OPINIÃO

Climão na Semana do Clima

Fechou nesta sexta-feira, em Nova York, a Semana do Clima — parte da programação da Assembleia Geral da ONU —, que deveria ter marcado o prazo final para os países apresentarem suas NDCs, as metas de corte de emissões até 2035. Na teoria, um marco de compromisso. Na prática, um vexame: dos 195 signatários do Acordo de Paris, apenas 36 cumpriram o dever de casa.

Entre os mais relapsos, justamente a União Europeia, que adora posar de guardiã do planeta, vive dando sermão em países tropicais por desmatamento, queimadas e poluição, mas foi incapaz de entregar sua própria obrigação básica.

Depois do fiasco da COP29, quando ofereceu uma mixaria para o financiamento climático, chegou agora a Nova York com uma mera “declaração de intenções”, prometendo cortes de até 72,5% em relação a 1990. Um número que soa bonito, mas não passa de maquiagem: o índice mais baixo, de 66,25%, repetia a meta atual, sem ambição extra, e o mais alto ainda ficou aquém do que a desenvolvida Europa deveria oferecer.

Para piorar, pretendia usar créditos de carbono para fechar a conta. O que deveria ser exemplo virou hipocrisia — e a leniência europeia acabou dando munição para os céticos.

A China também se atrasou. Maior emissora atual e segunda do ranking histórico (atrás apenas dos Estados Unidos), sinalizou que apresentaria algo entre 10% e 15% de redução, bem abaixo dos 30% necessários para segurar o aquecimento global a 1,5ºC.

É verdade que os chineses costumam prometer menos e entregar mais, e não é desprezível o fato de liderarem o investimento em energias renováveis, baterias e veículos elétricos, que já respondem por 10% do PIB. Mas, até agora, ficaram na retórica. E a vizinha Índia, terceira maior emissora do planeta, sequer enviou ministros à reunião.

O Brasil, por sua vez, apareceu na vitrine como protagonista das negociações, mas com o vidro embaçado. Ambientalistas apontaram o óbvio: não há como cumprir a meta sem uma mudança estrutural na Petrobras. O problema é que, até 2029, o plano de negócios da estatal previa apenas US$ 9,1 bilhões — menos de 9% do total de US$ 111 bilhões — para energias de baixo carbono. O resto continuava cravado no velho petróleo.

Esse cenário de promessas não cumpridas e ausência de compromissos acabou reforçando os argumentos de Donald Trump, que voltou a repetir na tribuna da ONU que a “pegada de carbono é uma farsa inventada por pessoas mal-intencionadas”. O presidente americano, que já anunciou a retirada formal dos EUA do Acordo de Paris a partir de 2026, saiu endossado pela leniência global: quando até os autoproclamados campeões do clima não cumprem o que pregam, as vozes que desdenham as mudanças climáticas não apenas encontram eco — mas, ironicamente, acabam ganhando razão.

Tudo isso reforçou o risco de um fiasco em Belém. Até o último dia 24, apenas 87 países tinham confirmado presença na COP30 — menos da metade do necessário para dar legitimidade às votações. As normas da ONU exigem um terço para instalar a conferência e dois terços para deliberar. Com hospedagem cara, infraestrutura precária e desinteresse de CEOs de grandes empresas, a cúpula do clima brasileira corre sério risco de esvaziamento.

E, como se não bastasse, o governo Lula rasgou de vez a fantasia verde.

Pressionado, o Ibama autorizou a Petrobras a explorar petróleo na Foz do Amazonas — a nova fronteira energética do país.

Um gesto pragmático, é verdade: o mundo inteiro continua perfurando poços à espera de uma energia limpa, barata e abundante que ainda não existe. O problema não foi a decisão, mas o discurso.

Prometeu-se a transição para as renováveis como bandeira eleitoral, mas o que se entregou foi mais do mesmo: broca na rocha. Um verdadeiro estelionato ambiental — diante do qual o silêncio da ministra Marina Silva, sempre tão crítica à exploração do petróleo, soa tão constrangedor quanto ensurdecedor.

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