Bloco de Notas

1 — Quando o dinheiro público sobra (e volta)
A Assembleia Legislativa do Paraná encerra 2025 com um feito raríssimo no Brasil: sobrar dinheiro — e devolvê-lo.
Foram R$ 620 milhões retornando aos cofres do Governo do Estado, de um orçamento anual de R$ 1,308 bilhão. Quase metade da verba total do Legislativo. Em Brasília, isso ainda soa como lenda urbana.
O resultado, recorde histórico, não veio por acaso. É fruto de uma política consistente de austeridade administrativa, controle rigoroso de gastos e modernização da gestão interna, sem prejuízo aos avanços em transparência, participação popular, interiorização das atividades legislativas e fortalecimento institucional.
Por força constitucional, a Assembleia não executa obras nem políticas públicas. Seu orçamento se limita ao funcionamento do Poder Legislativo. O que sobra retorna ao Executivo, com destino claro: investimento — não custeio, não inchaço da máquina.
E investimento é exatamente no que esse dinheiro se transforma. Programas como o Asfalto Novo, Vida Nova — o maior de pavimentação urbana do país — já receberam R$ 300 milhões oriundos dessas devoluções. A educação infantil também foi contemplada: além das 300 creches do programa Infância Feliz, outros R$ 200 milhões foram repassados exclusivamente para ampliar vagas ainda em 2025.
Dinheiro público economizado, devolvido e aplicado onde importa. Simples. E, por isso mesmo, tão incomum.
2 — Pronto para o que der e vier
Ratinho Junior encerra 2025 como o governador mais bem avaliado do Brasil.
O levantamento do Real Big Data, feito em 20 estados, aponta 85% de aprovação entre os paranaenses após sete anos de gestão — um patamar que o projeta muito além das fronteiras do Estado.
No Sul e Sudeste, ninguém se aproxima. Tarcísio de Freitas aparece com 60% de aprovação, Eduardo Leite com 62%. Renato Casagrande chega a 75%. Ratinho lidera com folga. No Norte e Nordeste, onde estão as piores avaliações, os números caem para a casa dos 40% — ou menos.
Em política, aprovação é poder acumulado. E poder acumulado, cedo ou tarde, entra no tabuleiro nacional.
Seja como grande cabo eleitoral, seja como protagonista direto, Ratinho chega a 2026 com um ativo que poucos têm: aprovação sólida, consistente e duradoura.
3 — Itaipu e a lógica irrefutável
Recém-empossado presidente do Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (CODESUL), Ratinho Junior passou a defender com mais força uma ideia antiga — e incômoda: usar as sobras bilionárias da Itaipu Binacional para criar um fundo constitucional de investimentos para os estados do Sul.
A usina quitou sua dívida de construção em 2023. Desde então, gera uma sobra estimada em US$ 1,5 bilhão por ano. Dinheiro que hoje vem sendo pulverizado pelo governo federal em convênios, patrocínios e eventos — inclusive mais de R$ 1 bilhão para a COP 30, em Belém — sob critérios questionados no Congresso e no TCU.
A proposta é direta: em vez de transformar Itaipu em caixa auxiliar de agendas ideológicas, por que não investir estruturalmente na região que abriga a usina e sustenta boa parte da economia nacional?
Como presidente do CODESUL, Ratinho fala agora com legitimidade regional. A ideia incomoda justamente por ser simples, racional e difícil de refutar.
4 — Avicultura: um ano duro, uma lição aprendida
O ano de 2025 entra para a história da avicultura brasileira como um dos mais desafiadores da última década. Pressões sanitárias globais, instabilidade geopolítica, custos elevados e restrições temporárias em mercados estratégicos testaram o setor ao limite.
Segundo Roberto Kaefer, presidente do Sindicato das Indústrias Avícolas do Estado do Paraná (Sindiavipar), a resposta foi coordenação, disciplina e resiliência. A atuação conjunta do Ministério da Agricultura, da ABPA e das entidades estaduais foi decisiva para conter danos, preservar a credibilidade sanitária e reabrir mercados ao longo do segundo semestre.
Os números já refletem a retomada. As exportações de frango devem fechar dezembro acima de 500 mil toneladas, levando o total anual a mais de 5 milhões. Houve ajuste na oferta, equilíbrio de mercado e recuperação gradual da previsibilidade.
Para 2026, Kaefer projeta um cenário mais favorável, com retomada do consumo global de proteínas e o Paraná bem posicionado para liderar esse movimento, combinando escala, sanidade e sustentabilidade.
5 — O calote que o discurso não cobre
A inadimplência empresarial atingiu um recorde histórico: 8,7 milhões de empresas brasileiras com dívidas em atraso, somando R$ 204,8 bilhões. Nunca houve nada parecido desde o início da série histórica, em 2016.
O crédito encurtou, os juros dispararam e a atividade econômica esfriou. O resultado aparece primeiro onde sempre aparece: no caixa das micro e pequenas empresas, que concentram a esmagadora maioria dos inadimplentes.
Serviços e comércio lideram o sufoco. Os cartórios confirmam o estrago: os protestos judiciais cresceram 22% em 2025.
Pode haver narrativa otimista em Brasília. Na economia real, o calote virou sintoma.
6 — O sustentáculo político do rombo no INSS
Enquanto o governo Lula conseguiu esvaziar politicamente a CPMI do INSS, dando a sensação de que o escândalo dos descontos ilegais em aposentadorias havia chegado a um beco sem saída, a Polícia Federal seguiu investigando. E chegou ao que os próprios investigadores passaram a chamar de “sustentáculo político” da operação criminosa que já provocou um rombo superior a R$ 6 bilhões.
