Crônica de uma nação em sobressalto

Mais uma vez, o renomado e respeitado jornalista Alexandre Garcia nos brinda com um artigo impecável — desses raros textos que condensam argúcia, coragem e sensibilidade em cada linha.
Em “Nativos inquietos”, ele escreve o que muitos pensam, mas poucos ousam dizer: que o Brasil vive um tempo de incertezas, autoritarismo e engano coletivo, em que até o passado, como ironiza, parece imprevisível.
Logo na abertura, Garcia costura as imagens do rés-do-chão e das torres de marfim. Lá embaixo, agricultores desesperados filmam o mamão maduro que se perde, a manga que apodrece sem comprador, o arroz despejado diante do Banco do Brasil.
Lá em cima, no Supremo, copos d’água e lágrimas dividem a cena entre Fux e Gilmar em mais um bate-boca de egos togados. O Brasil, inteiro, parece inquieto — do campo à cúpula.
O autor avança: mostra o Palácio do Planalto tomado por reações químicas de raiva depois que o chanceler Mauro Vieira relatou ao presidente Lula a conversa que teve a sós com o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio.
No dia seguinte, o presidente vociferava em São Bernardo: “Nunca mais um presidente de outro país ousará falar grosso com o Brasil!” — bravata vazia que, nas palavras de Garcia, produziu apenas “espuma da raiva”.
No solo gaúcho, ele lembra, 25 produtores rurais desistiram da vida, esmagados por dívidas impagáveis.
No topo da torre, o ministro Barroso também “desertou” antes da hora, alegando exaustão. Os exemplos se cruzam como retrato de um país exaurido — uns por falta de dinheiro, outros por falta de consciência.
Garcia não poupa o Supremo, ao recordar que oito ministros já não podem mais entrar nos Estados Unidos, experimentando na pele o que é o arbítrio — mas, lá, um arbítrio administrativo e legítimo; aqui, o arbítrio togado, incompatível com o devido processo legal.
A comparação é cirúrgica: “A sanção veio de um país cujas leis são modelo de democracia, direitos humanos e liberdade de expressão. Aqui também temos uma Constituição — prolixa o suficiente para evitar interpretações que negam o que está escrito.”
Em seguida, o jornalista desloca o foco para o Executivo.
Registra, estarrecido, a cena em que o próprio presidente da República, diante do presidente da Câmara, diz que “esse Congresso nunca teve a qualidade de baixo nível que tem agora”.
Em meio século de Brasília, confessa Garcia, jamais ouvira tamanho desprezo ao Poder que representa o povo.
O Congresso, acuado, ensaia respostas que nunca vêm.
E então vem o diagnóstico final — um dos parágrafos mais duros e verdadeiros já escritos sobre o Brasil recente: “Parece que estamos todos nos enganando, fingimos acreditar quando sabemos que são deslavadas mentiras.”
Mentiras que a mídia repete até ganharem verniz de verdade. Mentiras que condenam inocentes, distorcem fatos, paralisam consciências. Mentiras que pagamos caro, sustentando um Estado que não retribui, um governo que promete e não entrega, uma Justiça que julga de costas para a lei.
Alexandre Garcia fecha o artigo dizendo que, no fim, estamos todos inquietos — tão inquietos quanto os que nos governam e os que nos julgam. E é essa inquietação que o move, e que move quem ainda resiste à anestesia coletiva.
O texto é, mais que um retrato, um aviso. Uma crônica de lucidez num país que desaprendeu a dormir tranquilo, mas ainda sonha com o dia em que a verdade volte a ser dita sem medo.
Bravo, Alexandre Garcia.











