Bloco de Notas

- O outro crime organizado
A prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no aeroporto de Guarulhos — prestes a fugir num jatinho rumo à ilha de Malta — apenas encerrou, de modo cinematográfico, uma história que o mercado já apontava como desastre anunciado.
No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, que passou quatro anos captando dinheiro de milhões de brasileiros com juros irreais e operações de altíssimo risco. Era questão de tempo.
Mas o colapso traz perguntas incômodas, principalmente sobre o interesse do BRB, banco estatal do Distrito Federal, em comprar o Master quando os sinais de insolvência já eram evidentes.
Executivos do BRB e autoridades do governo de Ibaneis Rocha seguiram com a negociação, enquanto parlamentares do Centrão articulavam pressão sobre o Banco Central, chegando a apoiar um requerimento que permitiria ao Congresso destituir a diretoria da autarquia.
Agora, com Vorcaro preso e milhões de investidores prejudicados, fica claro que não se tratava de um simples mau negócio, mas de um crime organizado de luxo, protegido por consultores influentes e redes políticas bem engatadas.
E muitos investidores só entraram nessa fria por pura ganância, ignorando alertas que se acumulavam há quase um ano.
As corretoras que empurraram esses papéis ao público terão dificuldade para explicar seu papel nessa tragédia bilionária.
- Assim fica difícil
No auge das denúncias de fraudes no INSS, quando vieram à tona descontos indevidos até de beneficiários mortos, a Controladoria-Geral da União abriu espaço para receber a cúpula da CONTAG — justamente a entidade investigada pela própria CGU, pela Polícia Federal e pela CPI do INSS.
A reunião, realizada em 5 de agosto, foi conduzida por assessores diretos do ministro Vinícius Carvalho. A pasta disse tratar-se de um “diálogo institucional”. A CONTAG afirmou que apresentou apenas reivindicações. A CGU se recusou a entregar a ata.
O conflito de interesses é tão evidente que dispensa esforço interpretativo.
A cena retrata, mais uma vez, a familiar promiscuidade entre entidades alinhadas ao governo e órgãos que deveriam fiscalizá-las.
Um escândalo que não surpreende — mas que deveria constranger.
- O milagre editorial da ex-nora
A Life Tecnologia Educacional fechou contratos de 111 milhões de reais com prefeituras do interior paulista e praticou um superfaturamento digno de manual: comprava livros por 1 a 5 reais e revendia por até 80.
Para a Polícia Federal, o lucro foi “exorbitante” e alimentado por propina.
Entre os envolvidos aparecem agentes públicos, lobistas e figuras com trânsito privilegiado no universo petista, incluindo uma ex-nora de Lula e um ex-sócio de um dos filhos do presidente.
O dono da empresa, André Gonçalves Mariano, foi preso na Operação Coffee Break, junto com secretários municipais, vice-prefeito e doleiros.
Ela pode ser ex-nora na vida pessoal, mas no mundo dos negócios o prestígio seguia perfeitamente ativo.
E muito rendoso.
- A passarela milionária de Janja
A ApexBrasil gastou 344,4 mil reais para organizar o desfile “Brasil, Criativo por Natureza”, em Paris, sob o comando de Janja e sua corte perdulária.
A missão brasileira como um todo custou 2,15 milhões de reais. O evento, realizado no Café de l’Homme com cardápio assinado pela chef Morena Leite, teve presença de Brigitte Macron e convidados selecionados, mas não aparecia na agenda oficial da primeira-dama. Só foi divulgado no Instagram após matéria da imprensa.
O TCU arquivou uma representação sobre possível promoção pessoal, alegando falta de indícios concretos.
Arquivado ou não, é difícil ignorar o contraste entre a retórica de austeridade climática e a ostentação registrada na capital da moda.
No mesmo período, o governo ainda desembolsou 168 mil reais para uma apresentação de Roberta Sá em Paris.
Sustentabilidade, aparentemente, também tem passarela.
- A inclusão que excluía
O Ministério da Educação vai publicar um decreto que finalmente reconhece o óbvio: crianças com deficiência severa não podem ser tratadas como peças de propaganda ideológica.
O texto assegura a essas crianças o direito de frequentar escolas especializadas, protegendo APAEs e Pestalozzis de uma política de “inclusão total” que, na prática, deixava alunos vulneráveis sem atendimento adequado.
O recuo só aconteceu após forte mobilização nacional: articulação de senadores, posicionamento do presidente do Senado, apoio de 54 parlamentares e pressão insistente de famílias que convivem diariamente com a realidade que o MEC insistia em ignorar.
Inclusão é um ideal nobre — quando possível. Quando imposta à força, vira crueldade.
- Fim da era do “todes”
Lula sancionou a lei que proíbe o uso de linguagem neutra em toda a administração pública.
União, estados e municípios deverão seguir a norma culta, abandonando experimentos como “todes”, “elu” e “amigue”.
