OPINIÃO

O que Rubio disse a Mauro Vieira no “tête-à-tête”?

Na diplomacia, há palavras que servem apenas para não dizer nada.

Na quinta-feira (16), em Washington, o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado Marco Rubio protagonizaram o que os comunicados oficiais chamaram de “um encontro produtivo”.

Produtivo, no léxico das chancelarias, costuma significar exatamente o oposto: nada foi resolvido, mas todos fingiram civilidade.

O curioso — ou conveniente — é que a reunião aconteceu apenas 24 horas depois de o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, ter revelado o verdadeiro estado das coisas.

Na quarta-feira (15), com a franqueza que a diplomacia americana reserva aos desentendidos, Greer explicou que as novas tarifas contra o Brasil — 10% de reciprocidade e 40% de punição — não são sobre economia, mas sobre política.

E política pesada: “sérias preocupações com o Estado de Direito, censura e direitos humanos”.

Traduzindo do diplomatiquês, a Casa Branca está mirando a toga que censura, prende e cala.

Greer não precisou citar nomes.

Quando mencionou que “um juiz brasileiro assumiu para si o poder de ordenar que empresas americanas se autocensurem”, ninguém em Washington e Brasília precisou de legenda.

O secretário de Comércio, Scott Bessent, foi além, lembrando a “detenção ilegal de cidadãos americanos” no Brasil — um lembrete de que os excessos judiciais deixaram de ser assunto interno há tempos.

No dia seguinte, as câmeras registraram sorrisos, aperto de mão e um tom ameno — o mesmo tipo de serenidade que antecede um veredito ruim.

Durante vinte minutos, Rubio e Vieira conversaram a sós, sem tradutores nem testemunhas. Vieira garantiu depois que “nem Bolsonaro foi mencionado”. Claro — é justamente por isso que a conversa privada existiu.

Inocência é acreditar que, depois das declarações duríssimas da véspera, Rubio tenha se limitado a falar de turismo e caipirinha.

Aqueles vinte minutos serviram, sim, para dizer tudo o que não cabia no protocolo.

Nada foi dito nos comunicados, e é justamente aí que mora o que importa.

As tarifas continuam, as sanções seguem, e o desconforto americano com o autoritarismo togado brasileiro permanece — assim como o desagrado do governo Trump com o esquerdismo de Lula, seu alinhamento servil a regimes hostis ao Ocidente e a cumplicidade vergonhosa com ditaduras como as da China, Rússia, Irã, Venezuela e Cuba — esta última, aliás, de onde os pais de Marco Rubio fugiram, exilados do regime castrista que o petismo ainda trata como irmão ideológico.

Some-se a isso o papel constrangedor do Brasil na guerra da Ucrânia, em que Lula se esmera em culpar o país agredido e poupar o agressor, e sua complacência com o terror do Oriente Médio — onde jamais escondeu a simpatia pelos carrascos do Hamas e do Hezbollah.

Um retrato diplomático que, para os Estados Unidos, cheira a alinhamento ideológico e a deserção moral.

No fim, o retrato é perfeito para o álbum das hipocrisias internacionais: sorrisos diplomáticos emoldurando desconfianças profundas.

A diplomacia serve, afinal, para isso — para transformar insultos em comunicados, censura em “preocupação mútua” e divergências abissais em “diálogo produtivo”.

E acreditar que, da noite para o dia, os Estados Unidos esqueceram tudo e voltaram às boas com o Brasil é mais do que ingenuidade — é fantasia tropical. É espantoso que a grande imprensa tenha comprado facilmente tamanha lorota. Talvez explique-se por outros motivos.

Trump não dá ponto sem nó: só sentará à mesa com Lula quando as exigências americanas estiverem atendidas. A química boa que o americano disse ter sentido ao cumprimentar o petista na assembleia da ONU é conversa pra boi dormir.

Até lá, o que veremos é Trump cozinhando Lula em banho-maria.

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