O veneno retórico contra o agro e a propaganda travestida de virtude

Há mentiras que sobrevivem não porque resistam à contestação, mas porque se apoiam exclusivamente na disciplina da repetição. Mesmo desmontadas, mesmo contrariadas pelos fatos, seguem adiante até adquirirem aparência de verdade — lição clássica da propaganda política do regime nazista, sistematizada por Joseph Goebbels e reciclada à exaustão ao longo do século. No Brasil, esse método encontrou terreno fértil no debate sobre os defensivos agrícolas, transformados por militância ideológica em símbolo de ameaça difusa, muito mais por construção retórica do que por qualquer evidência científica.
Herbicidas, inseticidas e fungicidas, convém registrar desde o início, não apenas se tornaram progressivamente mais seguros ao longo do tempo, como são ferramentas indispensáveis ao desenvolvimento econômico, à produtividade agrícola e à segurança alimentar do Brasil e do mundo. Trata-se de uma constatação amplamente respaldada por engenheiros agrônomos, pesquisadores e cientistas, que veem nesses produtos instrumentos técnicos de proteção das lavouras — não artefatos morais, como sugere a caricatura militante.
O debate sobre a utilização dos produtos que defendem a agricultura contra pragas, doenças e ervas daninhas sempre foi um desses casos exemplares. Há muito, uma militância ambientalista preferiu o espanto à estatística, o rótulo ao dado, o medo ao método. “Veneno”, repetiam, com a convicção de quem acredita que nomear algo resolve o problema. Como se trocar ciência por semântica fosse um ato de coragem civilizatória.
Contra esse ruído organizado, a reportagem “Dez mitos sobre defensivos agrícolas desmentidos por dados e pesquisas”, assinada por Célio Yano e publicada na Gazeta do Povo, fez algo quase subversivo nos tempos atuais: apresentou fatos. Não opiniões travestidas de virtude, não militância disfarçada de ciência — fatos.
O texto desqualificou, logo de início, a narrativa mais explorada pelo terrorismo retórico: a de que defensivos agrícolas estariam por trás de uma suposta epidemia de mortes por intoxicação. Os números oficiais do sistema de saúde mostraram exatamente o contrário. Intoxicações no Brasil estiveram majoritariamente associadas a medicamentos, drogas, alimentos e produtos de uso doméstico. Quando defensivos apareceram, boa parte dos casos não guardava relação com o uso agrícola regular, mas com situações extremas, acidentais ou fora de qualquer protocolo técnico. Traduzindo: o problema não é o insumo — é o mau uso. E isso vale para qualquer substância, inclusive aquela aspirina esquecida no armário.
A militância então mudou de trincheira e tentou vestir o figurino ambiental. Disse que quem usa defensivos despreza a natureza. Só que a prática brasileira foi cruelmente inconveniente para esse discurso. O país construiu um dos sistemas mais eficientes do mundo em logística reversa de embalagens, reciclagem, rastreabilidade e reaproveitamento industrial. Percentuais que superaram, com folga, cadeias produtivas tidas como “limpas”. Enquanto o discurso gritava “descaso”, a realidade entregava organização, engenharia e responsabilidade ambiental mensurável.
Quando isso não bastou, entrou o fetiche europeu. Se estava proibido lá, logo, seria criminoso aqui — ignorando-se, com certa preguiça intelectual, que o Brasil é tropical, tem outra incidência solar, outra dinâmica de pragas, outra degradação química e outra escala produtiva. Importar regras sem importar contexto soou sofisticado em seminário militante, mas não resistiu a uma aula básica de agronomia. A reportagem lembrou ainda um detalhe que costuma irritar os puristas do atraso: moléculas mais recentes tendem a ser mais seguras, mais específicas e utilizadas em doses cada vez menores. Evolução tecnológica, nesse caso, virou suspeita moral.
A própria experiência agrícola brasileira desmontou outra peça central do discurso alarmista. Há poucas décadas, grande parte das áreas produtivas colhia apenas uma cultura por safra. Hoje, graças ao avanço tecnológico, ao plantio direto e ao manejo moderno — que inclui o uso racional de defensivos — o país produz soja de ciclo mais curto, economiza tempo e água e viabiliza duas e até três culturas na mesma área, como milho e algodão. O resultado é aumento expressivo de produtividade sem expansão proporcional da área plantada — um ganho ambiental raramente reconhecido pelos críticos de gabinete.
