
- Subiu no telhado: acordo Mercosul-UE já enfrenta judicialização antes mesmo de valer
Vinte e seis anos de negociações, festas protocolares, discursos inflamados sobre integração continental — e eis que o acordo Mercosul-União Europeia mal secou a tinta e já subiu no telhado. O Parlamento Europeu, movido pela pressão de países como a França (sempre ela, defendendo seus produtores com unhas e dentes), recorreu ao Tribunal de Justiça da União Europeia para questionar pontos do tratado. A judicialização precoce não surpreende quem acompanha a saga: a resistência europeia ao livre comércio com o Mercosul nunca foi segredo de Estado.
O governo brasileiro fez barulho, comemorou como se fosse o parto de uma nova era — mas no meio empresarial, longe dos holofotes e dos palanques, a frieza dos números e da experiência já esfriou qualquer euforia prematura. A avaliação mais realista aponta que só lá por 2033 o acordo começará a funcionar de verdade. Até lá, o que se vê pela frente é uma via crucis de burocracias, tarifas compensatórias e restrições setoriais: na França, por exemplo, nenhum produto brasileiro que concorra com os franceses — seja do agronegócio, seja da indústria — terá entrada facilitada.
A implantação será gradual, cheia de ressalvas, exceções e cláusulas de salvaguarda que transformam o “livre comércio” em uma expressão mais retórica do que prática. Celebrar agora é como comemorar a largada de uma maratona que ainda nem começou — e que, diga-se, pode ser interrompida por liminares, vetos parlamentares ou caprichos protecionistas ao longo do caminho. O acordo existe no papel, mas entre a promessa e a prateleira do supermercado europeu ainda há um oceano de incertezas. E, convenhamos, com a judicialização batendo à porta logo de saída, a travessia promete ser bem mais turbulenta do que se imaginou no brinde inaugural.
- A casa humilde da cunhada: quando a inocência mora onde deveria estar a holding
No capítulo mais recente da novela do Banco Master — que a cada semana ganha novos personagens, tramas paralelas e reviravoltas dignas de roteiro televisivo —, surge em cena a cunhada do ministro Dias Toffoli. Ela foi procurada por repórteres do Estadão após descobrirem que seu endereço constava como sede de uma empresa ligada aos irmãos do magistrado, envolvida na polêmica venda de participação em um resort de luxo no Paraná para uma instituição financeira vinculada ao liquidado Master. A resposta da senhora foi tocante em sua simplicidade: ela disse não saber de nada, mora em uma casa humilde e não tem dinheiro nem para reformá-la.
A cena é de um simbolismo involuntário irresistível. A sede de uma empresa que negocia milhões em participações de resorts está registrada em um endereço onde a proprietária mal consegue consertar o telhado. É quase uma metáfora perfeita para o estado das coisas: enquanto negócios bilionários circulam nos bastidores do poder, os endereços oficiais apontam para casas modestas, pessoas que “não sabem de nada” e patrimônios que, curiosamente, nunca aparecem em lugar nenhum.
O mistério não está apenas no resort de luxo ou na venda oportuna para o Master. Está na geografia da riqueza, que parece se movimentar em dimensões paralelas, longe dos registros convencionais. A cunhada pode até não saber de nada — e, convenhamos, é bem provável que não saiba mesmo. Mas a história que ela protagoniza involuntariamente diz muito sobre como o patrimônio de alguns circula de forma quase etérea, sem deixar rastros visíveis, enquanto os endereços oficiais apontam para casas onde falta tinta na parede. No Brasil, a inocência e a holding dividem o mesmo CEP. E ninguém parece achar isso minimamente estranho.
- Duty free à brasileira: Foz do Iguaçu vira alternativa civilizada ao caos de Ciudad del Este
Quem já enfrentou o turbilhão de Ciudad del Este — aquele formigueiro humano onde se compra de tudo, mas também se arrisca perder de tudo — sabe que a experiência pode ser mais desgastante do que vantajosa. Agora, os turistas que visitam a Tríplice Fronteira têm uma alternativa bem mais palatável: as lojas francas de Foz do Iguaçu, que crescem em número, sofisticação e faturamento, competindo de igual para igual com o tradicional circuito paraguaio.
