STF e Banco Master: escracho na imprensa internacional

Há uma tradição melancólica no noticiário internacional sobre o Brasil. De tempos em tempos, alguma publicação de prestígio dedica suas páginas ao país — não para celebrar o dinamismo da maior economia da América Latina, não para registrar as conquistas de uma nação continental em pleno século XXI, mas para explicar, com a paciência de quem descreve uma anomalia exótica, como as instituições brasileiras voltaram a se enredar em si mesmas.
Desta vez, coube à The Economist — uma das revistas mais influentes e lidas do mundo — o papel de narrador. O tema: o escândalo do Banco Master e seus tentáculos no Supremo Tribunal Federal.
A publicação britânica não poupa detalhes.
Descreve como Daniel Vorcaro, dono do Master, cultivou por anos vínculos com a elite de Brasília enquanto seu banco vendia certificados de depósito com taxas extravagantes sem lastro proporcional em liquidez. A saga, como a própria revista observa, poderia ter ficado restrita ao universo financeiro. Não ficou. O colapso da instituição puxou para a luz do dia uma teia de relações que envolvem políticos, empresários e membros do Judiciário — e que, nas palavras da Economist, “reforçam a impressão entre os eleitores brasileiros de que a Suprema Corte do país carece de imparcialidade”.
Carece de imparcialidade. Dito assim, em inglês, nas páginas de uma revista lida em Londres, Nova York, Tóquio e Cingapura, o eufemismo adquire um peso que nenhum editorial brasileiro conseguiria reproduzir. Mas é preciso dizer com clareza: essa percepção não nasceu nas páginas da Economist. Ela vinha sendo denunciada há anos — por opositores sistematicamente desqualificados, por juristas que apontavam o descumprimento do devido processo legal, por setores da política que se viram alvo de julgamentos em que a imparcialidade brilhou pela ausência.
O Tribunal Superior Eleitoral, apêndice do STF, que conduziu a campanha de 2022 com o polegar visivelmente inclinado. O julgamento da suposta tentativa de golpe, cujos rituais processuais foram questionados por nomes respeitados do direito brasileiro. Tudo isso foi dito, escrito e denunciado — e tudo isso foi, por muito tempo, tratado como narrativa de perdedores. O que a Economist faz agora é emprestar a essas denúncias o selo de uma publicação que o mundo leva a sério. Não descobriu o fogo. Apenas confirmou que ele existe.
O cardápio de constrangimentos é farto. O contrato de 24 milhões de dólares em três anos firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes — contrato que especialistas jurídicos classificam como “anormal” tanto pela vagueza quanto pelos valores. As ligações e reuniões entre Moraes e o presidente do Banco Central às vésperas da liquidação do banco, apresentadas pelo ministro como coincidências sem relevância. A investigação que Moraes abriu contra a Unidade de Inteligência Financeira e a Receita Federal — não para apurar os fatos do escândalo, mas para descobrir quem havia vazado as informações sobre o contrato. Uma inversão de prioridades que, por si só, merece figurar em qualquer manual de direito constitucional como exemplo do que não fazer.
E há Toffoli. Sempre há Toffoli. A viagem de jato particular com um advogado do BancoMaster, realizada na mesma época em que o sorteio do STF o designou relator do caso envolvendo a instituição. O investimento superior a um milhão de dólares no resort Tayayá, pertencente aos irmãos do ministro. Detalhes que, isolados, poderiam ser chamados de coincidência. Juntos, compõem um mosaico cuja interpretação a Economist deixa ao critério do leitor — com a elegância britânica de quem não precisa sublinhar o óbvio.
É justo registrar, aqui, que boa parte desse mosaico foi montada pela imprensa brasileira. Depois de anos em que a grande mídia nacional navegou com cautela pelas águas do STF — ora por convicção, ora por conveniência —, alguns veículos tiveram a coragem de puxar os fios e publicar o que encontraram. Foi um trabalho brilhante de apuração, e merece reconhecimento.
O Wall Street Journal vinha há mais tempo sinalizando o autoritarismo crescente da Corte em reportagens que a imprensa brasileira demorou a acompanhar. Desta vez, porém, a primazia foi nossa — e isso importa.
O que a Economist faz, portanto, não é revelar o que o Brasil desconhecia. É amplificar, para uma audiência global, o que o Brasil ainda reluta em admitir plenamente: que o Supremo Tribunal Federal atravessa uma crise de credibilidade sem precedentes, alimentada por comportamentos que seus próprios membros não conseguem explicar com coerência.
Que a instituição que deveria ser o último reduto da imparcialidade se tornou personagem central de um escândalo financeiro. Que o único “claro vencedor” do caso Banco Master, como anota a revista, foi Gabriel Galípolo — o presidente do Banco Central que resistiu às pressões e disse não.
Num país acostumado a exportar soja, minério e talento musical, há algo de perturbador em constatar que um dos produtos brasileiros com maior penetração no noticiário internacional, neste começo de 2026, é o escândalo institucional.











