OPINIÃO

Garrafas encalhadas e cardápios repensados: a grande virada no apetite global

Começou discretamente, quase despercebido entre as prateleiras dos supermercados e as taças levantadas nos brindes de fim de ano.

Primeiro foram os vinhos, cujas vendas começaram a esfriar mesmo antes que alguém pudesse atribuir o fenômeno a uma causa específica.

Depois vieram os destilados premium, as cervejas artesanais, os licores sofisticados.

Um a um, os baluartes da indústria de bebidas alcoólicas assistem perplexos ao desmoronamento de décadas de crescimento consistente, enquanto seus armazéns se abarrotam de garrafas que ninguém mais parece querer comprar.

Não se trata de uma crise econômica tradicional, daquelas que costumam abalar mercados quando as carteiras minguam e os consumidores recuam.

Trata-se de algo mais profundo, mais inquietante para quem construiu impérios sobre a promessa de prazer líquido em taças de cristal: uma mudança de paradigma nos próprios desejos humanos.

O mundo está, literalmente, perdendo o apetite pelo álcool, e as razões para esse fenômeno entrelaçam ciência revolucionária e transformação cultural numa combinação que ninguém na indústria viu chegando.

A Diageo, gigante britânica que abriga sob seu guarda-chuva corporativo marcas icônicas como Johnnie Walker, Smirnoff, Tanqueray e Don Julio, testemunha seus estoques de bebidas premium saltarem de 34% das vendas anuais no final de 2022 para alarmantes 43% ao final de 2025. Na francesa Rémy Cointreau, as reservas acumuladas nos tonéis de envelhecimento somam 1,8 bilhão de euros, montante que equivale ao dobro de suas vendas anuais. Trevor Stirling, analista da Bernstein consultado pelo Financial Times, não hesita em sua avaliação: o acúmulo não tem precedentes na história recente do setor.

As multinacionais do álcool enfrentam um inimigo que não sabem como combater porque ele se manifesta em duas frentes simultâneas.

De um lado, a revolução farmacológica das canetas emagrecedoras, que estão literalmente reescrevendo a relação dos seres humanos com a comida e a bebida. Esses medicamentos, desenvolvidos inicialmente para tratar diabetes e depois revelados como armas formidáveis contra a obesidade, produzem um efeito colateral que a indústria de bebidas alcoólicas jamais antecipou: a redução drástica do desejo por álcool.

O mecanismo é, ao mesmo tempo, fisiológico e pragmático. As canetas emagrecedoras atuam sobre os centros de saciedade no cérebro, diminuindo não apenas a fome por alimentos sólidos mas também o apetite por bebidas calóricas. E o álcool, convém lembrar, carrega uma densidade calórica notável, capaz de sabotar rapidamente qualquer regime de emagrecimento.

Para quem investe mensalmente em medicamentos custosos visando controlar o peso, tomar um copo de vinho ou uma dose de destilado se torna uma contradição inaceitável, um passo atrás na jornada rumo ao corpo desejado.

Milhões de pessoas ao redor do planeta, encontrando finalmente uma solução considerada saudável e eficaz para a obesidade, estão simultaneamente abandonando hábitos que antes pareciam indissociáveis da vida social.

Os bares começam a notar mesas onde antes circulavam garrafas e hoje predomina a água com gás. Os restaurantes percebem clientes que dispensam a carta de vinhos sem sequer folheá-la.

As festas corporativas registram consumo menor, as celebrações familiares se tornam mais sóbrias não por puritanismo, mas por escolha medicamentosa.

Mas seria enganoso atribuir toda a transformação aos milagres da farmacologia moderna. O fim da pandemia trouxe, paradoxalmente, um pequeno boom no consumo de bebidas alcoólicas, aquela compensação efêmera pelos meses de confinamento quando as pessoas buscaram nas garrafas algum consolo para o tédio e a angústia do isolamento.

Parte do desequilíbrio atual entre oferta e demanda no mercado de bebidas representa apenas a ressaca desse excesso pandêmico. O aumento no custo de vida também pesou, reduzindo a margem no orçamento familiar para a compra de bebidas sofisticadas.

Porém, existe uma tendência mais antiga e persistente operando em silêncio muito antes que as canetas emagrecedoras se tornassem fenômeno global.

Ano após ano, os números internacionais vêm documentando uma redução gradual no consumo de bebidas alcoólicas nos países desenvolvidos, particularmente entre os mais jovens, acompanhada por mudanças de hábitos em favor de práticas consideradas mais saudáveis.

Uma pesquisa da Gallup publicada no ano passado revelou que o percentual de americanos adultos que consomem álcool caiu para 54%, o menor índice desde 1939, quando o levantamento anual começou a ser realizado. Entre pessoas de 18 a 34 anos, o percentual se mostra ainda mais baixo: 50%.

Pela primeira vez, a maioria dos americanos adultos afirma que beber moderadamente faz mal à saúde, praticamente o dobro do verificado uma década atrás. Apenas 6% ainda defendem que o consumo moderado de álcool traz benefícios. A percepção cultural está se invertendo, e com ela desmorona toda uma arquitetura simbólica que durante séculos associou o beber a sofisticação, celebração, camaradagem e prazer.