São oito lojas duty free operando na cidade paranaense, e a mais recente é a maior do Brasil fora de aeroportos. A unidade marca a estreia da rede panamenha Attenza no país e também sua primeira operação longe dos terminais aéreos — a empresa atua em 18 países e soma 87 lojas no segmento de duty free e travel retail. O sistema permite que consumidores adquiram produtos importados e nacionais com isenção de impostos sem sair do Brasil, dentro de uma cota mensal de até US$ 1 mil (sendo US$ 500 para uso no país e outros US$ 500 para compras no exterior). O controle é feito pelo sistema “Integra Loja Franca”, que monitora as transações em tempo real.
No portfólio, marcas como Chanel, Dior, Gucci, Dolce & Gabbana, Versace, Bvlgari, Cartier — a lista é longa e luxuosa. Os números comprovam o aquecimento: no primeiro semestre de 2025, as lojas francas de Foz venderam US$ 10,87 milhões, crescimento de 22% em relação ao mesmo período de 2024. No cenário nacional, as lojas francas em cidades de fronteira movimentaram US$ 53,08 milhões, alta de 45,45%. O regime está habilitado em 14 municípios de quatro estados do Sul e Centro-Oeste.
Além de atrair consumidores que preferem civilidade a aventura, o setor gera empregos e estimula o comércio da capital paranaense do turismo. É benefício em dose tripla.
- Quando o mar avança: Santa Catarina perde suas praias para as ressacas das mudanças climáticas
Com 530 quilômetros de litoral, Santa Catarina possui algumas das praias mais cobiçadas do país — um ativo turístico e econômico que movimenta bilhões e define a vocação de dezenas de cidades. Mas esse patrimônio natural está sendo literalmente levado pelas ondas. Nos últimos cinco meses, sete municípios decretaram situação de emergência depois que suas praias foram devoradas pela erosão marinha causada por fortes ressacas: Balneário Barra do Sul, Florianópolis, Itapema, Itapoá, Barra Velha, São Francisco do Sul e Garopaba.
Os decretos permitem obras emergenciais — muros de pedra, reposição de areia, alargamento artificial das faixas de areia. Santa Catarina é o estado que mais investe no país nesse tipo de intervenção, tentando frear o avanço do mar com engenharia e dinheiro público. As prefeituras falam em “estratégia estruturada de gestão costeira” e promessas de praias “mais atrativas”. Mas especialistas são categóricos: trata-se de medida paliativa, e das mais frágeis.
“Não se lida com um problema desse porte com decretos emergenciais, mas com planejamento”, alerta o pesquisador Paulo Roberto Pagliosa Alves, professor de oceanografia e ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina. Segundo ele, o nível do mar está subindo e as taxas de elevação aceleram a cada dia. A Organização Mundial de Meteorologia registrou alta de 4,7 milímetros ao ano entre 2014 e 2023. Em 2024, o aumento foi de 5,9 milímetros. As causas são conhecidas: expansão térmica da água (quanto mais quente, mais espaço as moléculas ocupam) e derretimento do gelo continental. Os cientistas alertam a sociedade e os gestores públicos sobre esses eventos desde meados do século passado — mas a resposta, até agora, tem sido mais reativa do que preventiva.
O impacto atinge população, infraestrutura e ecossistemas costeiros por meio de inundações permanentes das áreas mais baixas e aumento da frequência de alagamentos nas áreas elevadas, provocados pelas ressacas — um fenômeno meteorológico natural, mas que se intensifica com a subida das marés. A combinação gera erosão, destruição de calçadões, comprometimento de imóveis e até salinização dos aquíferos. O fenômeno é global, mas em Santa Catarina ele é acentuado pelos ciclones extratropicais que se formam no Atlântico e atingem o Sul do país com violência crescente.
Enquanto isso, as praias encolhem, os decretos se sucedem e a areia jogada de volta ao mar volta a desaparecer na próxima ressaca. É o Brasil tentando segurar o oceano com pás, pedras e boa vontade política — enquanto o clima muda, o mar avança e o planejamento de longo prazo continua sendo tratado como luxo dispensável.
- A caminhada patriótica: Nikolas Ferreira vai a pé de Minas a Brasília em protesto contra o STF**
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) iniciou nesta segunda-feira (19) uma caminhada de Paracatu, no interior de Minas Gerais, até Brasília — um percurso de mais de 200 quilômetros pela BR-040, com chegada prevista para domingo (25). A iniciativa, que mistura simbolismo religioso, ativismo político e martírio voluntário, pretende chamar atenção para o que o parlamentar chama de “abusos do Supremo Tribunal Federal” contra os réus das manifestações de 8 de janeiro e para a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pela Primeira Turma do STF a 27 anos e três meses de reclusão e atualmente detido no complexo da Papudinha.
