A ressurreição segundo o PT

Uma candidatura emblemática desponta no horizonte eleitoral de 2026.
André Vargas, o primeiro político condenado na Operação Lava Jato, volta à cena pública com a serenidade de quem cumpriu três anos e meio de pena no Complexo Médico Penal de Pinhais — aquele endereço que, embora tenha o nome de prisão, sempre ofereceu um padrão mais confortável para hóspedes ilustres.
Agora, o ex-vice-presidente da Câmara dos Deputados ressurge com o mesmo entusiasmo dos tempos de poder, como se nada tivesse acontecido — ou, talvez, como se tudo tivesse sido apenas um grande mal-entendido histórico.
Condenado em três processos por corrupção e lavagem de dinheiro — penas que somavam 24 anos e dez meses —, Vargas está de volta, belo e formoso, ao partido que um dia o expulsou por excesso de escândalo.
Na época, o PT temia que sua amizade com o doleiro Alberto Youssef atrapalhasse a reeleição de Dilma Rousseff.
Mas o mesmo PT o acolheu de braços abertos, com cargo, tapete vermelho e aplausos discretos: um retorno digno de telenovela, com trilha sonora de redenção.
O presidente estadual da legenda, Arilson Chiorato, resume com naturalidade tropical: “É uma vontade dele. Ele se colocou como pré-candidato e, estando em dia com a questão jurídica, tem chances de disputa.”
Simples assim — quem um dia lavou dinheiro, hoje lava a própria biografia.
Depois de um breve retiro espiritual em Ibiporã, dedicando-se à vida plácida da agricultura, Vargas reassume o posto de estrategista político.
Vai “organizar as chapas” e “reconstruir o partido no estado”, anuncia o comando petista, como se a simbologia disso não fosse perfeita: o primeiro condenado da Lava Jato, agora encarregado de reerguer a sigla que protagonizou o Petrolão.
É ou não é uma metáfora viva?
Os fatos jurídicos também colaboraram com o roteiro.
Depois de três condenações e uma temporada no Complexo Médico Penal, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região absolveu Vargas em um dos processos.
Nas demais, o Supremo Tribunal Federal declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba — e, com um carimbo mágico, anulou os atos e devolveu o político à vida civil.
A justiça brasileira, sempre pródiga em milagres, inventou uma nova categoria de beatificação: a descondenação.
Assim, o homem que renunciou ao cargo de vice-presidente da Câmara para não ser cassado, e acabou cassado mesmo, voltou como secretário-geral do partido que o renegou.
O tempo, no Brasil, não cura feridas — cura prontuários.
E como Vargas não é de pensar pequeno, já mira 2026.
Quer se candidatar novamente a deputado federal.
Uma candidatura emblemática, por ser o primeiro condenado da Lava Jato — e agora apenas mais um entre tantos reabilitados pela generosa engrenagem da descondenação nacional.
Depois de Lula, o chefe do esquema que voltou à Presidência, e de tantos outros companheiros reintegrados à vida pública, André Vargas completa o ciclo com perfeição: o círculo da impunidade fecha-se em tom de celebração.
Mais um a provar que, no Brasil, o crime não apenas compensa — ele premia.
Se vencer, o ex-deputado que um dia foi vice-presidente da Câmara pode até sonhar mais alto.
Por que não presidir a Casa que o cassou, em nome da reparação histórica dos injustiçados da corrupção?











