Dois jornais, duas leituras

Dois dos maiores e mais influentes jornais dos Estados Unidos deram destaque, no último fim de semana, ao processo que condenou à prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro e alguns de seus principais auxiliares por suposta tentativa de golpe de estado.
O The New York Times abriu espaço para um artigo assinado por Lula — ainda que, evidentemente, redigido por algum assessor mais letrado. Nele, o presidente mandou recados ao ex-presidente Donald Trump, reiterando estar “à disposição para sentar à mesa e negociar” o tarifaço imposto contra as exportações brasileiras. No mesmo texto, aproveitou para rasgar elogios ao Supremo Tribunal Federal, declarando-se “orgulhoso da Corte”. Não é para menos: sete dos onze ministros foram indicados por ele e por Dilma Rousseff. É praticamente um álbum de família.
Já o Wall Street Journal mostrou o outro lado da história, em coluna assinada por Mary Anastasia O’Grady. Com base no voto de Luiz Fux, a jornalista destacou a “flagrante falta de provas” contra Bolsonaro, classificando o julgamento como ideológico, não judicial. Ressaltou ainda que a condução do processo esteve nas mãos de Alexandre de Moraes, adversário declarado de Bolsonaro, acompanhado pelos votos de Flávio Dino — ex-ministro da Justiça de Lula — e Cristiano Zanin, ex-advogado pessoal do presidente.
O’Grady recordou também que, em 2017, o STF anulou a condenação por corrupção de Lula, confirmada em duas instâncias, utilizando-se de escandalosos malabarismos jurídicos. Agora, quando o réu era Bolsonaro, a Corte não se constrangeu em manter no caso um ministro que, sendo suposto alvo da conspiração, deveria ter-se declarado impedido. “Em um país sério”, escreveu a colunista, “o juiz Moraes teria se recusado a participar do julgamento”.
Coincidência ou não, enquanto Lula usava o New York Times para enaltecer a Suprema Corte que ajudou a moldar, o Wall Street Journal registrava que a mesma Corte, por meio de um voto solitário, deixou transparecer a fragilidade de um processo que ficará marcado na história por seu caráter inquisitório repleto de ilegalidades
E que, cedo ou tarde, cobrará seu preço na credibilidade das instituições brasileiras.







