OPINIÃO

Embrapa: a joia científica que o Brasil insiste em desprezar

Há poucos capítulos na história brasileira tão eloquentes quanto a trajetória da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária — a Embrapa.

Criada em 1973, durante o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, esta instituição representa um dos mais transcendentais legados deixados pelo governo militar no Brasil: a visão estratégica de que a ciência e a tecnologia poderiam transformar um país de agricultura incipiente na potência agrícola que hoje alimenta o mundo.

Um recente estudo conduzido por renomados pesquisadores de importantes universidades e instituições americanas — tema de excelente reportagem do jornalista Célio Yano publicada na Gazeta do Povo — projeta luz internacional sobre o papel crucial da Embrapa no desenvolvimento agrícola brasileiro.

O artigo científico, disponível no repositório Social Science Research Network (SSRN), é assinado por Ariel Akerman, do Banco Interamericano de Desenvolvimento; Jacob Moscona, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT); Heitor S. Pellegrina, da Universidade de Notre Dame; e Karthik Sastry, do Departamento de Economia da Universidade de Princeton.

A pesquisa não apenas reconhece os feitos extraordinários desta instituição, mas a apresenta como modelo inspirador para nações em desenvolvimento que buscam modernizar seus setores agrícolas.

Os números documentados pelos pesquisadores americanos são monumentais: a Embrapa foi responsável por um aumento de 110% na produtividade agrícola nacional ao longo de cinco décadas.

O custo-benefício deste investimento estratégico desafia qualquer expectativa: segundo o estudo, a relação média é de 17 para 1 — para cada real investido na Embrapa, dezessete reais retornaram à sociedade em benefícios. O próprio Balanço Social 2024 da instituição demonstrou um lucro social de R$ 107,24 bilhões e um retorno ainda mais impressionante de R$ 25,37 para cada real investido.

Quando a Embrapa nasceu, o Brasil era importador líquido de alimentos básicos, enfrentando crescentes pressões devido à rápida urbanização e ao crescimento populacional.

O cerrado brasileiro — hoje coração pulsante do agronegócio nacional — era considerado terra improdutiva, de solo ácido e pobre, inadequada para a agricultura comercial. Foi através do trabalho hercúleo de pesquisadores que esta narrativa foi reescrita.

Um dos fundadores da Embrapa, Eliseu Alves, identificou com clarividência o problema central: a ausência de ciência capaz de gerar tecnologia adequada ao que o Brasil precisava.

O grupo de trabalho estabeleceu três princípios organizacionais fundamentais: descentralização, escala de investimento e desenvolvimento de capital humano.

E aqui reside um dos achados mais fascinantes do estudo americano: o sucesso da Embrapa se deve não apenas à escala do investimento, mas principalmente à sua estrutura descentralizada. Atualmente com 43 unidades espalhadas por regiões diversas do país, esta natureza descentralizada explica mais da metade dos ganhos de produtividade.

“Descobrimos que um mecanismo importante para o efeito macroeconômico da Embrapa é o redirecionamento da inovação para as necessidades locais”, escrevem os autores. Segundo eles, trata-se da primeira evidência empírica direta de como uma mudança política específica pode permitir que um país em desenvolvimento escape da “armadilha do desajuste tecnológico”.

O montante investido nos anos iniciais foi fundamental. Os recursos aplicados evoluíram de US$ 23,5 milhões em 1974 para US$ 190,7 milhões em 1987. Uma proporção significativa foi direcionada para instalações físicas e especialmente para treinamento de recursos humanos qualificados. A transformação no perfil técnico foi espetacular: de apenas 15% de pós-graduados em 1974 para 85% de pesquisadores com mestrado ou doutorado em 1987.

Os pesquisadores da Embrapa redirecionaram o foco para ciência e tecnologia localmente relevantes, trabalhando com as condições ecológicas particulares do Brasil — biomas, pragas e patógenos regionais.

