O Brasil que se perde pelo caminho

Há um Brasil que não aparece nas manchetes, mas se dissolve todos os dias no barro das estradas vicinais.
Um país que trabalha, colhe, produz, exporta e sustenta a economia — mas que segue tropeçando na lama do próprio descuido.
É o retrato revelado por um estudo da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) em parceria com o Grupo de Logística Agroindustrial da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-Log/USP): o agronegócio brasileiro poderia reduzir até R$ 6,4 bilhões por ano em custos de transporte com a melhoria das estradas rurais.
Essas vias, chamadas vicinais — os quase invisíveis 2,2 milhões de quilômetros que ligam o campo ao asfalto, as fazendas aos armazéns, os produtores aos centros urbanos — são o sistema circulatório de um dos maiores produtores de alimentos do planeta.
Por elas passam, anualmente, 1,4 bilhão de toneladas de produtos do agro, do milho à soja, da cana à carne, da madeira ao leite.
E é nesse labirinto de chão batido, esburacado e abandonado que se esvai parte da riqueza nacional.
O levantamento mostra que o transporte por essas estradas custa ao país 16,2 bilhões de reais por ano — entre combustível, manutenção, insumos e mão de obra — e que um terço desse valor poderia ser reduzido com investimentos mínimos em infraestrutura.
Com um padrão de qualidade médio, a economia chegaria a 2,7 bilhões de reais (-16,9%); num padrão superior, o ganho seria ainda mais expressivo: 6,4 bilhões (-39,7%).
É o que os pesquisadores chamam de “dinheiro na mesa”: recursos que o Brasil simplesmente deixa de aproveitar por negligência, má gestão e falta de planejamento.
“Estamos falando de um valor que representa menos de um terço do custo anual causado pelas más condições dessas vias”, lembra Elisângela Pereira Lopes, da CNA.
O agrônomo Thiago Péra, coordenador do Esalq-Log, resume o absurdo com uma frase certeira: há bilhões sendo desperdiçados na poeira que cobre as estradas do agro.
O estudo vai além da planilha econômica. Mostra também o impacto ambiental: o atual estado das vicinais gera 3 milhões de toneladas de CO₂ por ano, número que cairia em até 1 milhão de toneladas caso as estradas fossem adequadas a um padrão de qualidade elevado.
Ou seja: o mesmo país que discute sustentabilidade nas conferências internacionais não cuida do caminho por onde o alimento sustentável precisa passar.
Entre os setores mais castigados, a cana-de-açúcar lidera as perdas — 2,4 bilhões de reais anuais. Em seguida vêm milho e soja (2,1 bilhões), produção animal (865 milhões) e o setor florestal (318 milhões).
Para identificar onde investir primeiro, os pesquisadores criaram o Índice de Priorização das Estradas Vicinais (Ipev), que considera fatores econômicos, sociais, ambientais e de infraestrutura. O resultado: 177 microrregiões brasileiras estão em situação de alta prioridade, somando 1,1 milhão de quilômetros de estradas que precisam urgentemente ser recuperadas.
O investimento necessário para adequar apenas as estradas mais críticas seria de 4,9 bilhões de reais anuais — um valor perfeitamente viável diante do que se gasta hoje.
E mais: o custo de manutenção de uma estrada rural em bom estado é estimado em 35 mil reais por quilômetro ao ano. Parece muito? É pouco diante dos 16 bilhões que o país despende todos os anos, vendo sua produção encalhar antes de chegar ao porto.
Durante o trabalho de campo, as equipes da CNA e da Esalq-Log percorreram 1.200 quilômetros de vicinais em oito estados — Bahia, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará e Paraná.
Encontraram buracos, erosões, atoleiros, pontes precárias e o mesmo diagnóstico em todas as entrevistas: falta de orçamento, de planejamento e de gente qualificada para executar as obras.
Em outras palavras: o Brasil não perde apenas o que não colhe — perde também o que não consegue transportar.
No mapa da nação, há um Brasil que voa de avião para discutir produtividade e outro que empurra caminhão na lama para tentar produzi-la. Entre um e outro, não há ideologia, há infraestrutura — ou a falta dela.
Ainda assim, mesmo diante de tantas adversidades, que se somam a um governo que os hostiliza frequentemente, os agricultores brasileiros fazem do país uma potência mundial na produção de alimentos.
São uns verdadeiros heróis.