Não satisfeitos, alguns tentaram apelar ao prato do leitor: alimentos produzidos com defensivos seriam menos nutritivos. Aqui, o castelo de cartas caiu com estudos amplos, revisões sistemáticas e décadas de pesquisa mostrando que diferenças nutricionais entre produtos orgânicos e convencionais, quando existem, são pequenas, inconsistentes e biologicamente irrelevantes. Mas o mito persistiu, porque confortou quem prefere escolher comida como quem escolhe ideologia.
Outro clássico foi o ranking do “país que mais usa agrotóxicos”. O truque foi sempre o mesmo: olhar o volume absoluto de um gigante agrícola tropical e fingir surpresa. Quando se fez o que qualquer estatística séria exige — normalizar por hectare — o Brasil despencou no ranking. Some-se a isso o fato incômodo de que aqui se colhem duas safras por ano, algo inexistente em grande parte do mundo temperado. Mas números contextualizados não renderam manchete militante.
A conta dos “litros por habitante” talvez tenha sido a mais caricata. Um número que ninguém literalmente consome, usado como se fosse evidência de envenenamento coletivo. A própria fonte que o divulgou admitiu o caráter aproximativo e pedagógico. O problema é que pedagogia mal-intencionada virou propaganda. E propaganda não alimenta ninguém.
Quando o pânico precisou de reforço, o câncer surgiu como palavra mágica. Sim, há substâncias com potencial carcinogênico em condições específicas de exposição ocupacional inadequada. E é exatamente por isso que elas são reguladas, banidas quando necessário e monitoradas. O que a militância fez foi transformar risco pontual em condenação universal, ignorando algo elementar: câncer é doença multifatorial. Se fosse simples assim, bastava banir uma molécula para resolver o problema da humanidade.
O terror final costumou chegar pelo prato e pelo copo d’água. Fomos “envenenados”, diziam. Só que os programas oficiais de monitoramento mostraram níveis residuais dentro dos limites de segurança, ausência de risco crônico e raríssimos casos de risco agudo — geralmente associados a uso ilegal de substâncias proibidas. O dado não sustentou o pânico. Mas o pânico, como se sabe, nunca precisou de dado.
Nem mesmo o paraíso orgânico escapou quando a ciência entrou na sala. Sistemas orgânicos apresentaram perfis de risco diferentes, não inexistentes: desafios microbiológicos, contaminação cruzada, impactos no solo em larga escala. Não há agricultura sem perdas e ganhos. Há, isso sim, agricultura bem ou mal gerida.
Por fim, a água — sempre ela. Monitoramentos extensos, contínuos, com ciclos hidrológicos completos e dezenas de parâmetros analisados mostraram concentrações ínfimas, muito abaixo de limites de risco. Mas esse detalhe raramente apareceu no cartaz de protesto.
A reportagem de Célio Yano prestou um serviço público raro: lembrou que o agronegócio brasileiro não é sustentado por slogans, mas por ciência, tecnologia, regulação e prática. Alimenta o país, sustenta superávits, preserva vegetação nativa em proporção que muitos críticos urbanos jamais aceitaram aplicar a si mesmos.
E há um dado final que costuma ser cuidadosamente evitado no debate público. A FAO, agência da ONU para a alimentação e agricultura, projeta que a produção global de alimentos precisará crescer cerca de 70% até 2050, quando a população mundial deverá alcançar aproximadamente 9,2 bilhões de pessoas. O mesmo organismo estima que pragas e doenças agrícolas respondem por perdas de até 40% da produção mundial.
Ou seja, até que surja uma alternativa tecnicamente viável, escalável e economicamente acessível para enfrentar esse desafio, a continuidade do uso de defensivos agrícolas não é uma escolha ideológica — é uma necessidade objetiva da civilização contemporânea.
Negar isso não torna o mundo mais seguro, mais saudável ou mais justo. Apenas o empurra para a escassez, para a inflação de alimentos e para a insegurança alimentar. A demonização retórica do agro não protege vidas nem preserva a natureza. Apenas troca realidade por slogans — e slogans não seguram a fome quando ela bate à porta.











