Jovem Pan, um troféu da ditadura

*Por Juarez Dietrich
Aí o comentarista da emissora e ex-candidato a presidente da República Felipe D’ávila diz, na manhã da última quarta-feira, 17, que o julgamento de Bolsonaro foi injusto, teatral, tudo isso que todos sabemos, antes de entrar no assunto da pauta – a possível anistia a ser aprovada pelo Congresso.
Então acrescentou que “o texto do projeto de anistia deve ser negociado com o STF e com o governo porque não adianta o Congresso aprovar um projeto com o texto que quiser e em seguida o STF anular.”
Perdão, Jovem Pan e comentarista, ao dizer isto vocês fazem tanto mal à sua própria audiência e à população em geral quanto o resto da imprensa velha, cujas “opiniões” foram adquiridas pelo regime sob a medida pasteurizada para uso do famigerado consórcio brasileiro de imprensa. Portanto não são opiniões honestas, tampouco jornalismo político pelo menos nos últimos anos.
Nestes momentos vocês estão tentando se alinhar, meio desajeitados porque são outsiders na turma? Ou apenas vocês demonstram uma ignorância absurda e vergonhosa? Ou ainda preferem assumir uma ingenuidade conveniente de quem não consegue compreender sequer o funcionamento constitucional do Estado nem enxergar a disfunção institucional da ditadura?
A velha imprensa do consórcio se propôs “analisar” jornalisticamente as realidades e as verdades que o regime da ditadura judiciária instalado a céu aberto a partir de 2019 quer que sejam, no melhor padrão George Orwell.
Ela está aí também, como vemos, para informar a população sobre a mentira dos que discordam do regime – os que moram aqui, ainda soltos ou presos, ou os exilados, multados e processados pelos inquéritos sem fim do STF, e sustentar as penas aplicadas por ela pelos crimes sem previsão legal, de “fake news”, “desinformação”, dentre outras invenções e fraudes inimagináveis, mas agora conhecidas graças ao Tagliaferro.
Chamado em seguida para adicionar seu comentário, o advogado Christiano Vilella concorda completamente com a opinião de seu colega, o comentarista anterior e presidenciável do Partido Novo, reiterando que o parlamento deveria ser pragmático e aprovar aquilo que o STF concorda.
É inacreditável ouvir isso na JP, enquanto evitamos ver até mesmo os cortes das opiniões da velha imprensa porque é tudo muito indigesto. Não convém ingerir tóxicos nem na forma de jornalismo corrupto.
Ocorre que a Jovem Pan colhe agora os frutos do conhecimento do bem e do mal ao ter aproveitado comercialmente o vácuo aberto no meio do jornalismo político do Brasil a partir de 2018, quando Bolsonaro causou uma disrupção na sociedade e no próprio jornalismo político convencional. E com isso assustou muito o estado profundo e o regime do crime organizado – que já estava estabelecido aqui sem que ainda soubéssemos ou acreditássemos.
A emissora não é doutrinária ou ideológica. É apenas comercial e foi inteligente e oportunista ao contratar para ocupar aquela janela de oportunidade os melhores jornalistas e comentaristas políticos de opinião que o Brasil dispunha.
Enquanto isso a velha mídia despencava e por isso se igualava, como até hoje faz, aos velhos jornais locais canalhas de décadas atrás, aqueles que viviam da extorsão grosseira a céu aberto contra empresários bem-sucedidos e governos corruptos locais, com mentiras, fraudes e outros tipos penais.
Enquanto uma descia, a JP subia como um foguete na audiência de seus programas políticos de notícias e opiniões. Depois virou TV, com um explosivo sucesso também.
Só que o estado profundo reagiu rapidamente, pegando com violência o Bolsonaro, que até então imaginava que poderia ser aceito pelo sistema. Era para ele perder o rumo e cair, não fosse o nível tão alto de bons ministros, bons resultados no governo e do apoio popular gigantesco.
Mas o regime pegou também Jovem Pan e a família desta octogenária empresa de rádio e agora TV.
Vieram sobre ela com uma virulência impensável e destruíram o que puderam. Os bons programas da emissora foram transformados porque o regime determinou demissões dos jornalistas e comentaristas políticos líderes de audiência, os quais também caçou como quem pretende de alguma forma neutralizar. Passaportes, contas bancárias e de redes sociais dos profissionais, tudo cancelado pela ditadura que ainda exigia dos países a ilegal extradição, depois negada.
O regime determinou ainda que a emissora ajustasse sua linha editorial e se comportasse bem porque, embora a sua respeitável história de 80 anos na sociedade paulistana, a sua condição de instituição quatrocentona amiga da elite, seria multada, punida, desmonetizada, derrubada de suas redes sociais e até mesmo perderia suas concessões federais para funcionar – esta espada ainda segue erguida pelo regime sobre o pescoço da JP.
Por isso, hoje a emissora já não sabe mais quem é politicamente. Tem um programa diurno que mistura entretenimento e humor com alguma crítica política acanhada e trêmula ao meio-dia e o antigo programa noturno líder de audiência, com notícias e comentários políticos tentando cruzar o espelho para o lado da realidade e da verdade, com dois últimos bons comentaristas, mas claramente sob uma direção sensível e seus inevitáveis contrapontos que a deixam pronta para virar a chave como já fez no passado, no temor e no tremor, ajoelhada à ditadura, torcendo para que a tempestade passe logo. Do ponto de vista do faturamento, é claro.
O fato é que está feio ver os comentaristas esquerdistas e, pior, os mornos ou igualmente pasteurizados para o contraponto, os que querem que o Congresso siga “negociando” seus projetos com a ditadura do STF.
O papel a que se presta a JP ao fazer esta salada que agora só frustra progressivamente sua antiga audiência, irritando-a com os dribles básicos que aprende da velha imprensa, deixa eloquente a falta jornalismo e a sobra de pusilanimidade.
Este “business” pendurado nas regulações estatais de terceiro mundo, sob permissão oficial ou marginal daqueles poderosos estatais e paraestatais que agora mandam em tudo, é um monstro tão feio quanto a velha imprensa.
É melhor que a Jovem Pan siga no entretenimento, na música, no humor e no futebol. E deixe o jornalismo para quem tem coragem, ousadia e intrepidez. Por causa e em nome da honestidade, da verdade e da realidade, tenha pelo menos coragem para fazer isso.
*O autor é advogado, LL.M Insper – São Paulo











