OPINIÃO

O brinde que não é pra qualquer taça

O brasileiro tem uma relação curiosa com o Réveillon. Para muitos, é um rito de fé. Para outros, de fuga. Mas, para uma pequena parcela da humanidade — aquela que acredita que o mar é mais azul quando visto da varanda de uma suíte com mordomo —, é sobretudo um espetáculo de distinção.

O país, que às vezes parece dividido entre os que parcelam a ceia no cartão e os que parcelam ilhas, já tem seu circuito de luxo definido para virar o ano. E os preços, claro, são um show à parte.

É a época das “pechinchas” de fim de ano. Pechinchas de seis dígitos, é verdade — mas ainda assim disputadas com fervor. Afinal, o privilégio de brindar 2026 ao som das ondas de uma praia particular custa caro, mas oferece um brinde ainda mais valioso: o da sensação de pertencer a um clube com vagas vitalícias e diárias que ultrapassam os R$ 150 mil.

Em Paraty, por exemplo, há quem alugue a Villa 20, um paraíso com vinte suítes distribuídas em quatro construções independentes, cercadas por 400 mil m² de mata atlântica e servidas por uma equipe digna de hotel cinco estrelas — ou de um pequeno país, dependendo do ponto de vista. O pacote mínimo é de dez noites, modesto requisito para quem dispõe de R$ 1,5 milhão e de uma escuna particular à disposição. O centro histórico fica a dez minutos de barco, mas a tentação de sair dali é tão pequena quanto o troco de quem se hospeda.

Em Angra dos Reis, território onde os iates ancoram como se fossem bicicletas de veraneio, a Villa 31 oferece dez quartos e diárias de R$ 66 mil — com direito a forno a lenha, pôr do sol cinematográfico e a companhia do mar, sempre na medida certa entre o turquesa e o ostentação. Se preferir algo mais “modesto”, a Villa 28, também em Angra, cobra R$ 50 mil por noite e concede aos hóspedes o privilégio de dividir o CEP com o Hotel Fasano. Um detalhe: o pacote mínimo são dez noites, porque requinte, como se sabe, não aceita estadias breves.

Mais ao norte, o conforto sopra de outro jeito. Em Preá, no Ceará, o vento é o protagonista — e também o combustível do esporte da moda, o kitesurfe. A Casa Siará é o refúgio onde se aprende que vento e vaidade podem soprar juntos: diárias de R$ 60 mil para um cenário com academia, piscina, ofurô, sauna e quadras de beach tennis. Tudo isso com staff completo e estrutura de resort, reservada apenas a um grupo por vez. Um pequeno preço para quem não abre mão da exclusividade nem para molhar o pé na areia.

Em São Miguel dos Milagres, em Alagoas, o milagre é caber tanta sofisticação entre o coqueiral e o mar verde-claro. A Villa 2 cobra R$ 60 mil por noite e exige o mínimo de dez dias — ou seja, para quem quiser passar o réveillon e ainda esperar o carnaval por lá, o calendário está a favor. Nove quartos, piscina, equipe dedicada e mar de revista. Um luxo que não se mede em metros quadrados, mas em dígitos bancários.

No sul da Bahia, a Casa Capela, em Serra Grande, parece saída de um sonho tropical de arquitetura natural. Madeira de demolição, bambu, oca de piaçava, praia praticamente privativa e um time que faz da hospitalidade uma religião. O pacote começa em R$ 50 mil por noite. E é preciso garantir ao menos sete delas para desfrutar do privilégio de não fazer absolutamente nada — com estilo.

Já quem prefere trocar o sal pelo cerrado encontra na Casa Paraíso, na Chapada dos Veadeiros, um santuário suspenso sobre a natureza. Por R$ 49,5 mil a diária, o hóspede se permite o luxo de observar o silêncio de cima de uma colina, entre redes, decks e um horizonte que parece não ter pressa. A estadia mínima é de sete noites — talvez para dar tempo de o visitante entender, enfim, por que o paraíso cobra tão caro.

E assim o Brasil se divide: uns contando os dias para o décimo terceiro cair, outros calculando quantas suítes cabem na propriedade.

De um lado, o brinde com espumante nacional; do outro, o champanhe servido por um sommelier pessoal.

Mas a esperança, em ambos os mundos, continua sendo a mesma — que o novo ano traga alguma forma de melhora, ainda que, para alguns, isso signifique apenas mais uma piscina de borda infinita.

No fim, o réveillon dos milionários não foge ao ritual coletivo do país: celebra a virada. Só que com garçom particular, fogos privativos e a certeza de que o futuro, pra eles, já chegou.

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