Bloco de Notas

1 - Blindado, salvo e ungido
Indignação seletiva sempre tem prazo de validade. O ministro Gilmar Mendes decidiu, monocraticamente, redesenhar o tabuleiro constitucional e blindar ministros do Supremo contra impeachment — não com sutilezas jurídicas, mas com uma tranca digna de banco suíço. É a versão institucionalizada do “ninguém solta a mão de ninguém”: agora, mesmo que a mão esteja segurando a caneta que rasura a Constituição. A justificativa, nos bastidores, é de um realismo tocante: suspira-se, aflito, com a possibilidade de um Senado mais inclinado à direita em 2026. Como prevenir? Simples: muda-se a regra do jogo antes do apito.
No mesmo roteiro, quase como nuvem passageira que anuncia o temporal, Dias Toffoli avocou para si todo o processo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro — e decretou sigilo máximo. Não é qualquer sigilo; é o tipo de silêncio que deixa defesa sorrindo e delator rouco de tanto agradecer. A segurança processual nunca esteve tão bem protegida — sobretudo de eventuais olhares inconvenientes da sociedade.
O cenário, como descreve Merval Pereira em involuntário mea-culpa tardio, revela o óbvio que muitos preferiram não ver: fomos aceitando cada extrapolação em nome de “salvar a democracia”, como quem engole sapo achando que é azeitona. Eram exageros toleráveis — até que a porta se fechou pelo lado de dentro. O conceito de lealdade, por sua vez, ganhou contornos quase dinásticos: ministro bom é o que serve ao padrinho que o nomeou.
Desde o dia em que Lula deixou a prisão graças a uma mudança jurisprudencial, o Supremo deixou de arbitrar o jogo e passou a disputar a bola. Ministros viraram personagens, cada qual com seu eleitorado cativo, seus inimigos declarados e suas lives no imaginário popular. O tribunal transformou-se num conjunto de gabinetes francos-atiradores, cada qual armado de convicção e caneta.
Agora, porém, o enredo tem um toque de ironia cinematográfica: a democracia estaria sendo corroída justamente pelos que diziam salvá-la. É o velho problema do herói que, ao vencer o vilão, descobre-se apaixonado pelo cinturão do poder. E sem impeachment, sem controle e sem constrangimento, a Corte já não é árbitro — é o dono da bola. E, se discordarem, azar: o jogo continua, mas o placar não muda.
2 - Mariah Carey e o 13º salário perpétuo
Natal tem cheiro de pinheiro artificial, taça de espumante, peru ressecado — e Mariah Carey descongelando. Todo final de ano é assim: antes mesmo de o peru entrar no forno, a cantora já está recebendo o que equivale ao 13º, 14º, 15º e talvez até o 16º salário. O hit All I Want For Christmas Is You, lançado em 1994, virou aquela herança vitalícia que rende mais do que fundo imobiliário na Faria Lima — e com a vantagem de dispensar reunião de condomínio.
Somando apenas as vendas e reproduções da gravação original, o tal master, a música rendeu algo entre R$ 13 e R$ 21 milhões só em 2023, dependendo da casa de câmbio e da boa vontade da Forbes ou da Monet. No acumulado, desde seu lançamento, já ultrapassou a casa dos R$ 540 milhões. Uma composição pegajosa de pouco mais de três minutos que já vale mais que muita estatal brasileira — com a diferença de que a música dá lucro e não serve para acomodar apaniguados.
E esse caixa não para na reprodução original. Cada filme natalino que a coloca na trilha sonora, cada cover de Michael Bublé, Ariana Grande ou Dolly Parton, cada shopping que decide criar um clima de neve a 38 graus em pleno dezembro tropical, garante mais uma fatia para o cofrinho de Mariah — que deve ser tão pesado quanto aquele globo de neve que nunca para de cair.
Tornou-se tão onipresente que virou meme: todo ano, quando novembro se aproxima, as redes anunciam que é hora de descongelar Mariah Carey, como se a cantora hibernasse num iglu de royalties aguardando o sino tocar. No fundo, todos nós sabemos que o Natal ainda não chegou quando aparece o primeiro panetone; começa mesmo é quando a voz dela ecoa no corredor da Renner.
No Brasil, temos Simone com seu Então é Natal — que sempre desperta a pergunta existencial: E o que você fez? Mariah, pelo visto, fez a música certa, na hora certa e lidera há 30 anos um fenômeno que continua embalando romances improváveis, cenas com neve artificial e um fluxo de caixa que faria até Papai Noel acreditar no capitalismo.
3 - Cívico-militares: a disciplina que lota salas
O Paraná decidiu que, se educação é missão, então missão dada é missão cumprida — e ampliou mais uma vez a rede de colégios cívico-militares. Com a aprovação de 33 novas instituições, já são 345 previstas até 2026, consolidando o estado como a maior rede do país. O modelo não foi imposto por decreto divino: passou por consulta pública e recebeu aprovação em 66% das escolas participantes, um nível de adesão que todo político gostaria de ter em ano eleitoral.