Segundo a PF, o esquema estava organizado em núcleos bem definidos — administrativo, financeiro, empresarial, de servidores públicos e político — com lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial, uso de empresas de fachada, movimentações internacionais e proteção institucional. A engrenagem só funcionava porque havia cobertura política.
Prisões recentes atingiram personagens-chave do esquema, incluindo dirigentes do Ministério da Previdência e operadores financeiros ligados ao chamado “Careca do INSS”, apontado como um dos líderes da organização criminosa. A investigação também revelou que um senador da República, vice-líder do governo Lula, figurava como beneficiário oculto de operações financeiras estruturadas pelo grupo, funcionando como verdadeiro escudo político.
O dado mais sensível, porém, vai além. As apurações encontraram conexões diretas entre operadores do esquema e Fábio Luís da Silva, filho do presidente Lula — personagem que volta a aparecer no noticiário policial após já ter sido citado em outros episódios nebulosos ao longo dos anos.
Pagamentos feitos por operadores do esquema a uma amiga próxima de Fábio Luís chamaram a atenção dos investigadores. Há relatos, inclusive, de orientação para destruição de provas antes de ações da Polícia Federal.
A blindagem política ajuda a explicar por que a CPMI foi esvaziada e por que determinados nomes foram inicialmente preservados. Embora haja envolvidos de diferentes partidos, o núcleo de sustentação do esquema gravita claramente em torno do atual governo.
A tentativa de conter o escândalo no plano político não resistiu à investigação criminal. E, mais uma vez, os fatos avançam onde o discurso tenta estancar.
7 — Enquanto isso, nos Estados Unidos…
A economia americana cresceu surpreendentes 4,3% no terceiro trimestre — acima das previsões e no ritmo mais forte em dois anos.
Consumo, gastos públicos e exportações puxaram o resultado.
A inflação segue acima do desejado pelo Federal Reserve, mas os números frustraram os críticos da política econômica de Donald Trump.
O tarifaço, goste-se ou não do personagem, estimulou a produção interna e a reindustrialização.
Os dados falam. E falam alto.
8 — Advocacia administrativa: quando o nome do crime explica o fato
Advocacia administrativa é o crime cometido por agente público que, valendo-se do cargo, patrocina interesses privados perante a própria administração. Está no artigo 321 do Código Penal. A lei é clara. A conduta, também.
O termo ganhou destaque recente por uma razão objetiva: o escândalo envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o Banco Master. O escritório de advocacia de sua esposa firmou contrato milionário com o banco.
Paralelamente, Moraes manteve ao menos seis intercessões junto ao presidente do Banco Central durante o processo que culminou na liquidação da instituição.
É exatamente esse tipo de comportamento — agente público atuando, direta ou indiretamente, em favor de interesse privado — que a lei tipifica como advocacia administrativa. Não é debate semântico. É enquadramento legal.
9 — O engenheiro do botão de desligamento
Circulou nas redes um anúncio fictício pedindo um “engenheiro de botão de desligamento” para a OpenAI. A missão: ficar ao lado dos servidores e desligar tudo da tomada se a inteligência artificial resolver sair do controle. Habilidade extra: jogar um balde d’água nos equipamentos, por precaução.
Humor negro? Sim. Medo real? Também.
Mas a tecnologia avança criando novas funções e exigindo novas competências.
O desafio não é frear o futuro — é aprender a operá-lo antes que ele opere contra nós.
10 — Direita, esquerda e a fotografia do país
Pesquisa Datafolha divulgada no Natal revela um retrato eloquente do Brasil: 35% dos entrevistados se dizem de direita, contra 22% que se identificam com a esquerda. O centro aparece fragmentado.
O dado ajuda a explicar a dificuldade estrutural do governo Lula para governar. O Congresso já reflete essa maioria ideológica.
A liderança eventual de Lula em cenários eleitorais se mostra mais fruto do cargo e do recall do que de base política sólida.
O Brasil acompanha uma tendência regional. A América Latina vive uma guinada à direita. O Chile é o exemplo mais recente. O vento mudou.
11 — Eleições de 2026: a última esperança para conter o STF
Em artigo recente, Fernando Schüler foi direto: é ilusório esperar autocontrole do Supremo Tribunal Federal.
Além disso, se nos últimos anos o Senado não exerceu seu papel de botar freios na Corte, por que o faria agora?
Para Schüler, o fator decisivo será outro: as eleições de 2026 funcionarão, entre muitas coisas, como um plebiscito sobre a atuação do STF.
A equação é simples. A direita, hoje majoritária, é a principal crítica do Supremo. A esquerda o sustenta. O STF governa em condomínio com o governo Lula. O eleitor, cedo ou tarde, reage.
12 — Um bilhão dá pra quê mesmo?
O prêmio da Mega da Virada passa de R$ 1 bilhão. E começaram os exercícios matemáticos.
Dá para comprar cerca de 200 Ferraris. Ou 15 helicópteros de última geração. Ou 10 jatinhos Pilatus seminovos. Se preferir algo mais popular, dá para levar 18 mil Volkswagen Gol 2023.
Mas há uma aplicação ainda mais simbólica: com esse dinheiro, seria possível contratar cerca de sete vezes o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes — tomando como base aquele contrato exuberante com o Banco Master.
A matemática não mente. Às vezes, apenas ironiza.











