OPINIÃO

O “Doutor Honoris Causa” que dispensa universidade

A turnê internacional de Lula ganhou um capítulo pitoresco em Moçambique, onde o presidente foi agraciado com um diploma de “doutor honoris causa” pela Universidade Pedagógica de Maputo.

A “honraria”, atribuída em “ciência política, desenvolvimento e cooperação internacional”, tornou-se a quadragésima segunda da coleção — porque, afinal, nenhuma galeria de títulos simbólicos estaria completa sem um troféu africano de estimação.

O timing não poderia ser mais sugestivo. Enquanto os brasileiros ainda digeriam a promessa de ressuscitar o velho BNDES diplomático — aquele mesmo que despejou bilhões em obras estrangeiras jamais ressarcidas por Cuba e Venezuela, e que Lula agora deseja religar para financiar governos amigos — surge mais uma homenagem protocolar, daquelas que enchem de entusiasmo os militantes e de apreensão os empresários.

Quando o presidente fala em “cooperação internacional”, o mercado já imagina o cofre reabrindo.

Mas o detalhe mais saboroso está na companhia. Mike Tyson, por exemplo, já recebeu um diploma em Letras Humanas — sim, Letras — pela Central State University, em Ohio.

Robert Mugabe, o ditador do Zimbábue, também garantiu o seu, talvez por mera insistência própria.

Taylor Swift, que ao menos domina a arte de escrever letras de música, foi homenageada pela Universidade de Nova York. E, no Brasil, Martinho da Vila acaba de ser celebrado pela Fiocruz por uma discografia que combina “excelência estética, compromisso político e valorização da identidade cultural”.

E então chega a cereja definitiva do bolo: Dilma Rousseff, agraciada há poucos dias com um doutorado honoris causa pela Universidade de Brasília. A presidente que precipitou a maior recessão da história brasileira, desorganizou as contas públicas com sua política econômica esdrúxula e acabou removida do cargo por causa disso, agora convertida em referência acadêmica. Resta apenas a dúvida metodológica: em qual categoria, exatamente, a UnB decidiu enquadrá-la? Economia criativa? Engenharia do desastre? Física das pedaladas? Seja qual for, completa-se o álbum dos absurdos.

À luz desse seleto clube, o valor científico da honraria se revela: nenhum. Não é preciso estudar, pesquisar ou contribuir para o avanço do conhecimento.

Basta emocionar, agradar ou servir a algum propósito — ideológico, afetivo, institucional ou promocional.

As universidades distribuem esses diplomas guiadas muito mais por cálculo simbólico do que por mérito real. E os homenageados, por sua vez, nada têm a fazer com o papel além de pendurá-lo na parede ou exibi-lo em entrevistas.

E se ainda houvesse dúvida sobre a utilidade prática do título, o mais emblemático doutor honoris causa da história resolve tudo: Caco, o Sapo — Kermit, o anfíbio dos Muppets. Em 1996, o personagem de feltro foi laureado pelo Southampton College por sua contribuição à conscientização ambiental. O sapo não precisou citar Marx nem interpretar Rawls; bastou coaxar pela natureza.

No caso de Lula, a contradição é ainda mais saborosa. Ele próprio já declarou — com um orgulho que beira o deboche — que “não precisa de universidade” para governar, vangloriando-se de ter chegado à Presidência sem concluir o ensino básico.

Para alguém que sempre tratou o estudo formal como supérfluo, colecionar 42 diplominhas honoríficos é mais do que ironia histórica: é a consagração de um país que desperdiça suas universidades e glorifica títulos que não exigem um único dia de sala de aula.

No fim das contas, o doutorado honoris causa concedido a Lula não diz nada sobre sua capacidade ou mérito — mas diz muito sobre quem concede, por que concede e o que espera em troca.

E isso, sim, é um excelente objeto de estudo. Pena que não cai em vestibular.

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