Uma semana para esquecer

Na vida política, calmaria eterna não existe, mas a semana de Lula conseguiu elevar a categoria “dias difíceis” a um patamar próprio, daqueles que dispensam qualquer interpretação astrológica.
Bastou olhar o noticiário para perceber que o balanço presidencial veio carregado, pesado, quase pedagógico em sua sucessão de tropeços. E, como se não bastasse, tudo isso embalado por uma pesquisa fresquinha mostrando que o eleitorado anda com saudade de novidade — e com paciência cada vez menor.
A Quaest divulgou nesta quinta-feira números que fariam qualquer marqueteiro pedir reforço emocional. Lula aparece tecnicamente empatado num eventual segundo turno com Jair Bolsonaro — um candidato que, detalhe essencial, está inelegível, ao menos por ora. A conta é simples: 42% contra 39%, dentro da margem de erro. Empatar com alguém que nem pode concorrer é o tipo de constrangimento que não se resolve com slogan.
Para piorar, nomes que vinham mais distantes resolveram encostar. Tarcísio de Freitas e Ratinho Jr. reduziram a diferença para cinco pontos, e até Ciro Gomes encolheu o fosso. E a notícia mais incômoda: quase 60% dos entrevistados não querem Lula de novo na disputa. Um recado claro, quase impaciente, agravado pelas declarações presidenciais sobre a megaoperação no Rio e pela afirmação — que já entrou para os anais do surrealismo — de que traficantes seriam vítimas dos usuários de drogas.
Mas as más notícias começaram um dia antes, quando a Polícia Federal bateu à porta de uma ex-nora do presidente e de um ex-sócio de seu filho, ambos suspeitos de participar de um esquema de fraudes no Ministério da Educação, comandado, sempre é bom lembrar, pelo PT.
Mandados de busca, passaportes apreendidos e um rastro de cerca de 70 milhões de reais destinados a kits escolares que teriam caminhado para superfaturamento e empresas de fachada. O roteiro pareceria exagerado se não fosse corriqueiro no país, mas quando a roda gira tão perto da família presidencial, coincidência deixa de ter cara de coincidência.
E não terminou por aí: uma nova fase da operação “Sem Desconto”, deflagrada nesta quinta-feira, levou à prisão o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, nomeado no atual governo.
Foram nove prisões e 63 mandados de busca e apreensão no bojo da apuração que vem desvendando o roubo de 6,3 bilhões de reais em descontos ilegais sobre aposentadorias e pensões.
As investigações apontam que Stefanutto recebia propina mensal de 250 mil reais de uma das entidades sindicais envolvidas no escândalo — valor digno de executivo da Faria Lima, com a vantagem de não exigir competência técnica.
Junto com ele, caíram ex-diretores, um ex-procurador-geral do INSS, empresários e representantes de organizações que, até ontem, juravam integridade com fervor teatral em comissões parlamentares. O desfecho veio para lembrar que, em Brasília, a verdade costuma ter melhor memória que seus protagonistas.
Para completar o inventário, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, atravessou continentes para participar de uma reunião que durou menos do que muitos áudios de WhatsApp. Cinco minutos com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. O chanceler esperava destravar o tarifaço imposto pelos Estados Unidos; saiu com a promessa vaga de outra reunião em “data próxima”, expressão diplomática para empurrar com a barriga enquanto o parceiro é cozinhado em banho-maria.
No conjunto, o enredo fez novembro parecer um mês especialmente vocacionado para o azar. Lula completou 80 anos em outubro, e astrólogos garantem que o inferno astral costuma anteceder o aniversário. Para o petista, a urucubaca chegou depois da festa.