Em carta aberta divulgada antes da caminhada, Nikolas deixa claro que não se trata de “vaidade” ou “espetáculo”, mas de “um ato de consciência, de amor ao Brasil e de compromisso com a liberdade”. O deputado concentra sua crítica na “desumanização dos brasileiros presos após o dia 8, submetidos a processos ilegais, parciais e arbitrários”, e na “perseguição sistemática a opositores políticos”. Para ele, são sintomas de algo mais profundo: “o cansaço moral de uma nação que vê o mal triunfar sem consequências, escândalos sucederem escândalos, o crime organizado avançar sobre o território e as instituições, enquanto o cidadão honesto é esmagado”.
A caminhada se insere numa estratégia mais ampla da direita de amplificar o tema do 8 de janeiro — transformado pelo governo e pelo Supremo na narrativa de uma “tentativa de golpe de Estado”, mas que sempre foi uma operação de criminalização política em massa, com prisões preventivas prolongadas, sentenças pesadas e violações de garantias processuais. Nikolas afirma que o brasileiro está paralisado “não apenas pelo medo, mas por um estado de paralisia psicológica construído de forma deliberada e intencional”.
A meta declarada é chegar a Brasília no dia 25 de janeiro “para mostrar, com presença física e pacífica, que ainda há brasileiros atentos, solidários e comprometidos com a justiça, com a dignidade humana e com a liberdade”. E, de quebra, pressionar pela derrubada do veto à dosimetria das penas no Congresso — pauta que vem sendo debatida como forma de reduzir o rigor das condenações aplicadas aos envolvidos nos protestos. A caminhada pode não mudar o curso dos processos, mas certamente reforça a narrativa de que o Supremo perdeu a medida — e que a direita, longe de se recolher, está disposta a caminhar quilômetros para que isso fique registrado.
- O amor que venceu o medo: Eduardo Leite leva vaia da militância petista e descobre o preço da “frente ampla”
“Pessoal, este é ‘o amor que venceu o medo’? Não, né? Então vamos respeitar… Por favor. Eu estou aqui cumprindo meu dever institucional, em respeito ao cargo que exerço em nome do povo do Rio Grande do Sul, com respeito ao Presidente da República.” A frase, dita com evidente constrangimento pelo governador gaúcho Eduardo Leite (PSDB) durante evento ao lado do presidente Lula, resume bem o episódio: vaiado pela militância petista em um ato público, Leite precisou pedir para ser tratado com um mínimo de civilidade enquanto cumpria protocolo institucional.
A cena, desconfortável para quem a protagonizou, deveria servir de alerta para políticos que ainda acreditam em “frente ampla”, “pacto pela democracia” ou qualquer outra construção retórica que o PT costuma invocar em vésperas eleitorais. A verdade, nua e crua, é que os pedidos de apoio em nome da “paz” e da “união nacional” são ferramentas para vencer eleições — nada mais. Depois que os votos são contados e o palanque é desmontado, o que resta é pau, cacete e desrespeito sistemático aos aliados de ocasião.
A militância petista não esconde: não há espaço para parceiros, apenas para submissos. Quem se deixa seduzir pelo canto da sereia de Lula e do PT acaba descobrindo, cedo ou tarde, que a frente ampla só é ampla na largada. Na chegada, o espaço se estreita, e quem não se curva vira alvo de hostilidade e humilhação pública. Eduardo Leite cumpria o papel de governador, prestava reverência institucional ao presidente da República — e foi pago com vaias e gritos.
É o retrato fiel de um projeto de poder que nunca foi plural, nunca foi tolerante e nunca teve compromisso com a convivência republicana. O amor que venceu o medo, ao que tudo indica, tem prazo de validade: dura até o dia da eleição. Depois disso, é cada um no seu quadrado — ou melhor, é cada um no seu pelourinho, se ousar discordar ou simplesmente não se submeter inteiramente ao figurino esperado. Eduardo Leite aprendeu na prática. Outros ainda terão a mesma lição.
- Kast convoca um verdadeiro “dream team” para governar o Chile
Enquanto o Brasil se debate entre narrativas sobre “justiça social”, expansão do Estado e aumento de gastos públicos travestido de “investimento estratégico”, o Chile acaba de montar um ministério que faria qualquer liberal dar um suspiro de inveja. O presidente eleito José Antonio Kast nomeou um time de economistas e gestores de alto calibre, com uma agenda explícita de desregulamentação, redução de gastos e atração de investimentos privados. No comando da economia, foi escolhido Jorge Quiroz, fervoroso defensor da disciplina fiscal e da remoção de obstáculos à iniciativa privada.
