OPINIÃO

Economia do crime: o negócio da impunidade

Há delitos que não nascem do improviso, do descontrole ou do acaso. Eles são calculados. Pesados. Comparados. É exatamente essa lógica — incômoda, mas necessária — que sustenta a chamada economia do crime, abordagem formulada pelo economista Gary Becker, que aplica instrumentos da microeconomia à análise de atividades ilícitas. Nessa leitura, o criminoso age como qualquer agente racional: avalia riscos, estima retornos e decide.

Quando o benefício financeiro supera o custo esperado da punição, o crime compensa.

Não se trata de relativizar o delito, mas de compreendê-lo. A economia do crime desloca o debate moral para o terreno da eficácia das políticas públicas, mostrando que a certeza da punição pesa mais do que sua severidade e que sistemas marcados por penas brandas, progressões automáticas e baixa probabilidade de sanção acabam funcionando como incentivos perversos à reincidência.

É nesse campo — ainda pouco explorado no Brasil, mas absolutamente central para o debate contemporâneo sobre segurança pública — que se destaca o economista Pery Shikida, hoje a maior autoridade brasileira no estudo da economia do crime.

Professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Toledo, Shikida é mineiro de origem e paranaense por trajetória acadêmica. Graduado em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestre e doutor em Economia Aplicada pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em Economia pela Fundação Getulio Vargas, construiu uma trajetória sólida e respeitada, com interlocução permanente com instituições acadêmicas nacionais e internacionais.

Entre seus trabalhos mais relevantes está a pesquisa de campo realizada em dez unidades prisionais da Região Metropolitana de São Paulo, com entrevistas aplicadas a 408 detentos condenados por crimes econômicos. Os resultados são eloquentes — e perturbadores. As chamadas travas morais (família, escola, religião), que poderiam conter a migração para o crime lucrativo, aparecem fragilizadas. As motivações declaradas — ganho fácil, ambição, indução de terceiros — coincidem com o que a literatura internacional já aponta. E o dado mais revelador: a renda média do crime alcança R$ 46,3 mil, cerca de 12,9 vezes superior à renda do trabalho legal.

Na lógica econômica pura, no Brasil, o crime compensa.

Não por acaso, quando instados a apontar o que poderia desestimular a prática criminosa, os próprios apenados mencionam leis críveis, maior risco de punição efetiva e mais oportunidades de trabalho e educação. A conclusão é direta: enquanto o sistema de justiça e o sistema prisional forem incapazes de romper essa equação — alto retorno, baixo custo — a criminalidade seguirá racionalmente atraente.

O reconhecimento aos estudos de Shikida resultou em sua nomeação como membro do Conselho Superior de Segurança da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), colegiado estratégico que reúne especialistas para discutir um dos maiores gargalos ao desenvolvimento nacional. As empresas, afinal, sentem na prática os efeitos de um ambiente onde a insegurança jurídica e a criminalidade organizada corroem investimentos e produtividade.

O tema foi explorado na entrevista que fiz com Shikida para o programa Conexão Tarobá, da TV Tarobá, que vai ao ar no dia 7 de fevereiro, às 18h50. Entre os pontos abordados, ele detalha a importância das pesquisas de campo, a necessidade de ouvir diretamente os apenados e a constatação incômoda de que o sistema brasileiro não está estruturado para tornar o crime economicamente desvantajoso.

É essa lógica que ajuda a explicar por que a impunidade se tornou um traço estrutural da vida brasileira.

Dos delitos comuns aos crimes de corrupção praticados por personagens poderosos, da periferia aos gabinetes climatizados, o cálculo é o mesmo: penas reduzidas, progressões generosas, baixíssima probabilidade de punição efetiva.

Quando o sistema sinaliza reiteradamente que o custo é irrisório, a reincidência deixa de ser exceção e vira estratégia.

A teoria sobre a economia do crime apenas traduz, em números e evidências empíricas, aquilo que o país experimenta há décadas: no Brasil, o crime não é um desvio irracional — é um negócio que compensa.

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Um Comentário

  1. Li um livro, história fictícia claro, em que a chamada República de Bananas, tinha no cargo máximo de gestão daquele país, uma pessoa que já tinha essa visão há muito tempo. E esse fez esse 46,3 mil de renda, virar troco pra flanelinha.

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