A decisão encerra um período de improvisação linguística que já causava constrangimentos ao próprio governo, com autoridades usando termos inexistentes em cerimônias oficiais.
Defensores da novidade falavam em inclusão.
Na prática, o que se via era uma tentativa de reformar o mundo trocando vogais.
A língua portuguesa respira aliviada.
- Sustentabilidade com pedágio — e lógica
A ANTT lançou o PSI, programa que permite um reajuste de até 2% nos pedágios para concessionárias que adotarem medidas concretas de sustentabilidade e descarbonização.
O plano envolve 21,5 bilhões de reais em investimentos, sendo 15 bilhões apenas no setor rodoviário, e exige o cumprimento de 470 requisitos técnicos, incluindo descarte correto de resíduos, preservação ambiental e uso de energia renovável.
A iniciativa funcionará inicialmente num sandbox regulatório de dois anos, para testar e aprimorar o modelo.
É um raro exemplo de política pública que mira resultados reais, não palcos internacionais.
Incentivos corretos levam a práticas corretas — sem discursos vazios.
- UNILA, um tributo ao desperdício e à politicagem
A Itaipu Binacional vai investir 820 milhões de reais na retomada das obras da Universidade Federal de Integração Latino-Americana, projeto criado no primeiro governo Lula com forte carga simbólica e fraca utilidade prática.
Dos recursos, 754 milhões serão usados para concluir 40% das obras já iniciadas; outros 65 milhões vão para desapropriações.
Trata-se apenas da primeira etapa do campus Arandu, idealizado por Oscar Niemeyer.
Enquanto universidades carecem de cursos estratégicos nas engenharias, agrárias e ciências médicas, a UNILA segue como um monumento regionalista, voltado mais para ambições diplomáticas e doutrinação ideológica que para a formação técnica do país.
Um elefante branco que continua crescendo com o dinheiro de Itaipu.
- A lei anti-facção e o desconforto do governo com punição
Após a aprovação do projeto de lei antifacção, o presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmou que o governo Lula errou ao se posicionar contra um texto que endurece o combate às facções criminosas e que recebeu amplo apoio da Casa: 370 votos a favor.
O governo defendeu sua versão original, mais branda, e atacou o relatório do deputado Guilherme Derrite.
Motta subiu o tom e acusou o Planalto de opor “politicamente” por causa de narrativas, não por razões técnicas, e reiterou que a sociedade espera rigor.
A resposta expõe a dificuldade crônica do governo Lula em lidar com o crime organizado com a firmeza necessária.
Quando o assunto é punir criminosos, a hesitação fala mais alto que o dever.
- AGU, sigilo e o sindicato do irmão do presidente
Até que enfim a Advocacia Geral da União tomou providências jurídicas para bloquear 3 bilhões de reais em bens de entidades investigadas por cobrar descontos irregulares de aposentados do INSS.
Entre elas está o Sindnapi, que tem na vice-presidência Frei Chico, irmão mais velho de Lula.
O curioso é que o mapeamento da entidade já existia desde abril, após operação da PF, mas a AGU a deixou fora da primeira leva de ações ajuizadas em maio.
A inclusão só ocorreu em setembro, depois de meses de atraso.
O responsável pelas decisões é Jorge Messias, indicado por Lula ao STF na vaga do ministro Luís Roberto Barroso.
Em qualquer governo sério, um episódio desses geraria constrangimento.
Aqui, é tratado como detalhe biográfico.
- Cristina Kirchner e o grande “legado” peronista
A Justiça argentina determinou a apreensão de 20 imóveis da família Kirchner no caso Vialidad, que investiga corrupção em obras públicas praticada nos governos de Cristina, que cumpre pena em prisão domiciliar.
Um bem está em nome dela; 19 pertencem aos filhos Máximo e Florencia.
O bloqueio chega a 685 bilhões de pesos — mais de 480 milhões de dólares.
O tribunal justificou a medida afirmando que os bens são produto do crime e devem reparar o dano causado ao Estado.
Os nove condenados responderão solidariamente.
A Justiça ainda avalia uma segunda fase de confiscos.
É um raro exemplo regional de enfrentamento real à corrupção de alta escala.
- Bolívia descobre o “esgoto” deixado pela esquerda
Em apenas uma semana no cargo, o novo presidente boliviano, Rodrigo Paz, afirmou ter encontrado um “esgoto” de mais de 15 bilhões de dólares em corrupção deixado por 20 anos de governos socialistas, liderados pelo cocaleiro Evo Morales e seus discípulos.
Segundo ele, contratos superfaturados, compras inúteis e negócios suspeitos devastaram as contas públicas e mergulharam o país na pior crise econômica em quatro décadas.
As investigações incluem contratos gigantescos, como radares de 360 milhões de euros que não funcionam há mais de dez anos.
O novo governo promete digitalizar todos os processos administrativos para barrar a impunidade e alerta que o valor desviado pode ser ainda maior.
Paz resume a herança recebida: “Roubaram o nosso futuro”.