Estudos da OCDE confirmam que o alcoolismo permanece um problema sério de saúde pública em muitos dos países associados, mas o consumo vem declinando consistentemente ao longo da última década.

Emerge uma geração que simplesmente não valoriza o álcool da mesma forma que seus pais e avós, que o vê como desnecessário ou mesmo incompatível com o estilo de vida que deseja construir, centrado em bem-estar, performance física, clareza mental e longevidade.

As multinacionais do setor tentam adaptar-se a esse novo mundo enfrentando simultaneamente os impactos imediatos e as tendências de longo prazo. A guerra tarifária iniciada por Donald Trump e a popularização das drogas que reduzem não só o apetite mas também a vontade de beber golpeiam o mercado com força inesperada.

Diante disso, as gigantes investem em diversificação de marcas, promoção de vendas em mercados emergentes e criação de novas modalidades de produtos: drinks com Campari, single malts exclusivos, tequilas premium endossadas por celebridades de Hollywood.

Mas a China, antes vista como a grande fronteira de expansão para destilados de luxo, frustra as expectativas. O país recentemente ordenou um severo corte nos gastos oficiais com bebidas de luxo e impôs uma tarifa de 34,9% sobre conhaques europeus. A Diageo já revisou para baixo suas estimativas de vendas, citando entre os fatores as políticas anti-extravagância dos chineses.

Contudo, a gigante britânica também sente o declínio na demanda americana e em diversos mercados emergentes. O papel de suas ações está cotado no patamar mais baixo dos últimos onze anos.

A história se repete com variações melancólicas na italiana Campari, nas francesas Pernod Ricard e Rémy Cointreau, na australiana Treasury Wine Estates. Todas exibem ações em trajetória descendente, reflexo de um mundo que paulatinamente se desinteressa pelos produtos que elas fabricam.

Os estoques encalhados representam não apenas capital imobilizado mas também a obsolescência de um modelo de negócios edificado sobre premissas que a realidade contemporânea está contestando.

Enquanto as bebidas alcoólicas acumulam pó nos depósitos, os restaurantes começam a repensar seus cardápios e estratégias comerciais para atender uma clientela em transformação.

Estabelecimentos que antes lucravam com margens generosas nas vendas de vinhos e destilados agora precisam reimaginar sua proposta de valor. Surgem porções menores, pratos com menos calorias, menus balanceados nutricionalmente, opções explicitamente pensadas para quem utiliza canetas emagrecedoras e não quer sabotar seu tratamento com uma refeição excessiva.

Os rodízios, templos brasileiros da fartura gastronômica, ensaiam novas abordagens: menos quantidade, mais qualidade, cortes magros, acompanhamentos vegetais, sobremesas discretas.

A mudança não decorre apenas de consciência nutricional dos proprietários, mas de pura necessidade comercial. Clientes que antes enchiam os pratos até a borda agora consomem frações modestas, permanecem menos tempo nas mesas, pedem menos bebidas. O modelo de negócio que dependia do volume está sendo forçado a reinventar-se focando na experiência e na qualidade.

Observando esse panorama em transformação, torna-se impossível não reconhecer que estamos atravessando um daqueles momentos raros em que ciência e cultura convergem para alterar comportamentos humanos fundamentais numa escala planetária.

As canetas emagrecedoras não apenas encolhem cinturas, mas reconfiguram mercados inteiros, derrubam ações de empresas centenárias, obrigam chefs a reformular receitas e forçam executivos de multinacionais a confrontar a possibilidade de que o apetite humano pelo álcool não seja, afinal, uma constante imutável da civilização.

A juventude que escolhe a sobriedade como estilo de vida e os milhões que adotam medicamentos para controlar o peso formam, juntos, uma onda poderosa que não pode ser contida com campanhas publicitárias ou lançamentos de produtos sofisticados.

Trata-se de uma revolução silenciosa, desprovida de manifestos ou líderes carismáticos, mas nem por isso menos transformadora. Ela acontece mesa a mesa, taça a taça, cardápio a cardápio, redefinindo os prazeres e prioridades de uma época que talvez, daqui a algumas décadas, olhe para trás e se pergunte como foi possível que durante tanto tempo o álcool ocupou papel tão central nas celebrações, encontros e rituais da vida humana.

Os estoques encalhados nos armazéns da Diageo e da Rémy Cointreau não são apenas números em balanços financeiros. São testemunhos materiais de uma era que chega ao fim, garrafas que aguardam compradores que podem nunca mais aparecer, líquidos preciosos destinados a paladares que já não os desejam.

No vácuo deixado pelo recuo do álcool, emerge um mundo diferente, mais sóbrio literal e figurativamente, onde o apetite humano está sendo redesenhado não pela imposição moral ou religiosa, mas pela escolha informada, pela ciência acessível e pela transformação cultural orgânica.

Uma revolução silenciosa, mas absolutamente incontornável.

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