Nem tudo está perdido?

A megaoperação da polícia fluminense que desmontou parte da cúpula do Comando Vermelho reacendeu uma velha discussão — e, junto dela, um fio de esperança.
Não apenas porque os traficantes tombados naquela ação eram todos velhos conhecidos da polícia, alvos de mandados e fichas criminais tão extensas quanto os morros que dominavam, mas porque, pela primeira vez em muito tempo, o Estado ousou voltar a ocupar um território que havia sido abandonado à própria sorte.
E é justamente esse reencontro com a autoridade que agora repousa sobre a mesa do ministro Alexandre de Moraes, novo relator da ADPF das Favelas, a controversa decisão do Supremo Tribunal Federal que, em nome de um garantismo travestido de humanidade, praticamente interditou as operações policiais nas comunidades do Rio sob o argumento sanitário da pandemia.
O problema é que a ação, parida em meio ao pânico da Covid e amamentada por ONGs e partidos de esquerda, acabou se tornando, na prática, o salvo-conduto das facções que tomaram de assalto morros, escolas e vidas inteiras, impondo suas próprias leis, seus impostos e sua geografia do medo.
A ausência do Estado transformou favelas em fortalezas, e o silêncio das instituições em cumplicidade disfarçada. O resultado todos conhecem: um país que só entra em certas ruas com autorização do tráfico.
Agora, com a saída de Edson Fachin para a presidência do Supremo, a relatoria dessa ação passou às mãos de Moraes — e é justamente aí que nasce o fio de esperança que até mesmo seus críticos mais implacáveis se permitem cultivar.
Porque, se há algo que distingue Alexandre de Moraes em sua trajetória, é o rigor — aquele que lhe valeu aplausos quando combatia o crime, e condenações quando decidiu aplicar o mesmo ferro em brasa à política.
Ex-promotor, ex-secretário de Segurança de São Paulo e ministro que sempre fez questão de exaltar a coragem das polícias, Moraes foi a voz dissonante num tribunal que preferia teorizar sobre direitos humanos enquanto o tráfico usava helicópteros como mirantes e fuzis como trombetas de poder.
Como registrou o jornalista Renan Ramalho, em levantamento meticuloso publicado pela Gazeta do Povo, o histórico de votos e declarações do ministro revela coerência rara: em todos os momentos decisivos da ADPF das Favelas, Moraes se colocou firmemente ao lado da lei e das forças de segurança.
Foi contra a suspensão das operações; defendeu o uso de helicópteros nas incursões; rejeitou a proibição de atuação próxima a escolas e hospitais — porque, como disse, “a partir do momento em que se veda isso, as milícias e o tráfico utilizarão essas áreas para realizar o crime”.
Defendeu o sigilo dos protocolos de ação para evitar que bandidos armem emboscadas; contestou as tentativas de amarrar as mãos da polícia sob o pretexto de “uso proporcional da força”; e lembrou, com a frieza de quem conhece o terreno, que o criminoso sempre está em vantagem, porque “quem sobe o morro é a polícia, e quem domina o alto é o bandido”.
Em seus votos, Moraes também expôs o retrato incômodo do Brasil que o Supremo fingiu não ver: um país em que mais de 3,7 milhões de pessoas vivem sob o domínio direto de facções — um “estado paralelo”, como ele o chamou — onde se cobram taxas, se ditam regras e se julgam pessoas, enquanto o Estado oficial paga tributos à própria covardia.
Para o ministro, os traficantes e milicianos “escravizam a população”, impõem medo e transformam a vida nas comunidades em “uma moderna forma de servidão”.
Palavras duras, mas necessárias, que destoam da linguagem asséptica e covarde que o Judiciário aprendeu a adotar quando fala de bandidos.
Em abril deste ano, ele foi ainda mais direto: defendeu o uso de “armamento pesado” nas incursões contra o tráfico e as milícias, e criticou o que chamou de “romantização das favelas” — essa lente ideológica que vê poesia onde há domínio armado e miséria programada.
E, em outro voto, lembrou que não há democracia possível quando candidatos precisam pedir permissão ao tráfico para entrar em determinados bairros. “Isso é um atentado à democracia”, disse.
Ao assumir a relatoria da ADPF das Favelas, Moraes herdou, portanto, muito mais que um processo: herdou a responsabilidade de corrigir um equívoco histórico — o de um Supremo que confundiu direitos humanos com direitos de bandidos e que, ao limitar a ação das polícias, abriu caminho para que o crime organizado se tornasse poder paralelo e Estado de fato.
É dele agora a tarefa de julgar se o Brasil seguirá de joelhos diante dos traficantes ou se voltará a caminhar com as próprias pernas.
Mesmo quem não o suporta, quem o vê como o algoz de um ex-presidente, de seus ministros e de centenas de manifestantes condenados com penas desproporcionais, reconhece — ainda que a contragosto — que Moraes tem a chance rara de fazer justiça onde o país mais precisa: nas vielas esquecidas, nos becos tomados, nos territórios onde a polícia ainda morre todos os dias em silêncio.
Eis o paradoxo, a ironia suprema: o mesmo ministro que se tornou símbolo da intolerância política pode, por um capricho do destino, ser o nome a restaurar a coragem das polícias e o respeito à lei onde o Estado deixou de existir.











