Opinião

A toga que abriga a quadrilha

Há jornalistas que escrevem para agradar e há os que escrevem para incomodar; Malu Gaspar pertence, com folga, à segunda espécie.

Autora de “A Organização”, obra de referência sobre a ascensão e a queda da Odebrecht — a empreiteira que transformou propina em método de gestão e corrompeu políticos do Brasil e meio mundo, num esquema que chocou a opinião pública internacional —, a colunista de O Globo construiu reputação justamente por não temer poderosos nem suavizar o que apura.

Na coluna mais recente, ela disseca o confronto entre os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça durante o julgamento que manteve presos Henrique e Felipe Vorcaro, pai e primo do banqueiro Daniel Vorcaro, e entrega uma radiografia exata de quanto o Supremo Tribunal Federal se deixou contaminar pelo escândalo do Banco Master.

Os fatos narrados são de uma crueza que dispensa adjetivos.

Henrique Vorcaro, segundo a Polícia Federal, comandava grupos de milicianos, bicheiros e hackers remunerados em torno de um milhão de reais mensais, e negociava, até a véspera de sua prisão, o silêncio da irmã de Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, que se enforcou na cela pouco depois de detido.

As mensagens capturadas pela polícia revelam ameaças de morte, fuzis e promessas de destruir a própria família caso o silêncio não fosse comprado. Felipe Vorcaro, por sua vez, organizava o pagamento de mesada ao senador Ciro Nogueira e continuou lavando dinheiro do esquema até abril deste ano, movimentando, conforme o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, mais de dezoito bilhões de reais entre quase 1.200 pessoas físicas e jurídicas.

Diante desse acervo, Gilmar Mendes escolheu outro caminho. De um voto que durou quase uma hora e vinte minutos, dedicou um terço a comparar a Operação Compliance Zero com a Lava-Jato, seu alvo predileto de ressentimento, sob a alegação de que ambas cometeriam os mesmos abusos processuais — prender parentes para forçar delações, juízes agindo em conluio com investigadores.

A seletividade do ministro, porém, salta aos olhos de quem acompanha sua trajetória.

É o mesmo Gilmar que jamais se incomodou com a prisão preventiva de quatro meses imposta ao tenente-coronel Mauro Cid, fechada apenas entre a Polícia Federal e o ministro Alexandre de Moraes, contra a opinião da Procuradoria-Geral da República.

É o mesmo ministro que permaneceu calado quando Cid trocou de versão pelo menos cinco vezes, e quando áudios vazados à imprensa revelaram o ex-ajudante de ordens dizendo ter sido pressionado a ajustar seus depoimentos a uma narrativa já fechada pelo juiz-investigador.

E foi o mesmo Gilmar que nunca questionou a prisão do general Walter Braga Netto, suspeito de tentar enviar recados a Cid dentro do presídio por meio do próprio pai do tenente-coronel, o general Lourena Cid.

Diante de réus daquele processo, o rigor lhe pareceu natural; diante dos Vorcaro, transforma-se em indignação seletiva.

Não é a primeira vez que o ministro deixa escapar a régua dupla com que mede o tempo da Justiça.

Há menos de dois meses, em entrevista a Renata Lo Prete na TV Globo, afirmou que o inquérito das fake news se estenderá, no mínimo, até o fim das eleições de 2026, sem qualquer fundamentação que o vinculasse à Constituição ou ao combate ao crime organizado.

O calendário do Judiciário, nesses casos, parece obedecer menos ao Código de Processo Penal do que à conveniência eleitoral de quem o maneja.

Há uma máxima conhecida nos corredores de Brasília, e Malu Gaspar não deixa de evocá-la: para essa ala do tribunal, Estado de Direito é aquele que castiga o adversário; quando alcança o aliado, batizam-no de perseguição.

André Mendonça, relator do caso, não se deixou levar pela pressão do colega. Resistiu a uma proposta de delação que classificou de “descaramento” e denunciou, em voto firme, a existência de um roteiro montado para fabricar nulidades onde os crimes já são incontestáveis: primeiro se espalham questionamentos capazes de sustentar alegações de vício processual; depois se arranja um fato que lance suspeita sobre a isenção dos investigadores; por fim, derrubam-se sentenças e multas até que a quadrilha esteja livre e desembaraçada.

Disse-se vigilante, não ingênuo, e afirmou acompanhar de perto cada movimento dessa engenharia.

O julgamento terminou em três votos a um pela manutenção das prisões — placar que poderia ter sido revertido se Gilmar obtivesse a adesão de mais um colega da Segunda Turma.

O que essa sessão revela, ao fim e ao cabo, ultrapassa a fragilidade moral de um ou outro ministro: mostra o apetite que setores do Judiciário desenvolveram por proteger, a qualquer custo, quem deveria ser julgado por ele.

Lampedusa escreveu, n’O Leopardo, que era preciso mudar tudo para que nada mudasse de fato — e a Suprema Corte brasileira parece ter transformado essa ironia literária em rotina de gabinete: reformam-se ritos, multiplicam-se códigos de ética, anunciam-se comissões, mas o essencial permanece intocado.

E o mais chocante é sermos obrigados a tolerar integrantes da mais alta corte de Justiça da República atuando, de fato e de direito, como sócios protetores de criminosos de colarinho branco, num pacto de impunidade que envergonha o Brasil perante o mundo civilizado.

É esse o país que queremos deixar para nossos filhos e netos?

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo