O filme que o STF não vai gostar que você veja

O Brasil vive um tempo em que a ficção política perdeu a graça: a realidade já é suficientemente grotesca.
Como testemunho desse período obscuro, estreia em 1º de novembro no YouTube o documentário The Fake Judge, obra do jornalista português Sérgio Tavares.
A produção nasceu de um episódio simbólico: Tavares foi preso pela Polícia Federal assim que desembarcou em São Paulo, a mando do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, apenas por ousar cobrir uma manifestação na Avenida Paulista.
A arbitrariedade, que poderia ser apenas mais um escândalo esquecido, transformou-se em combustível para uma investigação minuciosa sobre o ministro que hoje encarna a era de abusos, perseguições e ativismo judicial que corrói as bases da democracia brasileira.
Antes mesmo de chegar à internet, o filme percorreu salas cheias em Lisboa, Porto, Braga, Algarve, Barcelona, Paris e até no Parlamento Europeu, onde deputados assistiram atônitos ao retrato de um magistrado que acumula, sem pudor, os papéis de vítima, investigador, acusador e juiz.
Nos Estados Unidos, causou igualmente forte impacto no altos escalões da Casa Branca e só reforçou os argumentos que levaram à aplicação da Lei Magnitsky contra Moraes.
Não é pouca coisa: o Brasil, transformado em peça de museu do autoritarismo, virou caso de estudo internacional.
“The Fake Judge: The Story of a Nation in the Hands of a Psychopath” — título que dispensa tradução literal para captar a essência — traz depoimentos de juristas, exilados políticos e cidadãos perseguidos, compondo um mosaico de vozes que denunciam a erosão das liberdades no país.
Não é exagero dizer que cada sessão arranca lágrimas: as do próprio Tavares, como ele mesmo revelou, e as de plateias que se reconhecem na dor de ver a justiça transformada em instrumento de poder pessoal.
Agora, com o lançamento aberto no YouTube, não haverá como abafar o eco dessa narrativa. Resta saber se o barulho das salas virtuais será suficiente para atravessar as muralhas de um Supremo que já se acostumou a agir como censor.
O filme, afinal, é mais do que um documentário: é um espelho incômodo.
E quem se olha nele talvez descubra que a toga, quando vestida com abuso, não passa de uma fantasia de carnaval mal costurada.











