A evasão dos ricos e o empobrecimento de ideias

Não se trata de puxar o lenço de seda para enxugar as lágrimas dos milionários. O ponto é outro: quando famílias de alta renda decidem trocar o passaporte carimbado em Guarulhos por vistos de residência em Miami, Dubai ou Lisboa, o Brasil perde mais do que cifras. Perde cérebros, perde empreendedores, perde energia vital para inovação e competitividade.
Um levantamento da Henley & Partners estima que 1,2 mil brasileiros com patrimônio acima de US$ 1 milhão deixarão o país em 2025 — alta de 50% em relação a 2024. É um êxodo que já custou caro: só na última década, segundo o Instituto Millenium, 18% dos milionários brasileiros desapareceram do mapa interno. Se a estatística não convence, talvez convença o caixa: US$ 8,4 bilhões (cerca de R$ 46 bilhões) devem voar junto com esses passaportes.
O Brasil ocupa hoje a sexta posição mundial em fuga de milionários, atrás apenas de potências demográficas como Reino Unido, China, Índia, Coreia do Sul e Rússia. Um ranking nada honroso, mas que traduz uma realidade amarga: aqui não falta apenas segurança, falta horizonte.
Segundo especialistas, o roteiro da debandada começa quase sempre na violência, mas não para por aí. Pesam também os impostos sufocantes, a aposentadoria incerta, a instabilidade política, a volatilidade cambial, a falta de oportunidades de trabalho e de educação para os filhos. Em outras palavras: um “contrato social rompido”, no qual se paga caro e se recebe pouco. E o resultado é o “cansaço profundo” de viver num país onde as regras mudam a cada governo e a previsibilidade é artigo de luxo.
Não é só o dinheiro que parte. É também a mentalidade. Quem fica adota um perfil defensivo: em vez de investir, prefere blindar o patrimônio e mandar parte dele para fora. Até as doações sociais, já tão escassas, rareiam ainda mais. O ecossistema de startups se fragiliza, o mercado imobiliário perde dinamismo, os serviços de alto padrão — arquitetura, gestão de patrimônio, luxo — encolhem. Uma espiral de empobrecimento silenciosa, mas persistente.
E convém lembrar: o caso britânico serve de alerta. Ao tentar “taxar os ricos” com medidas trabalhistas em 2024 — aumento de impostos sobre herança e ganhos de capital, fim de benefícios para estrangeiros — o Reino Unido produziu um efeito bumerangue. Resultado: fuga acelerada de contribuintes e uma arrecadação 18% menor. Ou seja, não foi bom para ninguém.
Enquanto isso, os destinos previsíveis e estáveis fazem fila para receber essa elite. Emirados Árabes Unidos lideram: 9,8 mil milionários devem desembarcar ali neste ano, atraídos por imposto de renda zero, infraestrutura de classe mundial e estabilidade política. Logo atrás aparecem Estados Unidos, Itália, Suíça, Arábia Saudita, Singapura, Portugal, Grécia, Canadá e Austrália. Até a Grécia, que há pouco flertava com a bancarrota, agora colhe os frutos de ter consertado sua economia e oferecido previsibilidade.
No Brasil, seguimos cultivando a arte do espantalho. Inventamos tributos novos, testamos a paciência de quem produz e vendemos a ilusão de que a riqueza pode ser perseguida sem consequências.
Quando o avião decola levando embora uma dessas famílias, não é só uma cobertura de frente para o mar que fica vazia. É um pedaço do futuro que parte junto.









