A Ópera do Malandro nunca foi tão atual

Surpresa das boas — e sinal dos tempos: até O Globo, outrora fiel escudeiro do sistema e trincheira de militantes disfarçados de jornalistas, resolveu abrir espaço para opiniões que contrariam o regime. É de se saudar, ironicamente, a guinada editorial: se até a casa da família Marinho começa a dar voz ao contraditório, é porque o enredo oficial já não convence nem os mais fiéis.
O cientista político Eduardo Sholl Machado, mestre em relações internacionais, publicou no jornal um artigo que escancara a malandragem do governo petista: a tentativa de usar o tarifaço imposto pelos Estados Unidos como vitimização política. E o autor fez isso com rara elegância literária, evocando a “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque, para ilustrar como pequenos truques e desvios internos vão crescendo até esbarrarem nos interesses norte-americanos — que, ao fim da peça, descem o pano e cobram a conta.
Na leitura de Sholl, foi exatamente isso o que ocorreu no Brasil. A decisão do Supremo Tribunal Federal de anular as condenações de Lula — aquele passe de mágica que reabilitou o ex-presidente e abriu caminho para a volta do lulopetismo — foi o estopim de uma bola de neve institucional. Pior: um dos ministros, Luiz Roberto Barroso, não teve pudor em anunciar o objetivo político da manobra com a célebre frase “nós derrotamos o bolsonarismo”. O ato de maior parcialidade da história recente do Judiciário virou o marco fundador de toda a crise atual.
De lá para cá, lembra o articulista, o devido processo legal virou opcional, a letra da lei foi esvaziada, a liberdade de expressão foi descartada, os limites constitucionais entre os Poderes foram ignorados. Inocentes foram perseguidos e presos, alguns perderam a vida. O Brasil alinhou-se cada vez mais ao eixo das ditaduras, liderado pela China. O resultado dessa mistura tóxica? Uma palavra inédita usada por Donald Trump para se referir ao Brasil: “regime”. O termo, como se sabe, não é reservado a democracias.
O tarifaço imposto por Washington é, portanto, o “taxa a cachaça a um preço assustador” da canção de Chico. Nossa confusão doméstica transbordou e atingiu os interesses dos Estados Unidos. E, tal qual na ópera, chegou a hora de perguntar quem é o verdadeiro malandro da trama e se ele será “autuado, julgado e condenado culpado pela situação”.
Sholl lembra que, no plano internacional, esse protagonista já foi sancionado sob a Lei Magnitsky. Internamente, a responsabilidade caberia ao Senado, onde repousam dezenas de pedidos de impeachment. Mas a inércia dos senadores apenas confirma o diagnóstico sombrio: vivemos sob um regime em que a tirania se exerce “à sombra das leis e com as cores da Justiça”.
E quando até O Globo publica um texto assim, é porque a narrativa oficial ruiu. A ópera perdeu o tom, o maestro se perdeu no compasso — e a plateia começa a perceber quem, de fato, é o malandro da história.








Artigo sensacional, parabéns Caio.