OPINIÃO

Ruim com ele, mas pior – muito pior – sem ele

Contra previsões, pesquisas e o pessimismo de uma imprensa já pronta para redigir seu epitáfio político, Javier Milei ressurgiu das cinzas como um vulcão eleitoral. Transformou o que parecia um revés inevitável — a derrota recente na província de Buenos Aires — em uma retumbante vitória nacional. Em vez de sucumbir às circunstâncias, apostou tudo na roleta da convicção: ou Milei, ou nada. E ganhou.

A eleição, que renovou metade do Senado e um terço da Câmara dos Deputados, redefiniu o tabuleiro político argentino. Seu partido, A Liberdade Avança, conquistou quase 41% dos votos, deixando o kirchnerismo a nove pontos de distância e calando os arautos da decadência que vaticinavam o seu fim. Foi uma surra nas urnas e, mais que isso, um recado eloquente de uma Argentina que, mesmo cansada e empobrecida, preferiu dar nova chance a quem promete demolir o velho templo do populismo.

Quando Milei assumiu a presidência, herdou uma inflação que devorava mais de 25% do poder de compra dos argentinos a cada mês — uma tragédia econômica que havia condenado o país à mendicância institucional. Em menos de um ano, conseguiu reduzir o índice para algo em torno de 2,5% mensais, ainda alto, mas incomparavelmente menor. Fez isso à custa de uma política fiscal dura, impopular, mas eficaz. A pobreza extrema, que ultrapassava a metade da população, começou a ceder de forma expressiva, e a Argentina, pela primeira vez em décadas, voltou a inspirar credibilidade entre credores internacionais e mercados financeiros.

O país que se acostumara à desconfiança voltou a ser visto como alguém capaz de pagar a própria conta.

Ainda que a inflação continue a corroer bolsos e paciências, Milei colheu o crédito por ter, enfim, imposto disciplina ao Estado. Cortou desperdícios, reduziu subsídios e exonerou milhares de servidores públicos cuja utilidade se limitava ao compadrio político — resquício do empreguismo típico do peronismo. Mesmo sob denúncias que respingaram até na irmã, reverteu o humor de um país que parecia condenado ao colapso.

Sua vitória é, portanto, menos um prêmio e mais uma trégua concedida pela sociedade: dois anos restantes de mandato para tentar reconstruir a Argentina antes que ela volte a naufragar no pântano do peronismo.

Mas o alcance desse resultado ultrapassa as fronteiras do Prata. A onda libertária que varreu o Congresso argentino sopra também sobre o continente, reacendendo o ânimo de uma direita que parecia acuada entre derrotas e narrativas. Depois da vitória inédita de um governo conservador na Bolívia e às vésperas da eleição brasileira de 2026, Milei tornou-se o novo farol ideológico da região — um farol meio tresloucado, é verdade, mas que brilha em meio às trevas de modelos falidos.

Há, por fim, uma lição que atravessa décadas e oceanos.

Em 1992, o estrategista James Carville pregou na parede do comitê de Bill Clinton um lembrete que virou dogma universal: “It’s the economy, stupid.” Pois na Argentina de 2025, o enredo se repete em versão portenha.

Quando o bolso fala mais alto que os dogmas, nem as falsas promessas peronistas resistem. No fim das contas, Milei venceu porque a economia — essa velha senhora impaciente — continua sendo o juiz supremo das democracias. E, como diria Carville, é sempre ela, a economia, estúpido.

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