OPINIÃO

Bloco de Notas

1 – O luxo e a lama

Entre as extravagâncias da “Farra do INSS”, a mais recente parece saída de um roteiro de realismo mágico — só que bancado com dinheiro público.

A mulher do ex-procurador-geral do INSS, Virgílio Filho, um dos alvos da operação Sem Desconto da Polícia Federal, chegou a reservar para compra um apartamento de R$ 28 milhões no Senna Tower, o edifício que disputa o título de prédio residencial mais alto do mundo, em Balneário Camboriú.

O contrato, formalizado em novembro do ano passado, acabou sendo desfeito pela incorporadora, temerosa de que o imóvel viesse a ser bloqueado judicialmente. Mas o simples fato de uma servidora pública cogitar tamanha extravagância é, por si só, um retrato do desvio de proporções bíblicas que tomou conta do INSS.

A Controladoria-Geral da União já havia identificado um acréscimo patrimonial de R$ 18 milhões em nome de Virgílio Filho, que durante sua gestão atuou para liberar bloqueios em massa de benefícios de aposentados em favor da CONTAG — uma canetada que contrariava os pareceres técnicos do órgão.

Enquanto isso, sua esposa comprava imóveis à vista em Curitiba e em Brasília, às margens do Lago Paranoá, num padrão de vida difícil de justificar com salário de servidor.

Mas a história ganha um contorno ainda mais simbólico quando observada à distância.

Balneário Camboriú tornou-se, nos últimos anos, a Meca da lavagem de dinheiro imobiliária, com arranha-céus babilônicos brotando à beira-mar em velocidade suspeita.

Construtoras que parecem fundir concreto com silêncio, e apartamentos que brilham mais no papel do que na ocupação. O caso de Thaisa Hoffmann é só mais uma peça nesse quebra-cabeça de luxo e lama — onde o Brasil se vê refletido num espelho de vidro fumê e moral turva.

2 – O vexame industrial americano

Foi em Detroit, berço da indústria automobilística e símbolo da ascensão americana, que o CEO da Ford, Jim Farley, desabafou diante de centenas de empresários: “É humilhante olhar onde estamos em comparação à China”. A frase ecoou como confissão pública de decadência.

Farley admitiu que os Estados Unidos estão ficando para trás em produtividade, tecnologia e até em orgulho industrial — e pediu um choque de realidade no setor produtivo. Para ele, a China, Coreia e Japão fazem o que os EUA desaprenderam: investem pesado em manufatura e em políticas de Estado que tratam o emprego industrial como ativo estratégico.

O executivo, em tom pragmático, ainda reconheceu que a política de tarifas de Donald Trump, tão criticada à época, teve uma lógica de sobrevivência: forçar as empresas americanas a voltarem para casa, sob pena de se tornarem reféns da Ásia.

Nos bastidores, o que se viu foi a elite empresarial americana admitindo, meio envergonhada, que a globalização deu errado — ao menos para eles.

O que antes era arrogância virou autocrítica. Quando o CEO da Ford chama de “humilhante” a dependência dos EUA da manufatura chinesa, é sinal de que o capitalismo americano, outrora triunfante, hoje pede ajuda de guincho.

3 – Barroso nas alturas

O ministro Luís Roberto Barroso encerrou seu mandato como presidente do Supremo Tribunal Federal no mesmo patamar em que o exerceu: nas alturas.

Levantamento revela que ele gastou R$ 5,9 milhões em viagens de jatinhos da FAB, apenas com hora de voo, durante os dois anos de gestão. Os valores não incluem hospedagem, alimentação e diárias, que, claro, também não saíram do bolso do ministro.

As viagens foram muitas, dentro e fora do país — seminários, palestras, congressos e solenidades, quase sempre com pautas progressistas: meio ambiente, minorias, redes sociais e democracia. Em cada escala, uma condecoração, uma homenagem, um discurso sobre ética e República. Tudo pago pelo contribuinte.

No exterior, apenas duas viagens oficiais em jato da FAB, mas no Brasil, Barroso literalmente deitou e rolou — ou melhor, decolou. Em tempos de pregação pela moderação institucional, o STF continua pairando sobre o povo, mas a quilômetros de distância.

Entre as nuvens e os aplausos, a toga virou asa — e o bom senso, paraquedas.

4 – Soros: o mecenas da esquerda global

Quando se fala em George Soros, a fronteira entre filantropia e ideologia se dissolve. O bilionário húngaro, por meio da Open Society Foundations, enviou R$ 153 milhões a ONGs brasileiras só em 2024, segundo levantamento do Instituto Monte Castelo. O total destinado ao país desde 2016 já beira R$ 800 milhões.

Entre os beneficiados, figuram entidades de “direitos humanos”, “comunicação social” e “educação crítica”, todas orbitando a esquerda acadêmica e política.

Nada de ilegal — apenas muito conveniente. O mesmo Soros que financia ativismo ambiental e campanhas de diversidade também destinou R$ 800 mil a um filme da Netflix que demoniza evangélicos. E, pasme, R$ 4,3 milhões à Estação Primeira de Mangueira, intermediados pelo petista Marcelo Freixo, atual presidente da Embratur.

