Rubio dá nome aos bois

Certas definições levam um século para serem escritas e cabem numa única frase.
Marco Rubio encontrou a sua no dia 16 de julho, no Departamento de Estado, ao abrir a Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político diante de delegações de 66 países.
Não se trata de um diplomata qualquer. Filho de imigrantes cubanos, Rubio cresceu em Miami, no coração da diáspora que o regime de Havana não para de empurrar para a Flórida e muito além.
Presidiu a Câmara estadual da Flórida, passou 14 anos no Senado, disputou as prévias republicanas à Casa Branca e se firmou como um dos expoentes da jovem direita americana.
Quando fala de comunismo, fala de cátedra. O que descreve não saiu de livro nenhum: é o que a família, os parentes e os conterrâneos viveram e ainda vivem sob o castrismo.
O secretário de Estado norte-americano foi ao miolo da questão. Para ele, o que move a violência da esquerda radical é a repulsa pela própria civilização.
“É uma revolta do pior contra o melhor, uma revolta do fraco e do covarde contra o forte e o bom”, sentenciou. E completou com precisão de cirurgião: trata-se da obra de quem não consegue construir, não consegue criar, não consegue realizar nada de grandioso e, por isso, se vinga do mundo tentando destruir quem consegue. “É isso que o esquerdismo radical é.”
Raras vezes uma autoridade desse porte resumiu com tanta clareza o ódio dos fracassados contra os vitoriosos.
A frase de Rubio não é um arroubo de palanque. É o retrato fiel de uma ideologia que atravessou o século passado trocando de roupa sem nunca trocar de alma.
A esquerda é um baile de máscaras que nunca acaba. Ao longo do século XX mudou de figurino quantas vezes foi preciso para continuar no salão.
Saiu da Segunda Guerra Mundial dona de boa parte da pista: a Europa estava em escombros, meio planeta vivia à sombra de Moscou e as universidades do Ocidente se encantavam com a promessa de um mundo sem patrões. O modelito mudava conforme a estação. A música era sempre a mesma.
A primeira fantasia, a mais sincera porque não esconde nada, é a do comunismo de punho cerrado. Na União Soviética de Stalin, a utopia proletária virou fome planejada na Ucrânia, campos de trabalho forçado no Gulag e expurgos que devoraram até os próprios camaradas.
Na China de Mao, o Grande Salto Adiante matou de fome algo entre 30 e 45 milhões de pessoas em nome da coletivização. Depois veio a Revolução Cultural, que queimou livros, humilhou professores e soterrou o pouco de bom senso que restava.
A ironia da história é saborosa. A China só virou potência quando Deng Xiaoping guardou a cartilha de Mao na gaveta e abriu as portas ao mercado. O partido único segue lá, com bandeira vermelha e mão de ferro, mas a prosperidade que reluz em Xangai e Shenzhen tem sobrenome capitalista.
Cuba e Coreia do Norte são os museus vivos desse modelo. A ilha dos Castro já esteve entre as economias mais avançadas da América Latina. Há mais de seis décadas, exibe ao mundo apagões, cadernetas de racionamento, carros dos anos 1950 remendados com arame e uma juventude que prefere arriscar a vida no mar a envelhecer sob a revolução.
A Coreia do Norte leva o espetáculo ao extremo: um regime hermético que deixou parte da população morrer de fome nos anos 1990, executa opositores e mantém campos de prisioneiros enquanto a dinastia Kim engorda no palácio.
Quando o traje manchado de sangue passou a pegar mal, a esquerda trocou de alfaiate. O “comunismo” virou “socialismo”, e o “socialismo” virou “social-democracia”, palavra que soa a vinho tinto e concerto de câmara.
Na Europa, o Estado de bem-estar prometeu cuidar do cidadão do berço ao túmulo e, por décadas, mandou a fatura para a geração seguinte. A fatura chegou.
A França carrega uma dívida acima de 110% do PIB, derruba governos em série e vê as ruas pegarem fogo sempre que alguém ousa mexer na aposentadoria. A Espanha socialista convive com um dos maiores índices de desemprego juvenil do continente e com multidões em protesto. A Alemanha, que já foi a locomotiva do bloco, patina há anos.
Nem o éden nórdico, eterno álibi de quem jura que o modelo funciona, escapou da revisão. A Suécia quebrou no início dos anos 1990, com um Estado tão inchado que sufocava a própria economia. Só se reergueu cortando gastos, reformando a previdência e abrindo escolas e serviços de saúde à iniciativa privada.
Os vizinhos escandinavos, cada um a seu modo, vêm apertando regras, enxugando benefícios e adiando aposentadorias para manter a máquina de pé. Os nórdicos continuam ricos, é verdade. Mas continuam ricos justamente porque, quando a utopia ameaçou o saldo bancário, ficaram com a planilha.
Esse é o desfile que Rubio desmascarou de uma vez só. O secretário também demoliu um dos clichês mais preguiçosos do debate político, o de que o comunismo seria bonito na teoria e só falharia na prática. “Isso não é verdade. O comunismo não soa bem nem na teoria”, rebateu.
O mundo que ele projeta para todos nós, nas palavras de Rubio, é pequeno, plano, cinzento, nivelado por baixo e esvaziado de tudo o que há de bom e nobre na alma humana.
Um mundo sem Deus, sem coragem e sem grandeza, onde ninguém pode se destacar porque o destaque é um crime contra a igualdade. Ele chamou isso de ressentimento venenoso travestido com a linguagem da igualdade e da justiça.
E disse por que o Ocidente é o alvo preferencial: a civilização ocidental é a lembrança permanente daquilo que essa gente não consegue fazer nem ser.
E não é preciso carteirinha de direita para chegar à mesma conclusão. Basta olhar o mapa. A foto de satélite da península coreana à noite mostra o Sul aceso como uma árvore de Natal e o Norte mergulhado no breu.
O Muro de Berlim foi erguido para impedir que as pessoas fugissem do socialismo, nunca para impedir que alguém entrasse nele. A Venezuela, dona das maiores reservas de petróleo do planeta, exportou milhões de refugiados.
Nenhuma ideologia é necessária para ler esses fatos. Bastam olhos abertos e um mínimo de honestidade intelectual.
Daí nasce uma responsabilidade que a direita não pode terceirizar. A esquerda é imbatível na arte de vender o paraíso à vista e entregar o inferno a prazo. Ilude, manipula, promete o impossível e jamais faz autocrítica.
Seus crimes viram “excessos”, seus fracassos viram “sabotagem” e, para ela, os fins justificam qualquer meio.
Do outro lado, a direita quer ser mais correta, mais ética, mais escrupulosa, e muitas vezes perde a batalha da narrativa exatamente por isso.
Ninguém sensato propõe que ela copie os métodos do adversário. Mas ela precisa se proteger, aprender a contar a própria história com a mesma paixão com que a esquerda vende ilusões e, sobretudo, entregar resultados que falem por si.
O ressentimento sempre teve um marketing melhor. Falta à direita lembrar, sem vergonha e sem medo, que nem Oriente nem Ocidente devem coisa alguma aos demolidores de plantão.
Os sábios da China antiga, os matemáticos da Índia, os construtores de catedrais e os inventores de vacinas escreveram a história da civilização com a mesma tinta.
Tudo o que a humanidade já ergueu de mais livre, próspero e duradouro nasceu das mãos de quem cria. Nunca saiu do rancor de quem só sabe derrubar.



