OPINIÃO

O Nobel que desmascarou os falsos democratas

O Prêmio Nobel da Paz, que todos os anos desperta expectativas e controvérsias em igual medida, voltou a surpreender.

Desta vez, não apenas pelo nome laureado, mas pelo peso simbólico da escolha.

A premiação de María Corina Machado, a líder venezuelana impedida de concorrer e perseguida pelo regime de Nicolás Maduro, foi recebida como um gesto de apoio explícito à resistência democrática na América Latina.

Em seu discurso, María Corina dedicou o prêmio a Donald Trump, que tem sido um dos principais aliados internacionais da oposição venezuelana, exercendo forte pressão política e econômica contra a ditadura chavista.

Trump, que trabalhou pelo cessar-fogo entre Israel e Hamas, não era o favorito desta edição, mas figurava entre os possíveis nomes mencionados pelo comitê.

Se a trégua que ele costurou resistir ao tempo e se, como promete, avançar também para encerrar o conflito entre Rússia e Ucrânia, dificilmente deixará de ser agraciado no próximo ano.

Mas havia outro candidato informal — ainda que disfarçado: Luiz Inácio Lula da Silva.

Desde o início deste terceiro mandato, o petista percorreu o planeta como quem busca não apenas aplausos, mas absolvição.

Depois de ser preso por corrupção e ter as condenações anuladas por artimanhas processuais, embarcou em uma pretensão delirante de “mediação global”, tentando se reinventar como pacificador universal.

A ideia parecia nobre: limpar a biografia com passaporte diplomático e colher, de quebra, um prêmio que lavasse o passado.

Mas a fantasia esbarrou na realidade.

Para mediar, é preciso escolher o lado certo da história — e Lula escolheu todos os errados.

A megalomania de se imaginar um novo Mandela só fez expor, mais uma vez, o descompasso entre o discurso e os fatos.

Na invasão da Ucrânia pela Rússia, preferiu culpar a vítima, tratando a ofensiva expansionista de Vladimir Putin como um mal-entendido geopolítico. Ignorou os apelos de Volodymyr Zelensky e das democracias europeias, que esperavam do Brasil um gesto mínimo de solidariedade com quem sangra pela própria soberania.

No Oriente Médio, foi ainda pior: titubeou diante das atrocidades cometidas pelo Hamas contra Israel, condenando-as entre vírgulas e condicionantes, e poupou o Irã, patrocinador notório do terrorismo, de qualquer palavra dura. Em vez de diplomacia, exibiu complacência. Em vez de neutralidade, conivência.

Na América do Sul, o enredo se repetiu.

Em 2023, Lula estendeu tapete vermelho em Brasília para Nicolás Maduro, a quem tratou como chefe de Estado legítimo.

Um ano depois, o ditador venezuelano voltou a fraudar as eleições, impedindo María Corina Machado de concorrer e cassando até a vitória de Edmundo González, candidato de oposição autorizado apenas porque parecia fraco demais para vencer.

O resultado: o fraco ganhou, o regime roubou, e a Venezuela mergulhou mais fundo na tirania.

A ironia final veio nesta sexta-feira (10), quando o mundo livre celebrou o Nobel concedido justamente à líder que Lula fingiu não ver — a mesma María Corina que o procurou pedindo mediação e foi solenemente ignorada.

O Nobel que Lula queria foi parar nas mãos da mulher cujo nome ele se recusa a pronunciar.

Por quê? Covardia diplomática? Subserviência a Maduro? Ou medo de contrariar um aliado que tanto lhe deve — ou a quem ele deve tanto?

Seja qual for a explicação, é incompreensível para quem se diz defensor da democracia.

E, como se não bastasse o silêncio comprometedor, outros já falaram por ele: a militância de esquerda, seus porta-vozes oficiais e até o presidente colombiano Gustavo Petro, apressaram-se em desqualificar a escolha do Comitê do Nobel.

Confirmaram, com essas manifestações reveladoras, que o prêmio acertou em cheio.

Como se fosse pouco a leniência com ditadores, Lula ainda encontrou tempo para um gesto de camaradagem entre corruptos: mandou aviões da FAB buscar no Peru a ex-primeira-dama Nadine Heredia Alarcón, condenada pela Justiça a 15 anos de prisão por lavagem de dinheiro e beneficiada pelo asilo concedido no Brasil — um ato de caridade internacional entre parceiros de escândalos ligados à Odebrecht, a mesma rede de corrupção que o levou à prisão.

Mais um lado errado da história em que o Brasil foi vergonhosamente colocado por decisão pessoal do presidente ungido pelas urnas eletrônicas.

A verdade é que o discurso de Lula em defesa da democracia é de ocasião — uma fantasia diplomática que se desmancha na primeira escala em Caracas, Moscou ou Teerã.

O Nobel concedido a María Corina Machado é mais que uma honraria: é um lembrete.

Lembrete de que a paz não nasce da conveniência, mas da coragem.

E que, por mais viagens, fóruns e declarações eloquentes que acumule, Lula será lembrado não como negociador da paz, mas como cúmplice dos que a destroem.

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