Chama-se “apoio geral”, mas o apoio parece sempre pender para o mesmo lado. O discurso é de pluralidade; o destino, de homogeneidade ideológica. Soros não investe em ideias, mas em causas — e, de preferência, as que dançam conforme a música do progressismo global. No carnaval da moral pós-moderna, o bilionário comanda o samba.

5 – Cataratas em alta, turismo em festa

O Parque Nacional do Iguaçu segue provando que quando há gestão e visão, o Brasil dá certo. Em setembro, as Cataratas registraram 157 mil turistas de 114 países, superando em 10% o total do mesmo mês do ano anterior. No acumulado do ano, já são quase 1,5 milhão de visitantes.

O sucesso é reflexo direto dos investimentos e da modernização promovida pela Urbia Cataratas, concessionária que administra o atrativo e promete R$ 600 milhões em melhorias até 2030. As novas opções gastronômicas — o Restaurante Cocar, no Centro de Visitantes, e o Canoas Mirim, no espaço Porto Canoas — somam-se à revitalização do tradicional Porto Canoas, cartão-postal com vista para as quedas.

Mas o feito vai além dos números: é o reconhecimento internacional de um destino que une natureza, estrutura e sustentabilidade.

6 – Fachin, o moderado de unhas afiadas

Bastou assumir o comando do Supremo Tribunal Federal para o ministro Edson Fachin mostrar que a toga pode até mudar de ombros, mas o instinto de casta permanece.

Depois de discursar em Foz do Iguaçu sobre “contenção” e “respeito entre os Poderes”, Fachin afirmou que o STF “não permitirá” nenhuma reforma administrativa que altere a autonomia e os privilégios da magistratura.

A reforma, uma das mais urgentes para o equilíbrio fiscal do país, sequer chegou ao plenário — mas já encontrou resistência antecipada. Fachin disse sentir “perturbação” com o debate. O mesmo ministro que prega diálogo e ponderação soa agora como guardião dos penduricalhos e protetor dos próprios pares.

Na retórica, ele oferece conciliação. Na prática, estende um tapete de veludo sobre a corporação judicial. O discurso da “moderação” dura até o momento em que alguém ousa tocar no contracheque.

Aí, como se diz no interior, o galo canta — e arranha.

7 – Pedágio eletrônico: a estrada da modernidade

Eis que Paraná entra, enfim, na era dos pedágios eletrônicos — e quem puxa o pelotão é a EPR Iguaçu, concessionária responsável por 662 quilômetros de rodovias no Oeste e Sudoeste do Estado.

Autorizada pela ANTT, a empresa inicia agora a instalação dos primeiros pórticos automatizados, modelo que elimina as velhas praças de cobrança e permite que o motorista siga viagem sem precisar parar — nem abrir o vidro.

Os diretores da concessionária explicam que o novo sistema trará fluidez, segurança e sustentabilidade. A cobrança será feita por câmeras e sensores, de forma automática, com tarifas fixas previstas no contrato.

“É um sistema que garante mais conforto e eficiência”, resume o diretor-executivo Sílvio Caldas. O diretor-presidente Marcos Moreira reforça: o modelo está alinhado às tendências internacionais de mobilidade inteligente e simboliza um salto de modernização da infraestrutura rodoviária paranaense.

Os primeiros pórticos serão instalados em Lindoeste, na BR-163, entre Pato Branco e Vitorino, na PR-280, e em Ampére, na PR-182.

É a tecnologia chegando para impulsionar ainda mais a infraestrutura rodoviária do Estado que, com as obras das concessões, terá padrão de primeiro mundo.

8 – O Festval toma conta da Osório

Em Curitiba, o tempo costuma girar em torno da Praça Osório — e agora, a história também. A Rede Festval, nascida em Cascavel, abre sua nova loja no coração da capital, ocupando um prédio tombado que já foi endereço de uma das primeiras unidades do lendário Mercadorama, inaugurada em 1972.

O imóvel, que resistiu a meio século de transformações, renasce agora como símbolo de um varejo que une memória e modernidade.

A escolha do local não é casual. Naquele mesmo ano, Jaime Lerner criava o primeiro calçadão do país, entre as praças Osório e Santos Andrade, reinventando o centro da cidade.

O novo Festval, com mil metros quadrados, adega, floricultura, padaria e self-checkouts, chega para reviver esse espírito de inovação urbana, oferecendo conveniência e qualidade no ritmo do centro curitibano.

Carlos Beal, diretor da rede, define a proposta com simplicidade: “É uma loja afetiva, prática e completa, feita para quem vive e trabalha aqui por perto.”

E, de fato, há algo de afetivo nessa volta.

A herdeira Bernadete Demeterco, filha do fundador do Mercadorama, lembra que a loja da Osório foi a quinta da rede e marcou o início do modelo de autosserviço em Curitiba. “Naquela época, muitos duvidavam se as pessoas iriam se servir sozinhas. Deu certo.”