Quiroz não é um nome qualquer. Ele avalia que o modelo econômico chileno está esgotado, condena um PIB que não cresce mais que 2% ao ano e promete triplicar essa taxa por meio de um “choque de produtividade” baseado em políticas de incentivo ao investimento privado e corte da burocracia que emperra a atividade empresarial. Não é discurso genérico — é diagnóstico técnico acompanhado de propostas concretas.
O restante do ministério segue a mesma toada: nomes de peso da elite acadêmica e empresarial chilena, reconhecidos em suas áreas de atuação, com credenciais sólidas e reputação construída fora do jogo político tradicional. É um gabinete montado para produzir resultados, não para administrar coalizões ou distribuir cargos em nome da governabilidade. Enquanto isso, no Brasil, a discussão ministerial costuma girar em torno de quantas pastas cada partido terá direito, quem indicará qual presidente de estatal e como acomodar interesses regionais e corporativos no Orçamento.
A comparação é inevitável e desconfortável. O Chile, com todos os seus problemas e desafios, decidiu apostar em competência técnica e compromisso explícito com o crescimento econômico via setor privado. O Brasil, por sua vez, segue administrando crises, inflando a máquina pública e tratando a produtividade como um conceito abstrato, distante da realidade do dia a dia.
Não é questão de copiar modelos, mas de reconhecer que, lá fora, outros países estão fazendo escolhas — e colhendo resultados. Aqui, continuamos debatendo se o problema é falta de vontade política ou excesso de entraves burocráticos. Enquanto isso, o “dream team” chileno já começou a trabalhar. E o Brasil, bem, o Brasil segue no seu ritmo.
- Delação de Vorcaro: o temor infundado de Brasília (todas as instituições trabalham para salvá-lo)
Se há algo que faz Brasília tremer nas bases é a possibilidade de uma colaboração premiada do banqueiro Daniel Vorcaro. A saída do advogado Walfrido Warde — conhecido por assessorar Vorcaro há muitos anos em assuntos regulatórios do Banco Master, mas que não atua como criminalista e é reconhecidamente contra delações premiadas — foi interpretada nos bastidores como um sinal inequívoco: a delação poderia estar a caminho. O simples rumor foi suficiente para mobilizar forças políticas, jurídicas e midiáticas em uma operação preventiva de contenção de danos.
Mas, convenhamos, o temor é infundado. Não porque Daniel Vorcaro não tenha o que contar — pelo contrário, ele tem informações suficientes para engolir boa parte do Supremo Tribunal Federal, fatias generosas do Congresso Nacional e setores inteiros do governo federal. O problema é justamente esse: ele sabe demais, e quem sabe demais raramente precisa delatar. Todas as instituições que deveriam zelar pela lei e pela transparência estão, na prática, trabalhando arduamente para impedir que essa delação aconteça.
Do jeito que o Supremo, o Congresso e o governo brasileiro estão operando para salvar o banqueiro — já que não deu para salvar o banco —, a delação premiada de Vorcaro é o tipo de ameaça que não se concretiza. Não por falta de vontade dele, mas porque o sistema inteiro está montado para que ela não seja necessária. Os processos avançam com a lentidão de sempre, os bloqueios de patrimônio são determinados mas raramente executados na prática, e as investigações seguem um roteiro previsível de idas e vindas que raramente chegam a lugar algum.
Vorcaro conhece profundamente as relações promíscuas que manteve com ministros, senadores, deputados e autoridades do primeiro escalão. Mas essa intimidade com o poder não é ameaça — é seguro de vida. Enquanto todos os envolvidos souberem que ele sabe, e ele souber que todos sabem que ele sabe, o equilíbrio de terror se mantém. A delação premiada, nesse contexto, seria quase um suicídio político-financeiro — não para ele, mas para o sistema inteiro. E sistemas não se suicidam. Eles se protegem. Brasília pode tremer, mas não vai desabar. A estrutura foi feita para isso.
- TCU descobre a pólvora: houve irregularidades na COP 30 (quem diria!)
O Tribunal de Contas da União acaba de divulgar uma descoberta que surpreenderia qualquer um — se este país ainda fosse capaz de se surpreender com algo. Segundo acórdão da Corte de Contas, foram identificadas irregularidades nas licitações que definiram as empresas responsáveis pela organização da COP 30, sediada em Belém em novembro do ano passado. As falhas nos critérios de seleção permitiram a comercialização de produtos por preços até “1.000% superiores” àqueles praticados no mercado. Mil por cento. Não é erro de digitação.