Os números ajudam a derrubar discursos ideológicos: pais, alunos e professores avaliam positivamente o ambiente disciplinar, a gestão mais ágil e o clima de sala — aquele território que deixou de ser selva e voltou a ser escola. Segundo a Secretaria de Educação, as taxas de aprovação ultrapassam os 89% entre pais e professores e beiram os 91% entre pedagogos. Se pesquisa fosse argumento definitivo, dava até para dizer que há mais consenso sobre esse modelo do que sobre qual lado do pão passa a manteiga.
Há também demanda — e demanda reprimida: mais de 11 mil estudantes aguardam vaga. É uma fila que não se explica com retórica, nem se resolve com reunião inaugural onde todos se abraçam e nada muda. Resolve-se com ampliação, e é o que está acontecendo.
Parte das novas unidades integrará o Programa Paraná Integral, oferecendo turno e contraturno, transformando a escola em ambiente onde o aluno fica mais tempo aprendendo do que exposto ao TikTok — o que, convenhamos, já é uma revolução pedagógica.
Enquanto o governo federal extinguiu seu programa de escolas cívico-militares alegando custos e filosofia, o Paraná segue na contramão — e colhendo resultados. No jogo da educação, quem marca o gol é quem entrega sala de aula funcional, não quem lê manifesto.
4 - A gastança como método
Arrecadar nunca foi o problema. Gastar também não — pelo menos para quem governa. A arrecadação federal de outubro bateu o maior valor em 30 anos e empurrou o acumulado de 2025 para um estratosférico R$ 2,3 trilhões. Em um país minimamente racional, esse seria o combustível para frear a dívida, estabilizar expectativas e preparar terreno para quem assumir o país em 2026. Mas estamos falando de Brasília, onde o orçamento funciona como parede de velcro: tudo que passa gruda.
As estatais voltaram a assumir aquele papel lírico de projeto social permanente. O déficit previsto para este ano saltou de R$ 5,5 bilhões para R$ 9,2 bilhões — número que faria corar o gerente de qualquer padaria que ainda anota fiado na caderneta. Não é mau desempenho, é conceito: estatal não é feita para lucrar; é feita para justificar sua própria existência, acomodar aliados e financiar políticas que não caberiam no orçamento sem passar pela porta da frente.
Privatizar seria a medida óbvia e constitucional — mas virou palavrão, como se entregar eficiência ao contribuinte fosse lesa-pátria. Enquanto isso, o governo recorre a remendos arrecadatórios, como o aumento do IOF, extinto pelo Congresso, ressuscitado pelo STF e convertido em reforço de caixa — porque todo tributo, no Brasil, tem sete vidas.
Para 2026, já se fala em tirar gastos militares e de segurança pública das regras fiscais, porque o arcabouço, descobriu-se, serve para tudo, menos para conter despesas. Reformas estruturais? Cortes? Revisão de programas? Nenhuma novidade no front — apenas o mantra já clássico: gasto é vida, atualizado agora para controle de gastos é impeditivo social.
E assim seguimos: arrecada-se recorde, gasta-se recorde, e a matemática fecha apenas no PowerPoint. Enquanto o país desacelera e perde fôlego, o governo segue firme no propósito de expandir o Estado — até que o Estado, exausto, apague as luzes.
5 - Grand Splendid: onde o livro permanece e o tempo se curva
Em Buenos Aires, há quem jure que o El Ateneo Grand Splendid não é uma livraria — é uma catedral leiga onde se reza diante de prateleiras. Em breve, será mais do que isso: inaugura, entre dezembro e janeiro, a chamada Experiência Grand Splendid, um espaço cultural imersivo que transforma o ato de visitar uma livraria em travessia histórica. Um percurso pelas memórias do prédio, pelos ecos da voz de Carlos Gardel e por um café decorado com fragmentos da vida cultural portenha — onde o expresso vem servido com uma pequena dose de nostalgia.
Não é exagero tratá-la como patrimônio afetivo da Argentina: eleita pela National Geographic como a livraria mais bonita do mundo, o espaço antes foi teatro inaugurado em 1919, palco de óperas, tangos e encontros improváveis que sobreviveram à passagem dos anos, das crises e dos governos — o que, na Argentina, já configura épico.
São 2 mil metros quadrados, mais de 200 mil livros, e cerca de 180 mil visitantes por mês, prova de que, enquanto o mundo debate se o papel vai morrer, os argentinos seguem tirando selfies diante dele. Há quem vá pela arquitetura, quem vá pelo turismo, quem vá pelo vinho depois — ninguém sai indiferente.
