiu. E quando a sociedade brasileira poderia ter reagido, preferiu crer que o autoritarismo de toga era um mal menor.
Não era. Nunca é.
O editorial da Folha merece reconhecimento pela franqueza com que desnuda a anomalia institucional. Mas é preciso lembrar que editoriais de capa não apagam anos de cobertura complacente.
O jornal que hoje pede uma reforma para recolocar o STF em seu lugar constitucional é o mesmo que, por temporadas, tratou como paranoia de oposição o que era denúncia legítima de abuso de poder.
Que o alarme tenha finalmente soado é positivo. Que tenha demorado tanto é a prova de que o problema não mora apenas no Supremo — mora também na imprensa que se acostumou a escolher quais abusos merecem indignação.