A revelação seria chocante se não fosse pelo fato de que, na época do evento, diversos setores da imprensa já haviam escancarado uma enxurrada de denúncias: dinheirama investida sem a devida prestação de contas, contratações sem licitação, ONG’s contratadas com critérios nebulosos, superfaturamento em praticamente todas as frentes. A COP 30 foi uma festa — literalmente —, mas a conta ficou para o contribuinte, e os responsáveis pela organização fizeram questão de cobrar valores estratosféricos por serviços e produtos que, em condições normais de mercado, custariam uma fração do que foi pago.
Agora o TCU chega, meses depois, e confirma o óbvio: houve irregularidades. E aí vem a parte mais previsível da história: apesar da constatação de falhas graves, não houve punições aos envolvidos nem medidas cautelares. A justificativa técnica é que os contratos já estão em fase final de execução e a entidade que realizou o certame, a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), é um organismo internacional e, portanto, está fora da jurisdição do TCU. Ou seja, identificou-se o problema, apontou-se o responsável, mas nada acontece.
A expectativa, claro, é que esse relatório seja engavetado, arquivado e esquecido até a próxima auditoria de rotina. Vai acabar varrido para debaixo do tapete, junto com tantas outras irregularidades que, de tão frequentes, já nem causam espanto. O TCU cumpriu seu papel protocolar de apontar o dedo — mas sem força para punir, sem jurisdição para responsabilizar e sem vontade política para que o caso tenha desdobramentos reais.
A COP 30 foi irregular? Foi. Alguém vai pagar por isso? Não. É o Brasil em sua versão mais pura: o controle existe, a irregularidade é confirmada, e tudo continua exatamente como estava.
- EUA miram Cuba: mas a ilha já está caindo sozinha (sem petróleo, sem regime)
Depois de anunciar a operação para extrair Nicolás Maduro da Venezuela, ameaçar o Irã pelos massacres de manifestantes e protagonizar um quase incidente diplomático com declarações sobre a Groenlândia, a Casa Branca já tem um novo alvo na mira: Cuba. Segundo reportagem do Wall Street Journal, já se discute internamente uma estratégia explícita para provocar a queda do regime cubano ainda em 2026. A avaliação do gabinete de Trump é de que a combinação entre crise econômica prolongada, desgaste político e insatisfação social criou um ambiente mais vulnerável do que em ciclos anteriores — ideal para uma ação estruturada, não improvisada, que acelere o colapso de um regime que há décadas resiste a sanções, isolamento diplomático e tentativas indiretas de pressão externa.
A estratégia em discussão combina sanções econômicas ainda mais duras, apoio a grupos opositores e articulação diplomática com aliados regionais. O discurso oficial evita detalhes, mas fontes ouvidas pelo jornal afirmam que há uma leitura de enfraquecimento interno do regime cubano, agravado pela escassez de alimentos, falta de energia elétrica e desgaste irreversível do modelo político.
Mas a verdade, convenhamos, é que os Estados Unidos não vão precisar mover nem uma lancha de pesca para derrubar o regime cubano. A ilha, historicamente dependente de favores externos e petróleo subsidiado, já está entrando em colapso por conta própria. Desde que Washington interveio na Venezuela e bloqueou o envio de petróleo para Havana — essencial para ser transformado em combustível e manter as usinas termoelétricas funcionando —, Cuba perdeu a principal fonte de sobrevivência do seu sistema elétrico e da sua economia cambaleante.
A China e a Rússia ainda oferecem algum apoio pontual, mas nada comparável ao fluxo contínuo e generoso que a Venezuela garantia. Sem energia, sem combustível e sem os bilhões em auxílio petrolífero que sustentavam artificialmente o regime de Havana, Cuba está morrendo de inanição econômica. O regime cairá sozinho — não por mérito de uma operação militar americana, mas pela simples aritmética da dependência.
Mesmo assim, a proposta de Trump encontra apoio político nos Estados Unidos, sobretudo entre o eleitorado cubano-americano na Flórida, sempre favorável a qualquer medida que acelere o fim do regime castrista. Mas a verdade é que Washington pode economizar esforços: basta esperar. Sem petróleo, sem energia e sem dinheiro, Cuba é uma ilha à deriva. E ilhas à deriva não precisam de invasões — elas afundam por conta própria.