Cinquenta anos depois, o supermercado volta ao mesmo endereço — com novos donos, a mesma vocação e o mesmo espírito pioneiro. A roda gira, mas a essência fica.

9 – O tombo dos endinheirados da XP

A badalada marca que virou sinônimo de sucesso no mercado financeiro vive agora um pesadelo de imagem.

Clientes da XP Investimentos — muitos deles com carteiras milionárias — foram surpreendidos com perdas de até 93% em papéis estruturados atrelados à Braskem e à Ambipar, duas empresas em crise de liquidez e reputação.

Os chamados COEs (Certificados de Operações Estruturadas), vendidos como instrumentos “sofisticados” de investimento, acabaram se revelando uma armadilha para quem acreditou na promessa de “baixo risco” e alto retorno.

Ao aplicar o mecanismo de vencimento antecipado previsto em contrato, a XP avisou que os investidores não terão escolha: receberão apenas uma fração do que aplicaram.

A reação foi imediata — revolta, ameaças de ações judiciais e, sobretudo, um abalo na confiança da grife que se vendia como o templo da inteligência financeira.

No mercado, o episódio acendeu um alerta sobre a transparência de produtos complexos empacotados com verniz de sofisticação.

Quando os papéis ruíram, veio o velho lembrete que nenhum gráfico apaga: no mercado, a única certeza é o risco — e ele não some, apenas troca de embalagem.

A XP, que ajudou a educar investidores, agora precisa reaprender a lição básica da credibilidade: o lucro é bom, mas a confiança vale mais.

10 – A oração que virou crime

Em meio às condenações desproporcionais dos atos de 8 de janeiro, o caso de Cristiane Angélica choca pela simplicidade e pela brutalidade da injustiça.

Desempregada, 59 anos, sem histórico de violência, foi condenada a mais de 14 anos de prisão.

Seu “crime”? Estar na Esplanada com uma bíblia e uma bandeira do Brasil.

Segundo o relato, Cristiane foi empurrada pela multidão para dentro do Senado, onde buscou abrigo das bombas de efeito moral. Lá, ajoelhou-se e rezou com outras senhoras. Um policial legislativo, que a fotografou e depois testemunhou, confirmou tudo: ela não depredou, não incitou, não quebrou nem um azulejo.

Mesmo assim, o ministro Alexandre de Moraes decidiu transformar fé em delito.

O ministro Luiz Fux, em voto solitário, lembrou o óbvio: rezar não é crime, e a Constituição não criminaliza patriotismo. Mas a decisão de Moraes prevaleceu, com a habitual coreografia de unanimidades.

Depois da “Débora do Batom”, que sujou uma estátua e ganhou 14 anos de pena, veio a “Cristiane da Bíblia”, punida por rezar. Na nova liturgia da Justiça brasileira, o altar é o plenário do Supremo — e os hereges são os que ousam dobrar os joelhos.

11 – A ressaca do copo vazio

O Brasil, país do chope e do brinde fácil, vive um momento inédito: o consumo de cerveja caiu. E não é por falta de sede, mas por uma combinação de novos hábitos, remédios e modas.

A chamada geração Z já bebe menos da metade do que as anteriores: só 45% consomem álcool.

O mercado reage com o boom das cervejas sem álcool, mas enfrenta ainda o impacto dos medicamentos para emagrecimento, que reduzem o apetite — e o consumo de bebida — em até 50%.

Os bares continuam cheios, mas os copos estão mais leves. As geladeiras exibem rótulos “zero” e os brindes, agora, vêm com consciência calórica.

Mas, por outro lado, os recentes casos de contaminação por metanol em destilados assustaram o público e, para alívio das cervejeiras, empurraram parte dos consumidores de volta à segurança da cerveja e do chope.

Em suma, um gole de alento: o mercado encontra fôlego nas bolhas e na tradição — porque, no fim, ainda é no bar que o brasileiro se entende melhor.

12 – O telefonema dos afagos calculados

Depois de um aperto de mão de 30 segundos na ONU, Lula e Donald Trump conversaram por meia hora ao telefone. O diálogo, cercado de cordialidades e sorrisos, foi vendido pelo Planalto como “um recomeço” nas relações entre Brasil e Estados Unidos.

Mas quem conhece Trump sabe que toda gentileza vem com recibo.

O ex-presidente americano, que havia imposto um tarifaço contra inúmeros produtos exportados pelo Brasil, agora ensaia o papel do estadista conciliador — assoprando depois de ter mordido.

Por trás da conversa amistosa, reposiciona o tabuleiro e delega a negociação com o Brasil ao secretário de Estado Marco Rubio, filho de exilados cubanos e inimigo ferrenho da esquerda latino-americana.

Ou seja: o aperto de mão vem com luva de ferro.

Os petistas celebram o telefonema como um gesto de prestígio, mas a realidade é bem menos sentimental. Trump fala em “diálogo”, mas age em “negócios”.

E como todo bom negociador, ele sabe que às vezes é preciso sorrir antes de cobrar.

Entre o afago e a advertência, Lula saiu da ligação com a impressão de que ganhou um aliado. Talvez tenha apenas conhecido seu novo cobrador.

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