Prazo de validade vencido?

Há um conceito na engenharia que deveria interessar muito aos estrategistas do Partido dos Trabalhadores. Chama-se fadiga de material. É o fenômeno pelo qual uma estrutura — asa de avião, viga de ponte, eixo de turbina — vai cedendo progressivamente sob o efeito de esforços repetidos, não necessariamente intensos, mas contínuos e acumulados.
A estrutura resiste por um tempo. Parece sólida. Continua operando. Até que não consegue mais.
Os números da última pesquisa Genial/Quaest sugerem que algo parecido acontece com o projeto Lula de buscar um quarto mandato: 57% dos eleitores reprovam a permanência do presidente no comando do país, contra 39% que acham que ele merece mais quatro anos à frente do Palácio do Planalto.
O dado não é isolado — é a consolidação de uma tendência que vem se repetindo em todas as rodadas das sondagens nas últimas semanas e meses, com pequenas variações residuais.
Lula lidera as intenções de voto no primeiro turno. Isso é verdade. Mas há um fato que os entusiastas da reeleição preferem não discutir: somados os percentuais dos candidatos da oposição — da direita e do centro-direita, passando pelos antipetistas sem bandeira ideológica definida —, o conjunto supera folgadamente a fatia do presidente.
A aritmética é impiedosa. Quando o eleitorado contrário a um candidato supera, em bloco, o eleitorado favorável, isso tem um nome: desgaste estrutural. E no segundo turno, o favoritismo que parecia sólido já não existe mais.
Lula aparece levemente à frente sobre todos os adversários testados, mas no limite do empate técnico — diferença que a dinâmica de uma campanha eleitoral é perfeitamente capaz de apagar.
O que as pesquisas estão registrando é o peso acumulado de uma história que nenhum artifício retórico apaga. A roubalheira do Mensalão deixou marcas. A rapinagem do Petrolão, mais ainda. A condenação do presidente, transformada em peça política pela anulação da Lava Jato em procedimentos que satisfizeram a jurisprudência conveniente, mas não o senso comum, instalou no imaginário coletivo uma desconfiança que sobrevive aos discursos.
Some-se a isso o desvio dos descontos ilegais no INSS, que sangrou aposentados e pensionistas em bilhões de reais, e o caso Banco Master — que não é apenas um escândalo financeiro, mas uma ferida política aberta no coração do governo.
As conexões entre o banco e aliados do Palácio do Planalto são explícitas. Os ministros do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli (nomeado por Lula) e Alexandre de Moraes (que aderiu alegremente ao petismo) estão enrolados até a medula nas estripulias do banqueiro Daniel Vorcaro.
O escritório de advocacia do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, também indicado ao STF por Lula, firmou contrato milionário para assessorar a instituição.
A proteção que o governo tentou estender ao Master e ao escândalo transformou o caso num símbolo do que o eleitorado mais abomina: a sensação de que o poder protege o poder.
A rejeição ao presidente subiu de quarenta e nove por cento em janeiro de 2025 para cinquenta e quatro por cento em fevereiro de 2026. Não é uma oscilação. É uma curva. E curvas desse tipo, em política como em engenharia, raramente se invertem por decreto ou por força de vontade.
O eleitorado percebe o que os números confirmam. Percebe nos preços dos alimentos, na pressão dos juros estratosféricos, nas denúncias de corrupção e na sensação difusa de que as promessas distributivistas têm se revelado menores do que o custo de sustentá-las.
O populismo pode ganhar eleições. Manter eleitorados cativos ao longo de décadas, com passagens pela cadeia, anulações e retornos triunfais, é proeza raríssima. Até os grandes tenores cansam quando cantam a mesma ária vezes demais.
A história política brasileira está cheia de líderes que pareciam invencíveis e que encontraram, no próprio eleitorado, o limite que nenhuma pesquisa ainda revelava com clareza — até o dia em que revelou.
A fadiga de material não avisa com alarmes. Vai se instalando em silêncio, nas microfissuras que só aparecem quando já é tarde para o reparo.
Afinal, como já dizia o velho ditado, não há bem que sempre dure — nem mal que nunca acabe.











