OPINIÃO

A República dos Intocáveis

Para surpresa de ninguém, Dias Toffoli decretou o nível máximo de segredo no escândalo do Banco Master. Não o sigilo comum, aquele do manual processual, mas o sigilo premium, o blindado, o que transforma investigação pública em assunto de alcova, protegido por sete chaves e uma toga.

No Brasil de 2025, essa não é uma decisão — é uma coreografia. E cada ministro já sabe exatamente quando entrar no palco.

A naturalidade com que o Supremo trancou o caso não vem do zelo jurídico, mas do cheiro de queimado no próprio quintal.

Como já se sabe, o banqueiro Daniel Vorcaro não era apenas um operador financeiro: era anfitrião frequente de ministros do STF.

Em seus eventos patrocinados, organizados em Nova York, Paris, Londres, Roma e no Rio, estiveram presentes Luís Roberto Barroso, Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luís Felipe Salomão, Ricardo Lewandowski, Edson Fachin, Cristiano Zanin e outros nomes do Olimpo togado. Jantares de gala, conferências internacionais, palestras luxuosas: o networking era tão reluzente quanto previsível.

E a promiscuidade institucional não para aí. O escritório da advogada Viviane Barci, esposa de Alexandre de Moraes — hoje o grande inquisidor nacional, o guardião da moral seletiva — foi contratado pelo Banco Master. Um arranjo que, em qualquer país minimamente sério, produziria suspeição automática. No Brasil, produz silêncio.

Nada disso seria possível sem a engrenagem de relações construída por Vorcaro com precisão milimétrica. Escritórios ligados a ministros, consultorias de ex-membros do Judiciário, políticos de todos os calibres orbitando o esquema. Lewandowski, antes de voltar ao governo como ministro da Justiça, prestou consultoria ao banqueiro. Michel Temer, idem. O país conviveu durante anos com o Master financiando encontros em que toga e taça dividiam a mesma mesa.

Quando alguém compra tanto prestígio, raramente busca apenas prestígio.

Foi essa blindagem que permitiu ao Master sustentar, por anos, um esquema financeiro que jamais fecharia.

O banco emitia CDBs e outros títulos oferecendo rendimentos acima do mercado, atraindo bilhões de reais de investidores seduzidos pela promessa do lucro fácil.

Era um mecanismo apoiado em crédito podre, fantasia contábil e confiança ingênua. E, como sempre, a ganância teve papel crucial. Entre a esperteza e a ilusão, muitos preferiram acreditar no milagre — até chegar o momento em que a velha máxima se cumpriu: a esperteza virou bicho e comeu o homem.

Essa promiscuidade encontrou campo fértil num tribunal que já extrapolou todos os limites.

Ao instaurar o estado de exceção que permitiu processar e condenar Bolsonaro sem devido processo legal, sem contraditório e por um golpe inexistente, o STF anunciou ao país que já não reconhece freios — nem externos, nem internos.

E não foi episódio isolado: o mesmo tribunal desmantelou a Operação Lava Jato, anulou processos inteiros, descondenou condenados, devolveu bilhões, perdoou multas colossais, remodelou jurisprudências, reinventou regras, extinguiu fronteiras.

É o exercício pleno de um poder que se concedeu a si mesmo permissão para fazer o que quiser, quando quiser, como quiser.

Quando o tribunal já demonstrou que pode tudo, não surpreende que se proteja quando o escândalo bate à porta.

Surge então o sigilo máximo: a porta fechada que impede o país de enxergar o essencial.

Investigar corrupção, punir escândalos e coibir abusos nunca foi a prática constante do Supremo — foi sempre exceção. A regra, como se vê agora com nitidez incômoda, é a autopreservação.

A imprensa que deveria ter contido os avanços autoritários do tribunal só agora reage. A OAB, que já foi consciência cívica, hoje se limita a notas burocráticas. Cobrar recato, prudência e comportamento ético de um órgão que atua acima das próprias normas é perda de tempo. É tentar empurrar de volta para a garrafa um gênio que, uma vez solto, nunca retorna.

É a República dos Intocáveis, onde a lei é igual para todos — só que alguns são mais iguais do que os outros.

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