OPINIÃO

Quando as contas não fecham: avanço da inadimplência coloca o comércio em alerta

O Paraná habituou o país a boas notícias. Exportações recordes, agronegócio pujante, infraestrutura em expansão, finanças públicas entre as mais saudáveis da federação — o estado construiu, ao longo dos últimos anos, uma reputação de solidez que poucos conseguem contestar.

É precisamente por isso que o sinal vindo das estatísticas de crédito no início de 2026 merece atenção redobrada: por baixo do vigor da economia paranaense, um número crescente de famílias começa o ano enredado nas malhas da inadimplência.

Segundo levantamento da Faciap — Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Paraná — com base nos dados do SPC Brasil, o número de consumidores negativados no estado cresceu 8,40% em janeiro, na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

É um avanço expressivo, mas que ainda poupa o Paraná de figurar entre os mais vulneráveis: o índice ficou abaixo da média da Região Sul (9,33%) e da média nacional (9,39%). Um alívio relativo, porque os números absolutos não permitem complacência.

Cada consumidor negativado no estado acumula, em média, R$ 5.953,36 em dívidas — uma cifra que se aproxima dos seis mil reais e que, para muitas famílias, representa meses de trabalho comprometido antes mesmo de qualquer despesa corrente.

O tempo médio de atraso é de 29,4 meses, quase dois anos e meio de inadimplência acumulada, e 34,63% dos devedores estão nessa condição há entre um e três anos. O perfil etário do devedor paranaense revela uma concentração na faixa dos 30 aos 39 anos — exatamente a geração economicamente mais ativa, aquela que deveria estar construindo patrimônio, e não administrando passivos. A distribuição por gênero é praticamente simétrica: 50,48% mulheres e 49,52% homens, com idade média de 45,1 anos.

Mais preocupante do que o crescimento no número de devedores é a velocidade com que o volume das dívidas se expande. Enquanto a quantidade de inadimplentes avançou 8,40%, o total de pendências cresceu 14,81% em doze meses — quase o dobro do ritmo.

Trata-se de um sinal inequívoco: as dívidas não apenas proliferam, mas engordam. Cada inadimplente paranaense carrega, em média, 2,451 débitos, número levemente superior à média regional e bem acima da média nacional (2,259). O setor bancário responde pela fatia mais robusta dessas dívidas, concentrando 60,95% do total, seguido por outros setores (12,75%), comércio (11,78%), comunicação (8,19%) e contas de água e luz (6,32%).

O retrato paranaense é um fragmento de um quadro nacional igualmente sombrio. No Brasil, 78,9% das famílias encerraram 2025 com algum tipo de dívida, crescimento de 2,3 pontos percentuais em relação ao ano anterior. O cartão de crédito lidera com folga a lista dos instrumentos de endividamento, presente em 85,1% dos casos, seguido pelos carnês (16,2%) e pelas linhas de crédito pessoal (12,1%).

O endividamento das pessoas físicas chegou a 49,77% ao fim de 2025, segundo o Banco Central, e o comprometimento da renda com dívidas alcançou 29,28% do orçamento familiar — quase um terço de tudo que se ganha vai para pagar o que já se deve.

Por trás desses números há uma engrenagem que o brasileiro conhece bem, ainda que nem sempre compreenda em sua plenitude: os juros estratosféricos.

A inadimplência no rotativo do cartão de crédito chegou a 64,7% em dezembro de 2025, com juros médios de 438% ao ano nessa modalidade — um mecanismo de esmagamento financeiro que, uma vez acionado, raramente poupa quem nele se enreda. A Selic, mantida em 15% ao ano para conter a inflação, funciona como o maestro de toda essa orquestra de encargos: ela eleva o custo do dinheiro em cascata, do crédito consignado ao cheque especial, transformando dívidas administráveis em armadilhas quase intransponíveis.

Uma em cada cinco famílias brasileiras tem mais da metade dos rendimentos comprometidos com dívidas — dado que, por si só, dispensa qualquer comentário adicional.

A sazonalidade do início de ano agrava o cenário. Janeiro é, por definição, o mês em que o calendário apresenta a conta do período anterior: IPVA, matrículas escolares, material didático, seguros, IPTU — despesas que chegam concentradas, sem negociação de prazo, sobre orçamentos já tensionados pelo consumo excessivo de dezembro.

O resultado é previsível: mais famílias escorregam para o vermelho, e o que era um compromisso controlável transforma-se em inadimplência registrada.

Para o comércio paranaense, o impacto é direto e imediato. A inadimplência não é apenas o sintoma de uma família em dificuldade — é também o freio do consumo, a restrição do crédito, o enxugamento das vendas a prazo.

Quando o devedor tem o nome negativado, sua capacidade de consumir se contrai de forma abrupta; quando os lojistas percebem o aumento da inadimplência, restringem as condições de crédito para novos compradores.

É um ciclo que se retroalimenta e que, se não for interrompido, tende a refrear a atividade econômica muito além do que os índices isolados sugerem.

A Faciap aponta, com acerto, a educação financeira como um dos pilares estruturais para romper esse ciclo. Não se trata de uma solução imediata — nenhuma política educacional produz efeitos no curto prazo —, mas é provavelmente a mais duradoura.

O Brasil ainda não incorporou de forma consistente o ensino das finanças pessoais nos bancos escolares, aquele espaço formativo em que crianças aprendem a dimensionar desejos, distinguir necessidades de impulsos e compreender que um crédito fácil, sem a devida compreensão dos juros, pode custar muito mais do que o bem adquirido. Economias que investiram nessa formação colhem, décadas depois, populações financeiramente mais resilientes, menos vulneráveis às armadilhas do crédito predatório.

O Paraná, ao registrar índices abaixo da média nacional, demonstra uma certa solidez econômica relativa. Mas solidez não é imunidade.

O avanço de 8,40% no número de inadimplentes e de 14,81% no volume de dívidas são sinais que o comércio, os empresários e os formuladores de políticas públicas não podem ignorar.

O vermelho que avança no orçamento das famílias paranaenses é, antes de tudo, um aviso — e avisos, quando não ouvidos a tempo, costumam se transformar em crises.​​​​​​​​​​​​​​​​

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