OPINIÃO

Entre monstros. Ele sobreviveu ao Hamas.

Quando faltavam poucos dias para o segundo aniversário dos massacres de 7 de outubro de 2023, o israelense Eli Sharabi — um dos reféns sequestrados pelo Hamas — escreveu para o Washington Post um relato que dispensa adjetivos: é o testemunho cru de um homem que passou 491 dias em cativeiro nas entranhas do terror e sobreviveu para contar o que viu.

Ele foi libertado em fevereiro, mas carrega dentro de si o eco dos gritos, o peso das cordas e o cheiro do esgoto que impregnou a alma de quem enfrentou o inferno e voltou.

Naquela manhã, quando os terroristas invadiram o kibutz Be’eri, Eli se escondeu com a esposa, Lianne, e as filhas, Noiya e Yahel, no abrigo da casa. Em meio ao barulho dos tiros e das chamas, tomou a decisão que acreditou ser a salvação da família: entregar-se, na esperança de que poupassem as três.

Foi arrastado, amarrado e levado para Gaza. Não sabia que, no mesmo instante, sua mulher e suas filhas já haviam sido brutalmente assassinadas. Viveu por quase um ano e meio alimentado pela ilusão de revê-las, a esperança que o manteve vivo — até o momento da libertação, quando a verdade o atingiu com a força de uma nova sentença.

Os primeiros 51 dias ele passou no porão de uma casa em Gaza, sob o teto de uma família comum. No andar de cima, a vida corria normalmente: refeições, tarefas escolares, orações. No subterrâneo, ele permanecia deitado, amarrado, esquecido. Conversava com os sequestradores e, falando árabe, compreendia suas conversas — entre o fanatismo ideológico e o oportunismo econômico.

Um dizia que os judeus deveriam “voltar para o Marrocos ou o Iêmen”. Outro recitava os dogmas do Hamas, negando a existência de Israel. Havia os que se juntaram ao grupo não por convicção, mas por conveniência — pelo poder e pelo dinheiro. Mas o refém percebeu que, por trás de todas as justificativas, havia algo mais primitivo e aterrador: o prazer de matar. O ódio como religião, a morte como culto.

No 52º dia, ele foi transferido para um túnel fétido, onde as condições se tornaram desumanas. Passou a dividir o espaço com outros seis reféns israelenses. A fome, as doenças e o cheiro do esgoto eram parte da rotina. Viu companheiros serem levados e nunca mais voltarem.

As algemas nos tornozelos, os espancamentos e humilhações constantes eram agravados por uma tortura psicológica macabra: os captores assistiam aos vídeos do massacre de 7 de outubro — e riam. “Ver as imagens parecia revigorá-los”, escreve ele. Um retrato fiel de um grupo que adora a morte e teme a vida.

Quando finalmente foi libertado, em meio a uma encenação pública, o espetáculo era grotesco. Multidões de homens, mulheres e crianças de Gaza celebravam, entoando gritos de “Allahu akbar!”, enquanto os reféns eram exibidos como troféus humanos.

Forçado a repetir frases contra Israel e a declarar que estava “ansioso para rever” sua esposa e suas filhas — que já estavam mortas —, Eli experimentou o requinte máximo da crueldade.

Em seu artigo, ele escreve que “a crueldade dos meus captores revelou uma obsessão pela morte” e adverte que “uma paz duradoura exigirá mais do que diplomacia”.

São palavras que atravessam o tempo e o espaço, como um alerta ao mundo distraído: não há causa, não há resistência, não há política que explique tamanha barbárie. O Hamas não liberta o povo palestino — ele o aprisiona. Não luta por um Estado — destrói os alicerces de qualquer convivência. O que o move não é fé, é fanatismo; não é justiça, é ódio. E o ódio, quando se torna ideologia, transforma homens em monstros.

A história de Eli Sharabi é o retrato daquilo que o Ocidente teima em não enxergar: não estamos diante de uma disputa territorial, mas de um confronto entre a civilização que celebra a vida e a barbárie que venera a morte.

Ele sobreviveu ao horror para dizer ao mundo que a verdadeira paz só florescerá quando essa ideologia for derrotada — e quando o amor pela vida voltar a ser a nossa causa comum.

Artigos relacionados

Um Comentário

  1. Excelente. Seus artigos externam exatamente o que pensa um grande número de pessoas. Parabéns.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo