OPINIÃO

COP-30: o fiasco anunciado

Quem diria que a grande ameaça à legitimidade da COP-30 não viria da resistência política dos países poluidores, nem dos defensores do negacionismo climático, mas daquilo que deveria ser o mais elementar: onde dormir.

É isso mesmo — a conferência global sobre o futuro da Terra está à beira de fracassar por falta de quartos de hotel em Belém.

O retrato é constrangedor: de quase 200 países convidados, apenas 47 delegações têm hospedagem confirmada. Menos de um quarto.

A situação, inédita nas conferências anteriores, já leva países a cortar presença. A China, nada menos que o maior emissor mundial de gases de efeito estufa, anunciou que reduzirá à metade sua comitiva.

Como esperar legalidade nas decisões se protagonistas do debate climático simplesmente não conseguem uma cama para repousar?

Não é exagero. Em reunião recente, o escritório do clima da ONU e a Secretaria Extraordinária da COP trocaram farpas em clima de tensão, tamanho o impasse.

Em junho, em Bonn, o governo brasileiro garantiu que haveria vagas para todos, prometeu uma plataforma oficial de reservas. Não cumpriu. O improviso tomou conta — marca registrada da velha ineficiência tropical.

O contraste é grotesco. Enquanto incêndios devoram florestas neste verão na Europa, aqui o incêndio é logístico.

O assunto oficial da COP-30 deixou de ser o clima e virou colchão. E, não, não é “normal”: organizadores de edições passadas — da Europa à África — já se declararam atônitos.

O que sempre esteve resolvido com um ano de antecedência, aqui virou drama a dois meses do evento.

O Brasil que se vende como liderança global em energias renováveis e guardião da maior floresta tropical do mundo não consegue garantir abrigo para a maioria dos participantes da convenção.

Quer salvar o planeta, mas não consegue arrumar hotel para os convidados.

Sem contar que o preço das diárias, diante da escassez da oferta, atingiu níveis estratosféricos, inviabilizando a vinda de dezenas de países pobres.

Se a COP-30 marcar época, será não pelo avanço no enfrentamento às mudanças climáticas, mas como a conferência sufocada pela falta de travesseiros.

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