Escândalo do Master é chance para salvar o Brasil

Nestes últimos anos, apontar os excessos do Supremo Tribunal Federal foi tratado como um vício de origem. Algo restrito, quase exclusivo, a um espectro político específico, convenientemente rotulado, caricaturado e desqualificado. A expansão dos superpoderes da Corte passou a ser relativizada como um “mal necessário”, um pedágio institucional em nome da defesa da democracia. Desde 2019, esse discurso funcionou como uma blindagem moral quase intransponível.
O caso Banco Master rompe esse dique.
Pela primeira vez em muito tempo, o incômodo deixa de ser subterrâneo e passa a ser público, transversal e ruidoso. A crítica já não nasce apenas à direita, nem se limita a bolhas ideológicas. Ela emerge do mercado financeiro, de setores da esquerda, de entidades empresariais, da Polícia Federal e, sobretudo, de uma imprensa que começa, ainda que tardiamente, a ensaiar um necessário mea culpa.
Quando colunistas que sempre atuaram como linha auxiliar do Supremo afirmam que determinados contratos jamais poderiam ter existido, algo mudou. Quando editoriais falam abertamente em pacto de autoproteção entre poderosos e em uma redoma indevassável de impunidade, o verniz institucional começa a rachar. Quando entidades do sistema financeiro, historicamente cautelosas e até amistosas com o Judiciário, publicam notas criticando ingerências e arbitrariedades, o sinal é ainda mais claro: o arbítrio passou do ponto. Aliás, nunca deveria ser tolerado nem no menor nível.
O desconforto vira perplexidade institucional quando a Polícia Federal precisa vir a público para lembrar o óbvio: cadeia de custódia não é detalhe técnico, é fundamento do Estado de Direito. Protocolo não é capricho corporativo, é garantia de legalidade. Ignorá-los, impor ritos exóticos, retirar e devolver investigações conforme a temperatura da reação pública não é exercício de poder. É desordem travestida de autoridade.
Há ainda um dado incômodo, raramente dito com clareza, mas impossível de ignorar.
O esforço para abafar, desviar ou diluir o caso Banco Master não se explica apenas por vaidades institucionais ou corporativismo togado. Ele se explica porque o banqueiro virou um arquivo vivo. Um depositário de vínculos, favores, contratos e dependências que atravessam o Judiciário, setores do Congresso e o próprio Executivo.
Meia República, meia Brasília, está na prateleira de créditos e débitos do Master. Proteger o banco tornou-se, por extensão, proteger quem deve, quem recebeu, quem se beneficiou. É isso que ajuda a entender por que se aceita pagar um preço tão alto em reputação institucional: quando o risco deixa de ser jurídico e passa a ser existencial, a autoproteção vira política de Estado.
Nesse ambiente já saturado, o Supremo reage como quem tenta conter um incêndio com baldes simbólicos. O presidente da Corte antecipa o retorno das férias, numa tentativa quase desesperada de estancar o desgaste e levar adiante o seu propósito de implantar um código de conduta para corrigir os desvios do tribunal, que começaria pela proibição da participação dos ministros em convescotes com a iniciativa privada, ambientes onde se estabelecem as relações promíscuas entre magistrados e empresários.
Mas parece ser uma missão inglória. Não há quórum na corte para avanços éticos.
O quadro se agrava quando um dos ministros mais enrolados na defesa do Master manda investigar vazamentos contra si, acumulando, mais uma vez, os papéis de vítima, investigador, acusador e juiz. A engrenagem fecha sobre si mesma. O sistema passa a se observar no espelho e a punir quem aponta o reflexo.
O Brasil assiste, portanto, a um embate que vai muito além de um banco específico ou de um contrato específico. É um confronto direto entre a sociedade e um modelo de poder que perdeu os freios. Entre instituições que redescobrem, com atraso, seu dever crítico e uma Corte que parece acreditar estar acima de qualquer contenção moral.
O desfecho desse confronto dirá muito mais do que o destino de um banco ou de alguns ministros. Ele definirá o rumo do país. Se prevalecer a reação da sociedade, das instituições que despertaram e da opinião pública indignada, haverá ainda espaço para limites, correções e freios.
Se um relator diretamente envolvido por laços familiares permanece no comando de um caso dessa magnitude; se erros evidentes não são reconhecidos; se propostas mínimas de autocontenção ética — como códigos de conduta, limites a envolvimentos suspeitos com interesses privados e impedimentos claros — forem novamente empurradas para debaixo do tapete, o recado será inequívoco.
Se vencer a lógica da autoproteção, da intimidação e do poder sem pudor, o que se consolida não é apenas um abuso episódico, mas a consagração de um modus operandi: uma Corte cada vez mais empoderada, sem contenção, sem constrangimento moral e sem retorno possível.
A democracia não morre apenas com tanques nas ruas. Às vezes, ela se dissolve em silêncio, em decisões sigilosas, em jatos privados, em contratos indevidos e em tribunais que se tornam juízes de si mesmos. Quando a exceção deixa de ser instrumento e passa a ser método, o nome disso não é proteção institucional.
É ditadura togada.











