OPINIÃO

Exportações do Paraná avançam na Europa. E poderão crescer ainda mais.

Janeiro de 2026 trouxe um número que merece atenção: as exportações paranaenses para a União Europeia alcançaram US$ 197,9 milhões, crescimento de 12,9% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

Não é um dado isolado. É o retrato de uma relação comercial que se consolida, se diversifica e, sobretudo, se aprofunda — com o agronegócio paranaense ocupando, como de hábito, o papel de protagonista.

Os mercados tradicionais responderam com vigor. A Alemanha ampliou suas compras do Paraná em 19,5%, chegando a US$ 44,1 milhões, puxada pelo farelo de soja. A Holanda avançou 25,7%, para US$ 39,7 milhões, com o biodiesel na linha de frente. E a Polônia registrou salto de 215,2%, saltando de US$ 5,4 milhões para US$ 17,1 milhões — também com o farelo de soja como vetor do crescimento.

A surpresa do mês, porém, veio da Eslovênia: um aumento de quase dez mil por cento, de US$ 143,7 mil para US$ 14,4 milhões, resultado de embarques expressivos do mesmo grão que sustenta boa parte da força exportadora do estado.

Quanto aos tipos de produtos, as maiores ampliações foram contabilizadas pelas vendas de máquinas de terraplanagem, papel, partes de motores para veículos, carne de frango in natura e produtos químicos.

Olhando para o conjunto das exportações paranaenses em janeiro — US$ 1,38 bilhão, considerando todos os destinos —, os alimentos responderam por 58% do total. É uma cifra que diz muito sobre a vocação produtiva do Paraná e sobre o peso estratégico do campo na geração de divisas para o Brasil.

Para Jorge Callado, diretor-presidente do Ipardes — Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social, vinculado à Secretaria de Planejamento e responsável pelos estudos que balizam as análises da economia estadual —, a trajetória é promissora. “A continuidade do crescimento das exportações para a União Europeia seria muito benéfica para a economia do Paraná. E temos perspectivas muito positivas, em razão do acordo entre o Mercosul e o bloco europeu, que possibilitará a intensificação do comércio”, afirma.

A perspectiva, de fato, existe — e é sedutora. Um acordo entre dois dos maiores blocos econômicos do planeta, depois de mais de vinte e cinco anos de negociações, tem o potencial de multiplicar exatamente o tipo de fluxo comercial que os números de janeiro começam a esboçar.

Mas entre o dado alvissareiro do primeiro mês do ano e o horizonte que o acordo promete, há uma travessia que exige mais do que otimismo. Exige vigilância.

É o que alerta, com precisão e autoridade, o deputado federal Pedro Lupion — presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária no Congresso Nacional, a principal bancada organizada do agronegócio brasileiro —, em artigo publicado na Gazeta do Povo.

Para Lupion, o acordo carrega, embutidas em seu texto, armadilhas que podem transformar uma oportunidade histórica em frustração para o produtor rural brasileiro.

O acordo foi dividido em dois instrumentos distintos. O primeiro, o chamado EMPA — Acordo de Parceria —, é mais abrangente, cobre temas como sustentabilidade, clima, cooperação e agenda digital, e depende da ratificação de todos os países membros da União Europeia, um processo que pode se estender por anos.

O segundo, o Acordo Comercial Interino — o ITA —, é de implementação mais rápida e trata exclusivamente de questões comerciais: tarifas, regras de origem, serviços e compras públicas. É precisamente no ITA que se concentra a preocupação do setor agropecuário.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil identificou que foram inseridas, de última hora, salvaguardas por parte europeia que se distanciam dos padrões tradicionais da Organização Mundial do Comércio e que sequer estavam previstas nas rodadas anteriores de negociação.

Elas estabelecem gatilhos automáticos que dispensam a comprovação prévia de dano causado pelas importações — e permitem medidas provisórias em prazos curtos, com possibilidade de aplicação regionalizada por Estado-membro, sem qualquer apuração por órgão externo. Na prática, é um instrumento de restrição ágil, de baixo custo político interno para quem o aciona e de impacto imediato para quem está do outro lado.

Os números tornam o risco concreto: 45% das linhas tarifárias agrícolas analisadas pela CNA já ultrapassaram o limite de 5% de aumento de volume previsto no acordo — o gatilho central para o acionamento das salvaguardas.

No caso da carne bovina, a estimativa aponta para uma perda potencial de até 105 milhões de euros já no primeiro ano, o equivalente a cerca de 16% das exportações brasileiras do produto para a Europa. Seria o acordo funcionando às avessas — reduzindo, em vez de ampliar, as oportunidades para o campo brasileiro.

Lupion reconhece que, no diálogo com o corpo diplomático brasileiro na União Europeia, a avaliação predominante é a de que essas salvaguardas dificilmente seriam acionadas. Mas pondera com realismo: a pressão política interna nos países europeus é crescente, os governos enfrentam parlamentos cada vez mais protecionistas, e a França — que chegou a judicializar pontos do acordo junto ao Tribunal de Justiça Europeu — é o símbolo mais visível de uma resistência que não desapareceu com a assinatura do texto.

A resposta da Frente Parlamentar da Agropecuária vem em duas frentes.

A primeira é acelerar a regulamentação da Lei de Reciprocidade Econômica — Lei nº 15.122/2025 —, construída no âmbito da bancada, para garantir instrumentos ágeis de resposta a eventuais medidas protecionistas. A segunda é trabalhar pela criação de um Marco Legal de Salvaguardas Bilaterais no Brasil, que ofereça previsibilidade e segurança jurídica ao produtor rural diante de decisões unilaterais que possam contrariar o espírito de equilíbrio e reciprocidade que deveria nortear o acordo.

O Paraná exporta mais. O campo brasileiro produz mais. O mundo compra mais do Brasil.

Mas entre o dado de janeiro e o potencial que um acordo bem calibrado poderia liberar, há uma distância que só se encurta com vigilância, preparo e a disposição de não aceitar, na mesa de negociação, condições que sirvam para fechar a porta que se prometeu abrir.

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