- O festival de absurdos no Supremo: até quando a sociedade brasileira vai tolerar isso?
Se o Supremo Tribunal Federal ainda mantém alguma ilusão de que passa incólume pelos escândalos envolvendo o Banco Master, a jornalista Lygia Maria tratou de desmanchá-la em artigo contundente publicado na Folha de São Paulo. Com a precisão de quem acompanha diuturnamente os bastidores do poder, ela expôs o que chama de “festival de absurdos” que assola a corte constitucional — e fez a pergunta que deveria tirar o sono de todos os ministros: como a sociedade deve encarar tamanha acumulação de coincidências?
Os fatos envolvendo os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, já amplamente noticiados mas agora reunidos em uma narrativa demolidora, são escabrosos por qualquer régua que se use.
Lygia Maria encerra o artigo com uma indagação tão simples quanto devastadora: como os outros ministros do Supremo acham que a sociedade deve encarar esse festival? Todas essas conexões são mera coincidência? Os fins justificam os abusos de poder? Se a resposta for sim, a corte constitucional não quer cidadãos, mas cordeiros. Acha que está acima da lei e até da própria República. E, como ela conclui com precisão cirúrgica, “não à toa, assim funciona o Judiciário em regimes autoritários”.
A crítica não poderia ser mais contundente. Ela reflete a indignação de uma sociedade que assiste, atônita, à maior corte do país se transformar em um emaranhado de interesses privados, relações promíscuas e blindagens recíprocas.
Até quando a sociedade brasileira será tratada como rebanho? Até quando os ministros acharão que podem operar acima de qualquer prestação de contas? As perguntas de Lygia Maria ecoam, mas as respostas continuam suspensas — literalmente — por decisões monocráticas que trancam inquéritos, impedem perícias e garantem que o festival de absurdos continue em cartaz, temporada após temporada.
- Prognóstico de segundo turno em 2026 é desanimador para Lula
A pesquisa Futura/Apex divulgada nesta quinta-feira não traz boas notícias para o presidente Lula. Pelo contrário: ela confirma o que analistas políticos e consultorias vêm sinalizando há meses — a candidatura à reeleição em 2026 está em trajetória de enfraquecimento, e as chances de recuperação até a data da eleição diminuem a cada semana. A pesquisa, que ouviu 2.000 eleitores em todo o Brasil, aponta um horizonte desfavorável e matematicamente claro: Lula perde para quatro dos principais candidatos de direita em cenários de segundo turno, todos fora da margem de erro.
Ratinho Júnior, governador do Paraná, Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas — que reafirmou sua intenção de disputar a reeleição em São Paulo, mas segue como carta forte da direita no tabuleiro nacional — e Ronaldo Caiado, governador de Goiás, superam o petista em simulações de segundo turno. Não são vitórias apertadas, dentro da margem de erro, que poderiam ser revertidas com campanha ou conjuntura favorável. São vitórias sólidas, que indicam uma direita extremamente competitiva e um eleitorado desencantado com a gestão petista.
A única exceção ao massacre eleitoral é Romeu Zema, governador de Minas Gerais, que por enquanto perde para Lula no segundo turno. Mas Zema, convenhamos, nunca foi o nome de consenso da direita — sua força está concentrada em Minas, e nacionalmente ele carece da projeção e do carisma que outros nomes já consolidaram.
O dado mais preocupante para o PT, contudo, vem de outra frente. O consultor político Luciano Dias, em apresentação realizada no Banco Itaú, foi direto ao ponto: a candidatura de Lula está enfraquecida principalmente por uma menor força no Nordeste, historicamente o reduto eleitoral mais fiel do petismo. O Nordeste sempre foi o escudo do PT nas eleições — a região que garantia margem confortável mesmo quando o partido perdia no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste. Se esse escudo está rachando, a situação é gravíssima.
E a pesquisa Futura/Apex confirma exatamente o percepção de Luciano Dias. São duas fontes distintas — uma pesquisa quantitativa nacional e um consultor político de peso com acesso a dados internos — chegando à mesma conclusão: Lula está em apuros, e o tempo para reverter o quadro está se esgotando. O PT pode tentar minimizar os números, questionar a metodologia ou apelar para a polarização de última hora.
Mas os dados estão aí, cristalinos: a direita está competitiva, Lula está vulnerável, e até o Nordeste começa a olhar para outros lados. Para um partido que sempre confiou na lealdade histórica daquela região, isso não é apenas uma má notícia. É um terremoto.