A nova experiência coincide com os 25 anos desde que o teatro virou livraria — e poucos roteiros de viagem explicam tão bem uma cidade: Buenos Aires não precisou transformar um teatro em shopping; transformou em livraria. Entre um bife de chorizo e uma taça de Malbec, há espaço para o livro. E — surpresa — fila também.
6 - CPI do INSS: a fila anda, menos quando o sobrenome pesa
A CPI do INSS segue revelando mais sobre a política do que sobre aposentadorias. A convocação de Fábio Luís Lula da Silva — o célebre Lulinha — foi rejeitada por 19 votos a 12, deixando no ar aquela sensação de que algumas explicações continuam no modo Espanha, distância suficiente para olhar de longe. O motivo do pedido era simples: R$ 120 mil que chegaram ao ex-contador da família, repassados por dirigente petista, envolvido em um esquema de descontos ilegais sobre aposentados. Coincidência? Coincidências demais começam a parecer agenda.
Já o advogado-geral da União, Jorge Messias — o mesmo indicado por Lula para o Supremo — também não precisará comparecer. Ele havia sido alertado sobre irregularidades envolvendo o Sindnapi e, mesmo assim, deixou o sindicato fora da ação de bloqueio de bens. Um detalhe pouco comentado: o sindicato tem como vice-presidente Frei Chico, irmão do presidente.
Na CPI, a régua é elástica. O cidadão comum precisa provar inocência até do CPF; autoridades, não raramente, precisam apenas provar que foram avisadas — e preferiram não ouvir. O argumento oficial? Não há necessidade. Talvez não haja mesmo — se a necessidade for da verdade, e não do teatro.
Se não deve, não teme — diz o ditado. Mas o ditado, ao que parece, não foi aprovado na Comissão.
7 - Trump, tarifas e o capitalismo que funciona ao avesso
Quando Donald Trump prometeu tarifas para frear importações e reacender a indústria americana, boa parte dos analistas o tratou como um xerife de filme B: fala alto, atira antes e pensa depois. Eis que, por linhas tortas — e tweets ainda mais tortos — a realidade resolveu contrariar a crítica: o déficit comercial caiu, indústrias voltaram e o movimento de reshoring reacende fábricas que viraram museus.
As tarifas, que deveriam inflar preços e desagradar consumidores, tiveram impacto menor do que o previsto — porque quando a produção volta, o emprego volta; e quando o emprego volta, se produz mais; e onde se produz mais, há concorrência interna; e onde há concorrência, os preços não sobem como os profetas do apocalipse tarifário juravam.
O pragmatismo, tão criticado, está rendendo resultados: mais autonomia, menos vulnerabilidade externa, e cadeias produtivas menos dependentes de países que fabricam barato, mas cobram caro em instabilidade. Política industrial não é pecado; pecado é não admitir que os EUA estão recuperando terreno que cederam em nome de um globalismo que funcionou bem — mas não para eles.
Calado, o mercado — sempre tão rápido no alarde — agora observa que a fanfarronice do personagem não impediu a coerência do gestor. Há quem torça o nariz, mas fábricas não se movem por opinião; movem-se por oportunidade. E essa, ironicamente, foi criada por quem muitos apostaram que destruiria tudo.
O capitalismo, às vezes, funciona de ponta-cabeça — e, curiosamente, continua funcionando.
8 - A sucessão, o mercado e a política jogada no pregão
Bastou o ex-presidente Jair Bolsonaro sinalizar Flávio Bolsonaro como candidato de seu grupo à presidência para 2026, e o mercado financeiro tocou a campainha do alerta: dólar para cima, bolsa para baixo. No Brasil, o pregão lê cenário político como quem lê boletim médico — não há piora, mas também não há melhora.
Até poucas horas antes, os números vinham impulsionados pela expectativa de corte de juros nos Estados Unidos. Mas o tabuleiro mudou. O nome favorito entre empresários e investidores era outro: Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, visto como figura capaz de dialogar além do núcleo duro do bolsonarismo. Ao lançar o filho, Bolsonaro cola um teto de vidro no próprio grupo: fideliza a base, mas dificulta alianças — especialmente com o eleitor que rejeita Lula, mas torce o nariz para a retórica mais estridente.
No xadrez político, há movimentos que consolidam posições; outros, que bloqueiam caminhos. O anúncio do ex-presidente fez ambos: consolidou internamente e fechou portas externamente. O Brasil, que já é país de baixa poupança, agora convive com baixa paciência de investidores.
Vale lembrar: eleição não é cassino — é investimento de longo prazo. E ninguém abre uma fábrica baseado em torcida.
9 - Última página
Se tudo der errado, há uma boa notícia: em dezembro tem Mariah Carey. A música volta, o meme volta, o espírito natalino volta — só o país que não vai muito pra frente. Mas, pelo menos, temos trilha sonora.