A instituição conseguiu superar restrições de produtividade mesmo em regiões remotas com capacidade de pesquisa preexistente limitada. Os autores demonstram que trabalhar em um laboratório da Embrapa levou a aumento significativo na produtividade dos pesquisadores, revertendo a desvantagem que existia fora dos grandes centros.

A inovação foi dirigida aos grãos básicos e culturas prioritárias para a segurança alimentar: feijão, mandioca, milho, arroz, soja e trigo. O crescimento na produtividade foi impulsionado pela adoção efetiva de tecnologias desenvolvidas pela instituição, desde fertilizantes e sementes até inovações como integração lavoura-pecuária-floresta e plantio direto, que proporcionam resiliência e mitigam impactos das mudanças climáticas.

É curioso — e revelador — observar como certos setores políticos torcem o nariz ao reconhecer que a Embrapa representa um dos mais brilhantes legados do período militar brasileiro. A ideologia, essa névoa que tantas vezes obscurece a razão, impede que se reconheça o óbvio: a criação da Embrapa foi um ato de estadismo, uma visão de longo prazo que transcendeu governos e beneficiou gerações.

Não se trata de nostalgia, mas de reconhecimento factual de que aquela iniciativa transformou irreversivelmente o destino do Brasil.

E aqui reside o paradoxo inaceitável: enquanto pesquisadores do MIT, Princeton, Notre Dame e do Banco Interamericano de Desenvolvimento estudam a Embrapa como modelo exemplar, internamente testemunhamos seu lamentável sucateamento. Segundo o Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário, nos últimos dez anos os repasses da União para pesquisas da Embrapa caíram 80%.

Em 2025, a previsão inicial era de R$ 317,3 milhões, mas até o momento da reportagem apenas R$ 207 milhões haviam sido efetivamente liquidados. O projeto de Lei Orçamentária de 2026 prevê meros R$ 270 milhões.

Como pode um país que se tornou superpotência agrícola graças ao trabalho da Embrapa negligenciar precisamente a instituição que lhe conferiu esta posição?

A agricultura brasileira movimenta centenas de bilhões de reais anualmente, gera milhões de empregos e projeta o Brasil como ator fundamental na geopolítica global da segurança alimentar. Toda esta grandiosidade tem raízes fincadas no trabalho científico da Embrapa — raízes que agora definham por falta de recursos.

O estudo serve como chamado urgente que ecoa desde as mais prestigiadas instituições acadêmicas americanas: cada laboratório fechado, cada pesquisador sem sucessor, cada projeto descontinuado representa um atentado contra o futuro da agricultura brasileira. Num mundo de população crescente, mudanças climáticas e desafios de sustentabilidade, a pesquisa agropecuária será ainda mais crucial nas próximas décadas.

Fortalecer a Embrapa não é gasto — é investimento com retorno comprovado de 17 para 1. Não é luxo — é necessidade estratégica. Não é opção — é imperativo nacional.

Que o reconhecimento internacional documentado por pesquisadores do MIT, Princeton, Notre Dame e do BID, magistralmente relatado por Célio Yano na Gazeta do Povo, sirva como espelho para que enxerguemos o que temos, valorizemos o que construímos e protejamos o que não podemos perder.

A Embrapa é patrimônio científico da nação brasileira. O mundo nos observa com admiração. Países em desenvolvimento buscam replicar nosso modelo. A ciência internacional valida nossa trajetória.

Resta agora que os tomadores de decisão brasileiros estejam à altura do legado que herdaram e da responsabilidade que carregam.​​​​​​​​​​​​​​​​

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Um Comentário

  1. Considero a Embrapa a melhor estatal brasileira de todos os tempos! Sua atuação tecnológica revolucionou a agricultura brasileira, com aporte de conhecimento científico a todas as regiões, mas seu caso exemplar foi sem dúvida a transformação do Cerrado! Sua atuação na região hoje conhecida como MATOPIBA integrou à área agrícola produtiva imensas áreas onde predominava a pobreza à agricultura de ala qualidade! Viva a Embrapa!

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